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O CAIBALION

Texto integral

Parte I — Os Três Iniciados (15 capítulos) · Parte II — As Sete Leis Cósmicas (10 capítulos) — 716 parágrafos

Texto integral para estudo e referência. A versão didática e ilustrada (Técnica Feynman) está em Caibalion Descomplicado.
Parte I — O Caibalion, obra original de 1908 (domínio público).
Parte II — As Sete Leis Cósmicas (1931), na tradução da edição definitiva comentada (2018).
PARTE I · O CAIBALION — 15 CAPÍTULOS

Introdução

Temos grande prazer em apresentar aos estudantes e investigadores da Doutrina Secreta esta pequena obra baseada nos Preceitos herméticos do mundo antigo. Existem poucos escritos sobre este assunto apesar das inúmeras referências feitas pelos ocultistas aos Preceitos que expomos, de modo que por isso esperamos que os investigadores dos Arcanos da Verdade saberão dar bom acolhimento ao livro que agora aparece.

O fim desta obra não é a enunciação de uma filosofia ou doutrina especial, mas sim fornecer aos estudantes uma exposição da Verdade que servirá para reconciliar os fragmentos do conhecimento oculto que adquiriram, mas que são aparentemente opostos uns aos outros e que só servem para desanimar é desgostar o principiante neste estudo. O nosso intento não é construir um novo Templo de Conhecimento, mas sim colocar nas mãos do estudante uma ChaveMestra com que possa abrir todas as portas internas que conduzem ao Templo do Mistério cujos portais já entrou.

Nenhum fragmento dos conhecimentos ocultos possuídos pelo mundo foi tão zelosamente guardado como os fragmentos dos Preceitos herméticos que chegaram - até nós através dos séculos passados desde o tempo do seu grande estabelecedor, Hermes Trismegisto, o mensageiro dos deuses, que viveu no antigo Egito quando a atual raça humana estava em sua infância. Contemporâneo de Abraão e se for verdadeira a lenda, instrutor deste venerável sábio, Hermes foi e é o Grande Sol Central do Ocultismo, cujos raios têm iluminado todos os ensinamentos que foram publicados desde o seu tempo. Todos os preceitos fundamentais e básicos introduzidos nos ensinos esotéricos de cada raça foram formulados por Hermes. Mesmo os mais antigos preceitos da índia tiveram indubitavelmente a sua fonte nos Preceitos herméticos originais.

Da terra do Ganges muitos mestres avançados se dirigiram para o país do Egito para se prostrarem aos pés do Mestre. Dele obtiveram a Chave-Mestra que explicava e reconciliava os seus diferentes pontos de vista, e assim a Doutrina Secreta ficou firmemente estabelecida. De outros países também vieram muitos sábios, que consideravam Hermes como o Mestre dos Mestres; e a sua influência foi tão grande que, apesar dos numerosos desvios de caminho de centenas de instrutores desses diferentes países, ainda se pode facilmente encontrar uma certa semelhança e correspondência nas muitas e divergentes teorias admitidas e combatidas pelos ocultistas de diferentes países atuais. Os estudantes de Religiões comparadas compreenderão facilmente a influência dos Preceitos herméticos em qualquer religião merecedora deste nome, quer seja uma religião apenas conhecida atualmente, quer seja uma religião morta, ou uma religião cheia de vida no nosso próprio tempo. Existe sempre uma correspondência entre elas, apesar das aparências contraditórias, e os Preceitos herméticos são como que o seu grande Conciliador.

A obra de Hermes parece ter sido feita com o fim de plantar a grande VerdadeSemente que se desenvolveu e germinou em tantas formas estranhas, mais depressa do que se teria estabelecido uma escola de filosofia que dominasse o pensamento do mundo. Todavia as verdades originais ensinadas por ele foram conservadas intatas na sua pureza original, por um pequeno número de homens, que, recusando grande parte de estudantes e discípulos pouco desenvolvidos, seguiram o costume hermético e reservaram as suas verdades para os poucos que estavam preparados para compreendê-las e dirigi-Ias. Dos lábios aos Ouvidos a verdade tem sido transmitida entre esses poucos. Sempre existiram, em cada geração e em vários países da terra, alguns Iniciados que conservaram viva a sagrada chama dos Preceitos herméticos, e sempre empregaram as suas lâmpadas para reacender as lâmpadas menores do mundo profano, quando a luz da verdade começava a escurecer e a apagar-se por causa da sua negligência, e os seus pavios ficavam embaraçados com substâncias estranhas. Existiu sempre um punhado de homens Para cuidar do altar da Verdade, em que mantiveram sempre acesa a Lâmpada Perpétua da Sabedoria. Estes homens dedicaram a sua vida a esse trabalho de amor que o poeta muito bem descreveu nestas linhas:

"Oh! não deixeis apagar a chama! Mantida De século em século Nesta escura caverna,Neste templo sagrado!Sustentada por puros ministros do amor! Não deixeis apagar esta divina chama!"

Estes homens nunca procuraram a aprovação popular, nem grande número de prosélitos. São indiferentes a estas coisas, porque sabem quão poucos de cada geração estão preparados para a verdade, ou podem reconhecê-la se ela Ihes for apresentada. Reservam a carne para os homens feitos, enquanto outros dão o leite às crianças. Reservam suas pérolas de sabedoria para os poucos que conhecem o seu valor e sabem trazê-las nas suas coroas, em vez de as lançar ao porco vulgar, que enterrá-las-ia na lama e as Misturaria com o seu desagradável alimento mental. Mas esses poucos não esqueceram nem desprezaram os preceitos originais de Hermes, que tratam da transmissão das palavras da verdade aos que estão preparados para recebê-la, a respeito dos quais diz o Caibalion: "Em qualquer lugar que se achem os vestígios do Mestre, os ouvidos daqueles que estiverem preparados para receber o seu Ensinamento se abrirão, completamente. " E ainda: "Quando os ouvidos do discípulo estão preparados para ouvir, então vêm os lábios para enchê-los com sabedoria. " Mas a sua atitude habitual sempre esteve estritamente de acordo com outro aforismo hermético também do Caibalion: "Os lábios da Sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento."

Os que não podem compreender são os que criticaram esta atitude dos Hermetistas e clamaram que eles não manifestavam o verdadeiro espírito dos seus ensinamentos nas astuciosas reservas e reticências que faziam. Porém um rápido olhar retrospectivo nas páginas da história mostrará a sabedoria dos Mestres, que conheciam que era uma loucura pretender ensinar ao mundo o que ele não desejava saber, nem estava preparado para isso. Os Hermetistas nunca quiseram ser mártires; antes pelo contrário, ficaram silenciosamente retirados com um sorriso de piedade nos seus fechados lábios enquanto os bárbaros se enfureciam contra eles nos seus costumeiros divertimentos de levar à morte e à tortura os honestos mas desencaminhados entusiastas, que julgavam ser possível obrigar uma raça de bárbaros a admitir a verdade, que só pode ser compreendida pelo eleito já bastante avançado no Caminho.

E o espírito de perseguição ainda não desapareceu da terra.

Há certos preceitos herméticos que, se fossem divulgados, atrairiam contra os divulgadores uma gritaria de desprezo e de ódio por parte da multidão, que tornaria a gritar: "Crucificai-os! Crucificai-os!

Nesta obra nós nos esforçamos por vos oferecer uma idéia dos preceitos fundamentais do Caibalion, procurando dar os Princípios acionantes e vos deixando o trabalho de os estudar, em vez de tratarmos detalhadamente dos seus ensinamentos. Se fordes verdadeiros estudantes podereis compreender e aplicar estes Princípios; se o não fordes deveis vos desenvolver, porque de outra maneira os Preceitos herméticos serão para vós somente palavras, palavras, palavras!!! ...

Capítulo I
Os Três Iniciados - A Filosofia Hermética

"Os lábios da sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento." - O CAIBALION -

Do velho Egito saíram os preceitos fundamentais esotéricos e ocultos que tão fortemente têm influenciado as filosofias de todas as raças, nações e povos, por vários milhares de anos. O Egito, a terra das Pirâmides e da Esfinge, foi a pátria da Sabedoria secreta e dos Ensinamentos místicos. Todas as nações receberam dele a Doutrina secreta. A índia, a Pérsia, a,Caldéia, a Média, a China, o Japão, a Assíria, a antiga Grécia e Roma e outros países antigos aproveitaram lautamente dos fatos do conhecimento, que os Hierofantes e Mestres da Terra de Isis tão francamente ministravam aos que estavam preparados para participar da grande abundância de preceitos místicos e ocultos, que as mentes superiores deste antigo país tinham continuamente condensado.

No antigo Egito viveram os grandes Adeptos e Mestres que nunca mais foram avantajados, e raras vezes foram igualados, nos séculos que se passaram desde o tempo do grande Hermes. No Egito estava estabelecida a maior das Lojas dos Místicos. Pelas portas dos seus Templos entraram os Neófitos que mais tarde, como Híerofantes, Adeptos e Mestres, se espalharam por todas as partes da terra, levando consigo o precioso conhecimento que possuíam, ansiosos e desejosos de ensiná-lo àqueles que estivessem preparados para recebê-lo. Todos os estudantes do Oculto conhecem a dívida que têm para com os veneráveis Mestres deste antigo país.

Mas entre estes Grandes Mestres do antigo Egito, existiu um que eles proclamavam como o Mestre dos Mestres. Este homem, se é que foi verdadeiramente um homem, viveu no Egito na mais remota antiguidade. Ele foi conhecido sob o nome de Hermes Trismegisto. Foi o pai da Ciência Oculta, o fundador da Astrologia, o descobridor da Alquimia. Os detalhes da sua vida se perderam devido ao imenso espaço de tempo, que é de milhares de anos, e apesar de muitos países antigos disputarem entre si a honra de ter sido a sua pátria. A data da sua existência no Egito, na sua última encarnação neste planeta, não é conhecida agora mas foi fixada nos primeiros tempos das mais remotas dinastias do Egito, muito antes do tempo de Moisés. As melhores autoridades consideram-no como contemporâneo de Abraão, e algumas tradições judaicas dizem claramente que Abraão adquiriu uma parte do seu conhecimento místico do próprio Hermes.

Depois de ter passado muitos anos da sua partida deste plano de existência (a tradição afirma que viveu trezentos anos) os egípcios deificaram Hermes e fizeram dele um dos seus deuses sob o nome de Thoth. Anos depois os povos da Antiga Grécia também o deificaram com o nome de "Hermes, o Deus da Sabedoria". Os egípcios reverenciaram por muitos séculos a sua memória, denominando-o o mensageiro dos Deuses, e ajuntando-lhe como distintivo o seu antigo título "Trismegisto", que significa o três vezes grande, o grande entre os grandes.

Em todos os países antigos, o nome de Hermes Trismegisto foi reverenciado, sendo esse nome considerado como sinônimo de "Fonte de Sabedoria".

Ainda em nossos dias empregamos o termo hermético no sentido de secreto, fechado de tal maneira que nada escapa, etc., pela razão que os discípulos de Hermes sempre observaram o princípio do segredo nos seus preceitos. Eles ignoravam aquele não lançar as pérolas aos porcos, mas conservavam o preceito de dar leite às crianças, e carne aos homens feitos, máximas que são familiares a todos os leitores das Escrituras Cristãs, mas que já eram usadas pelos egípcios, muitos séculos antes da era cristã. Os Preceitos herméticos estão espalhados em tocos os países e em todas as religiões, mas não pertencem a nenhuma seita religiosa particular. Isto acontece por causa das advertências feitas pelos antigos instrutores com o fim de evitar que a Doutrina Secreta fosse cristalizada em um credo. A sabedoria desta precaução é clara para todos os estudantes de história. O antigo ocultismo da índia e da Pérsia degenerou-se e perdeu-se completamente, porque os seus instrutores tornaram-se padres, e misturaram a teologia com a filosofia, vindo a ser, por conseqüência, o ocultismo da índia e da Pérsia, gradualmente perdido no meio das massas de religiões, superstições, cultos, credos e deuses. O mesmo aconteceu com a antiga Grécia e Roma e também com os Preceitos herméticos dos Gnósticos e Cristãos primitivos, que se perderam no tempo de Constantino, e que sufocaram a filosofia com o manto da teologia, fazendo assim a Igreja perder aquilo que era a sua verdadeira essência e espírito, e andar às cegas durante vários séculos, antes de tomar o seu verdadeiro caminho; porque todos os bons observadores deste vigésimo século dizem que a Igreja está lutando para voltar aos seus antigos ensinamentos místicos.

Apesar de tudo isso sempre existiram algumas almas fiéis que mantiveram viva a Chama, alimentando-a cuidadosamente e não deixando a sua luz se extinguir. E graças a estes firmes corações e intrépidas mentes, temos ainda conosco a verdade. Mas a maior parte desta não se acha nos livros. Tem sido transmitida de Mestre a Discípulo, de Iniciado a Hierofante, dos lábios aos ouvidos. Ainda que esteja escrita em toda parte, foi propositalmente velada com termos de alquimia e astrologia, de modo que só os que possuem a chave podem-na ler bem. Isto era necessário para evitar as perseguições dos teólogos da Idade Média que combatiam a Doutrina Secreta a ferro, fogo, pelourinho, forca e cruz.

Ainda atualmente só encontramos alguns valiosos livros de Filosofia hermética, apesar das numerosas referências feitas a ela nos vários livros escritos sobre diversas fases do Ocultismo. Contudo, a Filosofia hermética é a única ChaveMestra que pode abrir todas as portas dos Ensinamentos Ocultos!

Nos primeiros tempos existiu uma compilação de certas Doutrinas básicas do Hermetismo, transmitida de mestre a discípulo, a qual era conhecida sob o nome de "Caibalion", cuja significação exata se perdeu durante vários séculos. Este ensinamento é, contudo, conhecido por vários homens a quem foi transmitido dos lábios aos ouvidos, desde muitos séculos.

Estes preceitos nunca foram escritos ou impressos até chegarem ao nosso conhecimento. Eram simplesmente uma coleção de máximas, preceitos e axiomas, não inteligíveis aos profanos, mas que eram prontamente entendidos pelos estudantes; e além disso, eram depois explicados e ampliados pelos Iniciados Hermetistas aos seus Neófitos. Estes preceitos constituíam realmente os princípios básicos da Arte da Alquimia Hermética que, contrariamente ao que geralmente se crê, baseia-se no domínio das Forças Mentais, em vez de no domínio dos Elementos materiais; na Transmutação das Vibrações mentais em outras, em vez de na mudança de uma espécie de metal em outra. As lendas da Pedra Filosofal, que transformava qualquer metal em ouro, eram alegorias da Filosofia hermética perfeitamente entendidas por todos os estudantes do verdadeiro Hermetismo.

Neste livro, cuja primeira lição é esta, convidamos os estudantes a examinar os Preceitos herméticos tal como são expostos no Caibalion e explicados por nós, humildes estudantes desses Preceitos' que, apesar de termos o título de Iniciados, somos simples estudantes aos pés de Hermes, o Mestre. Nós lhes oferecemos muitos axiomas, máximas e preceitos do Caibalion, acompanhados de explicações e comentários, que cremos servir para tornar os seus preceitos mais compreensíveis ao estudante moderno, principalmente porque o texto original é velado de propósito com termos obscuros.

As máximas, os axiomas e preceitos originais do Caíbalíon são impressos em tipo diferente do tipo geral da nossa obra. Esperamos que os estudantes a quem oferecemos esta obra, como possam tirar muito proveito do estudo das suas páginas como tiraram outros que passaram antes pelo Caminho do Adeptado, nos séculos decorridos desde o tempo de Hermes Trismegisto, o Mestre dos Mestres, o Três Vezes Grande.

Diz o Caibalion:

"Em qualquer lugar que estejam os vestígios do Mestre, os ouvidos daquele que estiver preparado para receber o seu Ensinamento se abrirão completamente".

"Quando os ouvidos do discípulo estão preparados para ouvir, então vêm os lábios para os encher com Sabedoria."

De modo que, de acordo com o indicado, só dará atenção a este livro aquele que tiver uma preparação especial para receber os Preceitos que ele transmite. E, reciprocamente, quando o estudante estiver preparado para receber a verdade, também este livro lhe aparecerá. Esta é a Lei. O Princípio hermético de Causa e Efeito, no seu aspecto de Lei de Atração, levará os ouvidos para junto dos lábios e o livro para junto do discípulo. Assim são os átomos!

Capítulo II
Os sete princípios herméticos

"Os Princípios da Verdade são Sete; aquele que os conhece perfeitamente, possui a Chave Mágica com a qual todas as Portas do Templo podem ser abertas completamente." - O CAIBALION-

Os Sete Princípios em que se baseia toda a Filosofia hermética são os seguintes:

I. O Princípio de Mentalismo.

II. O Princípio de Correspondência.

III. O Princípio de Vibração.

IV. O Princípio de Polaridade.

V. O Princípio de Ritmo.

VI. O Princípio de Causa e Eleito.

VII . O Princípio de Gênero.

Estes Sete Princípios podem ser explicados e explanados, como vamos fazer nesta lição. Uma pequena explanação de cada um deles pode ser feita agora, e é o que vamos fazer.

I. O Principio de Mentalismo

"O TODO é MENTE; o Universo é Mental." - O CAIBALION -

Este Princípio contém a verdade que Tudo é Mente. Explica que O TODO (que,é a Realidade substancial que se oculta em todas as manifestações e aparências que conhecemos sob o nome de Universo Material, Fenômenos da Vida, Matéria, Energia, numa palavra, sob tudo o que tem aparência aos nossos sentidos materiais) é ESPÍRITO, é INCOGNOSCíVEL e INDÈFINFVEL em si mesmo, mas pode ser considerado como uma MENTE VIVENTE INFINITA e UNIVERSAL. Ensina também que todo o mundo fenomenal ou universo é simplesmente uma Criação Mental do TODO, sujeita às Leis das Coisas criadas, e que o universo, como um todo, em suas partes ou unidades, tem sua existência na mente do TODO, em cuja Mente vivemos, movemos e temos a nossa existência. Este Princípio, estabelecendo a Natureza Mental do Universo, explica todos os fenômenos mentais e psíquicos que ocupam grande parte da atenção pública, e que, sem tal explicação, seriam ininteligíveis e desafiariam o exame científico.

A compreensão deste Princípio hermético do Mentalismo habilita o indivíduo a abarcar prontamente as leis do Universo Mental e a aplicar o mesmo Princípio para a sua felicidade e adiantamento. O estudante Hermetista ainda não sabe aplicar inteligentemente a grande Lei Mental, apesar de empregá-la de maneira casual.

Com a Chave-Mestra em seu poder, o estudante poderá abrir as diversas portas do templo psíquico e mental do conhecimento e entrar por elas livre e inteligentemente. Este Princípio explica a verdadeira natureza da Força, da Energia e da Matéria, como e por que todas elas são subordinadas ao Domínio da Mente. Um velho Mestre hermético escreveu, há muito tempo: "Aquele que compreende a verdade da Natureza Mental do Universo está bem avançado no Caminho do Domínio." E estas palavras são tão verdadeiras hoje, como no tempo em que foram escritas. Sem esta Chave-Mestra, o Domínio é impossível, e o estudante baterá em vão nas diversas portas do Templo.

II. O Principio de Correspondência

"O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima." - O CAIBALION -

Este Princípio contém a verdade que existe uma correspondência entre as leis e os fenômenos dos diversos planos da Existência e da Vida. O velho axioma hermético diz estas palavras: "O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima.' A compreensão deste Princípio dá ao homem os meios de explicar muitos paradoxos obscuros e segredos da Natureza. Existem planos fora dos nossos conhecimentos, mas quando lhes aplicamos o Princípio de Correspondência chegamos a compreender muita coisa que de outro modo nos seria impossível compreender. Este Princípio é de aplicação e manifestação universal nos diversos planos do universo material, mental e espiritual: é uma Lei Universal.

Os antigos Hermetistas consideravam este Princípio como um dos mais importantes instrumentos mentais, por meio dos quais o homem pode ver além dos obstáculos que encobrem à vista o Desconhecido. O seu uso constante rasgava aos poucos o véu de Isis e um vislumbre da face da deusa podia ser percebido. Justamente do mesmo modo que o conhecimento dos Princípios da Geometria habilita o homem, enquanto estiver no seu observatório, a medir sóis longínquos, assim também o conhecimento do Princípio de Correspondência habilita o Homem a raciocinar inteligentemente,do Conhecido ao Desconhecido. Estudando a mônada, ele chega a compreender o arcanjo.

III. O Princípio de Vibração

"Nada está parado; tudo se move;tudo vibra." - O CAIBALION -

Este Princípio encerra a verdade que tudo está em movimento: tudo vibra; nada está parado; fato que a Ciência moderna observa, e que cada nova descoberta científica tende a confirmar. E contudo este Princípio hermético foi enunciado há milhares de anos pelos Mestres do antigo Egito.

Este Princípio explica que as diferenças entre as diversas manifestações de Matéria, Energia, Mente e Espírito, resultam das ordens variáveis de Vibração. Desde O TODO, que é Puro Espírito, até a forma mais grosseira da Matéria, tudo está em vibração; quanto mais elevada for a vibração, tanto mais elevada será a posição na escala. A vibração do Espírito é de uma intensidade e rapidez tão infinitas que praticamente ele está parado, como uma roda que se move muito rapidamente parece estar parada.

Na extremidade inferior da escala estão as grosseiras formas da matéria, cujas vibrações são tão vagarosas que parecem estar paradas. Entre estes pólos existem milhões e milhões de graus diferentes de vibração. Desde o corpúsculo e o elétron, desde o átomo e a molécula, até os mundos e universos, tudo está em movimento vibratório. Isto é verdade nos planos da energia e da força (que também variam em graus de vibração); nos planos mentais (cujos estados dependem das vibrações), e também nos planos espirituais.

O conhecimento deste Princípio,' com as fórmulas apropriadas, permite ao estudante Hermetista conhecer as suas vibrações mentais, assim como também a dos outros. Só os Mestres podem aplicar este Princípio para a conquista dos Fenômenos Naturais, por diversos meios. "Aquele que compreende o Princípio de vibração alcançou o cetro do poder", diz um escritor antigo.

IV. O Principio de Polaridade

"Tudo é Duplo; tudo tem pólos; tudo tem o seu oposto;o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados." - O CAIBALION -

Este Princípio encerra a verdade: tudo é Duplo; tudo tem dois pólos; tudo tem o seu oposto, que formava um velho axioma hermético. Ele explica os velhos paradoxos, que deixaram muitos homens perplexos, e que foram estabelecidos assim: A Tese e a Antítese são idênticas em natureza, mas diferentes em grau; os opostos são a mesma coisa, diferindo somente em grau; os pares de opostos podem ser reconciliados; os extremos se tocam; tudo existe e não existe ao mesmo tempo; todas as verdades são meias-verdades; toda verdade é meiofalsa; há dois lados em tudo, etc., etc.

Ele explica que em tudo há dois pólos ou aspectos opostos, e que os opostos são simplesmente os dois extremos da mesma coisa, consistindo a diferença em variação de graus. Por exemplo: o Calor e o Frio, ainda que sejam; opostos, são a mesma coisa, e a diferença que há entre eles consiste simplesmente na variação de graus dessa mesma coisa.

Olhai para o vosso termômetro e vede se podereis descobrir onde termina o calar e começa o frio! Não há coisa de calor absoluto ou de frio absoluto; os dois termos calor e frio indicam somente a variação de grau da mesma coisa, e que essa mesma coisa que se manifesta como calor e frio nada mais é que uma forma, variedade e ordem de Vibração.

Assim o calor e o frio são unicamente os dois pólos daquilo que chamamos Calor; e os fenômenos que daí decorrem são manifestações do Princípio de Polaridade. O mesmo Princípio se manifesta no caso da Luz e da Obscuridade, que são a mesma coisa, consistindo a diferença simplesmente nas variações de graus entre os dois pólos do fenômeno Onde cessa a obscuridade e começa a luz? Qual é a diferença entre o grande e o pequeno? Entre o forte e o fraco? Entre o branco e o preto? Entre o perspicaz e o néscio? Entre o alto e o baixo? Entre o positivo e o negativo.

O Princípio de Polaridade explica estes paradoxos e nenhum outro Princípio pode excedê-lo. O mesmo Princípio opera no Plano mental. Permitiu-nos tomar um exemplo extremo: o do Amor e o ódio, dois estados mentais em aparência totalmente diferentes. E, apesar disso, existem graus de ódio e graus de Amor, e um ponto médio em que usamos dos termos Igual ou Desigual, que se encobrem mutuamente de modo tão gradual que às vezes temos dificuldades em conhecer o que nos é igual, desigual ou nem um nem outro. E todos são simplesmente graus da mesma coisa, como compreendereis se meditardes um momento. E mais do que isto (coisa que os Hermetistas consideram de máxima importância), é possível mudar as vibrações de ódio em vibrações de Amor, na própria mente de cada um de nós e nas mentes dos outros.

Muitos de vós, que ledes estas linhas, tiveram experiências pessoais da transformação do Amor em ódio ou do inverso, quer isso se desse com eles mesmos, quer com outros. Podeis pois tornar possível a sua realização, exercitando o uso da vossa Vontade por meio das fórmulas herméticas. Deus e o Diabo, são, pois, os pólos da mesma coisa, e o Hermetista entende a arte de transmutar o Diabo em Deus, por meio da aplicação do Princípio de Polaridade. Em resumo, a Arte de Polaridade fica sendo uma fase da Alquimia Mental, conhecida e praticada pelos antigos e modernos Mestres Hermetistas. O conhecimento do Princípio habilitará o discípulo a mudar a sua própria Polaridade, assim como a dos outros, se ele consagrar o tempo e o estudo necessário para obter o domínio da arte.

V. O Principio de Ritmo

"Tudo tem fluxo e refluxo; tudo ,em suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação." - O CAIBALION -

Este Princípio contém a verdade que em tudo se manifesta um movimento para diante e para trás, um fluxo e refluxo, um movimento de atração e repulsão, um movimento semelhante ao do pêndulo, uma maré enchente e uma maré vazante, uma maré -alta e uma maré baixa, entre os dois pólos, que existem, conforme o Princípio de Polaridade de que tratamos há pouco. Existe sempre uma ação e uma reação, uma marcha e uma retirada, uma subida e uma descida. Isto acontece nas coisas do Universo, nos sóis, nos mundos, nos homens, nos animais, na mente, na energia e na matéria.

Esta lei é manifesta na criação e destruição dos mundos, na elevação e na queda das nações, na vida de todas as coisas, e finalmente nos estados mentais do Homem (e é com estes últimos que os Hermetistas reconhecem a compreensão do Princípio mais importante). Os Hermetistas compreenderam este Princípio, reconhecendo a sua aplicação universal, e descobriram também certos meios de dominar os seus efeitos no próprio ente com o emprego de fórmulas e métodos apropriados. Eles aplicam a Lei mental de Neutralização. Eles não podem anular o Princípio ou impedir as suas operações, mas aprenderam como se escapa dos seus efeitos na própria pessoa, até um certo grau que depende do Domínio deste Princípio. Aprenderam como empregá-lo, em vez de serem empregados por ele.

Neste e noutros métodos consiste a Arte dos Hermetistas. O Mestre dos Hermetistas polarizasse até o ponto em que desejar, e então neutraliza a Oscilação Rítmica pendular que tenderia a arrastá-lo ao outro pólo.

Todos os indivíduos que atingiram qualquer grau de Domínio próprio executam isto até um certo grau, mais ou menos inconscientemente, mas o Mestre o faz conscientemente e com o uso da sua Vontade, atingindo um grau de Equilíbrio e Firmeza mental quase impossível de ser acreditado pelas massas populares que vão para diante e para trás como um pêndulo. Este Princípio e o da Polaridade foram estudados secretamente pelos Hermetistas, e os métodos de impedi-los, neutralizá-los e empregá-los formam uma parte importante da Alquimia Mental do Hermetismo.

VI. O Principio de Causa e Efeito

"Toda a Causa tem seu Efeito, todo Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, porém nada escapa à Lei." - O CAIBALION -

Este princípio contém a verdade que há uma Causa para todo o Efeito e um Efeito para toda a Causa. Explica que: Tudo acontece de acordo com a Lei, nada acontece sem razão, não há coisa que seja casual; que, no entanto, existem vários planos de Causa e Efeito, os planos superiores dominando os planos inferiores, nada podendo escapar completamente da Lei.

Os Hermetistas conhecem a arte e os métodos de elevar-se do plano ordinário de Causa e Efeito, a um certo grau, e por meio da elevação mental a um plano superior tomam-se Causadores em vez de Efeitos.

As massas do povo são levadas para a frente; os desejos e as vontades dos outros são mais fortes que as vontades delas; a hereditariedade, a sugestão e outras causas exteriores movem-nas como se fossem peões no tabuleiro de xadrez da Vida. Mas os Mestres, elevando-se ao plano superior, dominam o seu gênio. cara 'ter, suas qualidades, poderes, tão bem como os que o cercam e tornam-se Motores em vez de peões. Eles ajudam a jogar a criação, quer física, quer mental ou espiritual, é possível sem partida da vida, em vez de serem jogados e movidos por outras vontades e influências. Empregam o Princípio em lugar de serem seus instrumentos. Os Mestres obedecem à Causalidade do plano superior, mas ajudam a governar o nosso plano.

Neste preceito está condensado um tesouro do Conhecimento hermético: aprenda-o quem quiser.

VII. O Principio de Gênero

"O Gênero está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos." - O CAIBALION -

Este princípio encerra a verdade que o gênero é manifestado em tudo; que o princípio masculino e o princípio feminino sempre estão em ação. Isto é certo não só no Plano físico, mas também nos Planos mental e espiritual. No Plano físico este Princípio se manifesta como sexo, nos planos superiores toma formas superiores, mas é sempre o mesmo Princípio.

Nenhuma criação, quer física, quer mental ou espiritual, é possível sem este Princípio, A compreensão das suas leis poderá esclarecer muitos assuntos que deixaram perplexas as mentes dos homens.

O Princípio de Gênero opera sempre na direção da geração, regeneração e criação'.Todas as coisas e todas as pessoas contêm em si os dois Elementos deste grande Princípio.

Todas as coisas machos têm também o Elemento feminino; todas as coisas fêmeas têm o Elemento masculino. Se compreenderdes a filosofia da Criação, Geração e Regeneração mentais, podereis estudar e compreender este Princípio hermético. Ele contém a solução de muitos mistérios da Vida. Nós vos advertimos que este Princípio não tem relação alguma com as teorias e práticas luxuriosas, perniciosas e degradantes, que têm títulos empolgantes e fantásticos, e que nada mais são do que a prostituição do grande princípio natural de Gênero. Tais teorias, baseadas nas antigas formas infamantes do Falicismo, tendem a arruinar a mente, o corpo e a alma; e a Filosofia hermética sempre publicou notas severas contra estes preceitos que tendem à luxúria, depravação e perversão dos princípios do Natureza.

Se desejais tais ensinamentos podeis procurá-los noutra parte: o Hermetismo nada contém nestas linhas que sirva para vás. Para aquele que é puro, todas as coisas são puras; para os vis, todas as coisas são vis e baixas.

Capítulo III
A transmutação mental

"A Mente (tão bem como os metais e os elementos) pode ser transmutada de estado em estado, de grau em grau, de condição em condição, de pólo em pólo, de vibração em vibração. A verdadeira transmutação hermética é uma Arte Mental." - O CAIBALION -

Como dissemos, os Hermetistas eram os antigos alquimistas, astrólogos e psicologistas, tendo sido Hermes o fundador destas escolas de pensamento. Da astrologia nasceu a moderna astronomia; da alquimia nasceu a moderna química; da psicologia mística nasceu a moderna psicologia das escolas. Mas não se pode supor que os antigos ignoravam aquilo que as escolas modernas pretendem ser sua propriedade exclusiva e especial. As memórias gravadas nas pedras do Antigo Egito mostram claramente que os antigos tinham um grande conhecimento de astronomia, a verdadeira construção das Pirâmides representando a relação entre o seu desenho e o estudo da ciência astronômica. Não ignoravam a Química, porque os fragmentos dos antigos escritos mostram que eles conheciam as propriedades químicas das coisas; com efeito, as antigas teorias relativas à física vão sendo vagarosamente verificadas pelas últimas descobertas da ciência moderna, principalmente as que se referem à constituição da matéria.

Não se deve crer que eles ignoravam as chamadas descobertas modernas em psicologia; pelo contrário, os egípcios eram especialmente versados na ciência da Psicologia, ,particularmente nos ramos que as modernas escolas ignoram; que, não obstante, têm sido encobertos sob o nome de ciência psíquica, que a confusão dos psicólogos da atualidade, fazendo-lhes com repugnância admitir que afinal pode haver alguma coisa nela.

A verdade é que, sob a química material, a astronomia e a psicologia (que é a psicologia na sua fase de ação do pensamento), os antigos possuíam um conhecimento da astronomia transcendente, chamada astrologia; da química transcendente, chamada alquimia; da psicologia transcendente chamada psicologia mística. Possuíam o Conhecimento Interno como o Conhecimento Externo, sendo o último o único possuído pelos cientistas modernos. Entre os muitos ramos secretos de conhecimento possuídos pelos Hermetistas estava o conhecido sob o nome de Transmutação Mental, que forma a exposição material desta lição.

Transmutação é um termo usualmente empregado para designar a antiga arte da transmutação dos metais; particularmente dos metais impuros em ouro. A palavra transmutar significa mudar de uma natureza, forma ou substância, em outra; transformar (Webster). E da mesma forma, Transmutação Mental significa a arte de transformar e de mudar os estados, as formas e as condições mentais em outras. Assim podeis ver que a Transmutação Mental é a Arte da Química Mental ou se quiserdes, uma forma da Psicologia Mística prática.

Porém estas significações estão muito longe de serem o que exteriormente parecem.

A Transmutação, Alquimia, ou Química, no Plano Mental é certamente muito importante nos seus efeitos, e se a arte cessou agora, assim mesmo não pode deixar de ser um dos mais importantes ramos de estudos conhecidos pelos homens. Mas isto é simplesmente o princípio. Vejamos a razão!

O primeiro dos Sete Princípios Herméticos é o princípio de Mentalismo, o seu axioma é "O TODO é Mente; o Universo é Mental", que significa que a Realidade Objetiva do Universo é Mente; e o mesmo Universo é Mental, isto é, existente na Mente do TODO. Estudaremos este princípio nas seguintes lições, mas deixai-nos examinar o efeito do princípio se for considerado como verdade.

Se o Universo é Mental na sua natureza, a Transmutação Mental pode ser considerada como a arte de MUDAR AS CONDIÇÕES DO UNIVERSO, nas divisões de Matéria, Força e Mente. Assim compreendereis que a Transmutação Mental é realmente a Magia de que os antigos escritores muito trataram nas suas obras místicas, e de que dão muito poucas instruções práticas. Se Tudo é Mental, então a arte que ensina a transmutar as condições mentais pode tornar o Mestre diretor das condições materiais tão bem como das condições chamadas ordinariamente mentais.

De fato, nenhum alquimista, que não esteja adiantado na Alquimia mental, pode obter o grau necessário de poder para dominar as grosseiras condições físicas e os elementos da Natureza, a produção ou cessação das tempestades e dos terremotos assim como de outros grandes fenômenos físicos. Que tais homens tenham existido e existam ainda hoje, é matéria da maior certeza para todos os ocultistas adiantados de todas as escolas. Que existem Mestres e que eles têm estes poderes, os melhores instrutores asseguram-no aos seus discípulos, tendo experiências que os . justificam nestas opiniões e declarações. Estes Mestres não exibem em público os seus poderes, mas procuram o afastamento do tumulto dos homens, com o fim de abrir melhor o seu caminho na Senda do Conhecimento. Mencionamos aqui a sua existência simplesmente com o fim de chamar a vossa atenção para o fato de que o seu Poder é inteiramente Mental, e de que eles operam conforme as linhas da mais elevada Transmutação mental, e em conformidade com o Princípio hermético de Mentalismo. "O Universo é Mental"

O CAIBALION.

Porém os discípulos e os Hermetistas de grau inferior aos Mestres - os Iniciados e Instrutores - podem facilmente operar pelo Plano Mental ao praticar a Transmutação Mental. Com efeito, tudo o que chamamos fenômenos psíquicos, influência mental, ciência mental, fenômenos de novo pensamento, etc., se realiza conforme a mesma linha geral, porque nisto está mais um princípio oculto, do que a matéria cujo nome é dado,ao fenômeno.

O discípulo que é praticante da Transmutação Mental opera no Plano Mental, transmutando as condições mentais, os estados, etc. em outros, de acordo com diversas fórmulas mais ou menos eficazes. Os diversos tratamentos, as afirmações e negações, etc., das escolas da ciência mental são antes fórmulas freqüentemente muito imperfeitas e não científicas, da Arte hermética. A maioria dos praticantes modernos são muito ignorantes em comparação com os antigos mestres, pois eles carecem do conhecimento fundamental sobre que é baseada a operação.

Não somente os próprios estados mentais podem ser mudados ou transmutados pelos métodos herméticos; mas também os estados mentais dos outros podem ser, e mesmo são constantemente transmutados na mesma direção, quase sempre inconscientemente, mas às vezes conscientemente, por uma pessoa que conheça as leis e os princípios, nos casos em que a pessoa influenciada não esteja informada dos princípios da proteção própria. E, ainda mais, como sabem diversos discípulos e praticantes da moderna ciência mental, toda condição material que depende das mentes dos outros pode ser mudada ou transmutada de acordo com o desejo, a vontade e os tratamentos reais da pessoa que deseja mudar as condições da vida. Na atualidade o Público está informado geralmente destas coisas, que não julgamos necessário mencioná-las por extenso; porque o nosso propósito a este respeito é simplesmente mostrar a Arte e o Princípio hermético de Polaridade.

Neste livro procuramos estabelecer os princípios básicos da Transmutação Mental, para que todos os que lêem possam compreender os Princípios secundários, e possuir então a Chave--Mestra que abrirá as diversas portas do Princípio hermético de Polaridade.

Vamos fazer agora uma consideração sobre o primeiro dos Sete Princípios herméticos: o princípio de Mentalismo, que afirma a verdade que "O TODO é Mente; o Universo é Mental", conforme as palavras do Caibalion. Pedimos uma atenção íntima e um estudo cuidadoso deste grande Princípio, da parte dos nossos discípulos, porque ele é realmente o Princípio Básico de toda a Filosofia hermética e da Arte hermética de Transmutação Mental.

Capítulo IV
O Todo

"Sob as aparências do Universo, do Tempo e do Espaço e da Mobilidade, está sempre encoberta a Realidade Substancial: a Verdade fundamental." - O CAIBALION -

A Substância é aquilo que se oculta debaixo de todas as manifestações exteriores, a essência, a realidade essencial, a coisa em si mesma, etc. Substancial é aquilo que existe atualmente, que é elemento essencial, que é real, etc. A Realidade é o estado real, verdadeiro, permanente, duradouro, atual de um ente.

Debaixo e dentro de todas as aparências ou manifestações exteriores, sempre houve uma Realidade substancial. Esta é a Lei.

O homem, considerando o Universo, de que é simplesmente uma partícula, observa que tudo se transforma em matéria, em forças e em estados mentais. Ele conhece que nada É real, mas que, pelo contrário, tudo é MÓVEL e CONDICIONAL. Nada está parado; tudo nasce, cresce e morre; no momento em que uma coisa chega a seu auge, logo começa a declinar; a lei do ritmo está em constante ação; não há realidade, qualidade duradoura, fixidez ou substancialidade em qualquer coisa que ,seja; nada é permanente, tudo se transforma. O homem que observa as leis do Universo vê que todas as coisas evoluem de outras coisas, e resolvem-se em outras; vê uma constante ação e reação, um fluxo e refluxo, uma criação e destruição, o nascimento, crescimento e a morte. Nada é permanente, tudo se transforma. Se esse homem for um pensador ativo, ele realizará todas essas coisas mudáveis, que serão, contudo, aparências ou manifestações exteriores da mesma Força Oculta, da mesma realidade substancial.

Todos os pensadores de todos os países e todas as épocas compreenderam a necessidade de ser admitida a existência desta Realidade substancial. Todas as filosofias dignas deste nome acham-se baseadas nesta opinião. Os homens deram a esta Realidade substancial muitas denominações: muitos designaram-na sob o termo Divindade (sob diversos títulos); outros chamaram-na a Eterna e Infinita Energia; outros ainda deram-lhe simplesmente o nome de Matéria: mas todos reconheceram a sua existência. Isto é evidente por si mesmo, não é necessário argumentos.

Nestas lições seguiremos o exemplo de muitos grandes pensadores antigos e modernos - os Mestres Hermetistas - e designaremos esta Força Oculta, esta Realidade substancial sob o nome de O TODO, termo que consideramos como o mais compreensível dos diversos termos empregados pelo Homem para designar

AQUELE que excede todos os nomes e todos os termos.

Aceitamos e ensinamos as idéias dos grandes pensadores herméticos de todos os tempos, assim como as destas almas iluminadas, que galgaram elevados Planos de existência, e que afirmam a natureza íntima do TODO ser INCOGNOSCÍVEL. Isto é assim que ninguém pode compreender pelo próprio TODO por a natureza e a existência íntima dele.

Os Hermetistas pensam e ensinam que o TODO, em Si mesmo, é e será sempre INCOGNOSCÍVEL. Eles consideram todas as teorias, conjeturas e especulações dos teólogos e metafísicos a respeito da natureza íntima do TODO, como esforços infantis das mentes finitas para compreender o segredo do Infinito. Tais esforços sempre desviaram e desviarão da verdadeira natureza do seu fim. Uma pessoa que Prossegue em tais investigações vai, de circuito em circuito no labirinto do pensamento, prejudicar o seu são raciocínio, a sua ação e a sua conduta, até ficar totalmente inutilizada para o trabalho da vida. É como o esquilo, que furiosamente corre dentro da redondeza da sua gaiola, caminhando sempre sem nunca chegar em parte alguma, e parando só quando se assusta: é enfim um prisioneiro.

Porém são ainda mais presunçosos os que atribuem ao TODO a personalidade, as qualidades e propriedades - característicos e atributos deles mesmos, e querem que o TODO tenha emoções, sensações e outros característicos humanos que estão abaixo das pequenas qualidades do gênero humano, tais como a inveja, o desejo de lisonjas e louvores, desejo de oferendas e adorações, e todos os outros atributos que sobrevivem desde a infância da raça. Tais idéias não são dignas de pessoas maduras e vão sendo rapidamente abandonadas.

(Vem a propósito dizer aqui que fazemos distinção entre a Religião e a Teologia, entre a Filosofia e a Metafísica.)

A Religião para nós é a realização institucional da existência do TODO, e sua relação para com ele; ao passo que a Teologia -representa o esforço do homem em atribuir-lhe personalidade, qualidades e característicos, as teorias a respeito dos seus negócios, planos, desejos e vontades, e as apropriações de tudo isso para o ofício de mediadores entre O TODO e O povo.

A Filosofia é, para nós, a investigação de acordo com o conhecimento das coisas conhecíeis e concebíveis; ao passo que a Metafísica é o intento de levar a investigação às regiões incognoscíveis e inconcebíveis e além dos seus limites, com a mesma tendência que a Teologia. Por conseguinte, a Religião e a Filosofia são para nós coisas que têm o seu princípio na Realidade, ao passo que a Teologia e a Metafísica parecem delgados caniços, enraizados na areia movediça da ignorância, e nada mais constituem que o mais incerto apoio para a mente ou a alma do Homem. Não insistiremos com os estudantes que aceitam estas definições; só mencionamo-las para mostrar a posição em que nos colocamos neste assunto. Seja como for falaremos muito pouco sobre a Teologia e a Metafísica.

Mas, conquanto a natureza essencial do TODO seja Incognoscível, existem certas verdades conexas com a sua existência que a mente humana foi obrigada a aceitar. E o exame destas verdades forma um assunto próprio para investigações, mormente quando elas concordam com o testemunho do Iluminado nos planos superiores. Nós vos convidamos a fazer estas investigações.

"AQUELE que é a Verdade Fundamental, a Realidade Substancial, está fora de uma verdadeira denominação, mas o sábio chama-o O TODO." - O CAIBALION -

"Na sua Essência, O TODO é INCOGNOSCIVEL." - O CAIBALION -

"Mas os testemunhos da Razão devem ser hospitaleiramente recebidas e tratados com respeito." - O CAIBALION -

A razão humana, cujos testemunhos devemos aceitar ao raciocinar sobre alguma coisa, nos diz o seguinte a respeito do TODO, mas sem pretender levantar o véu do Incognoscível:

I. O TODO é Tudo o que É REAL. Nada pode existir fora do TODO, porque do contrário o TODO não seria mais o TODO.

II. O TODO É INFINITO, porque não há quem defina, restrinja e limite O TODO. É Infinito no Tempo, OU ETERNO; existiu sempre, sem cessar; porque nada há que o pudesse criar, e se ele não tivesse existido, não podia existir agora; existirá perpetuamente, porque não há quem o destrua, e ele não pode deixar de existir, porque aquilo que é alguma coisa não pode ficar sendo nada. É infinito no -espaço; está em toda parte porque não há lugar fora do TODO; é contínuo no Espaço Sem cessação, separação ou interrupção, porque nada há que separe, divida ou interrompa a sua continuidade, e nada há para encher lacunas. É Infinito ou Absoluto em Poder; porque não há nada para limitá-lo, restringi-lo ou acondicioná-lo; não está sujeito a nenhum outro Poder, porque não há outro Poder.

III. O TODO É IMUTÁVEL, ou não está sujeito a ser mudado na sua natureza real, nada há que possa operar mudanças nele, nada há em que possa ser mudado nem nada que tenha sido mudado. Não pode ser aumentado nem diminuído, nem ficar maior ou menor, seja qual for o motivo. Ele sempre foi e sempre será tal como é agora: O TODO; nada houve, nada há e nada haverá em que ele possa ser mudado.

TODO sendo Infinito, Absoluto, Eterno e Imutável, segue-se que tudo o que é finito, passageiro, condicional e Mutável não é o Todo. E como não há nada Real fora do TODO, todas as coisas finitas não são Reais. Não deveis ficar admirados e espantados das nossas palavras; não queremos levar-vos à Ciência Cristã fundada sobre a parte inferior da Filosofia hermética. Há uma Reconciliação para o aparente estado contraditório atual do assunto. Tende paciência, que nós trataremos deste assunto em seu tempo.

Vemos ao redor de nós que aquilo que se chama Matéria constitui O Princípio de todas as formas. É O TODO Simplesmente Matéria? Absolutamente não! A Matéria não pode manifestar a Vida ou a Mente, e como a Vida e a Mente são manifestadas no Universo. Porque nada é superior à sua própria origem, nada se manifesta como efeito que não esteja na causa, nada evolui como conseqüente, que não tenha involuido como antecedente. Quando a ciência moderna nos diz que não há realmente outra coisa senão Matéria, devemos saber que aquilo que ela chama Matéria é simplesmente uma energia eu força interrompida, isto é, uma energia ou força com poucos graus de vibração. Disse um recente escritor, "a Matéria obscureceu-se no Mistério". Mesmo a ciência materialista já abandonou a teoria da Matéria e agora se apóia sobre a base da Energia.

Então o TODO é simplesmente Energia ou Força? Não é Energia ou Força como os materialistas empregam estes termos, porque a energia e força deles são coisas cegas e mecânicas, privadas de Vida ou de Mente. A Vida ou a Mente não pode evoluir da Energia ou Força cega, pela razão dada acima, que: Nada é superior à sua própria origem, nada evolui que não tenha involuido, nada se manifesta como efeito que não tenha a sua causa. E assim O TODO não pode ser simplesmente Energia ou Força, porque, se assim fosse, não teriam existência a Vida e a Mente, e nós sabemos muito bem que elas existem, porque somos nós os que temos Vida, e que empregamos a Mente para considerar esta questão, assim como os que pretendem que a Energia ou Força é Tudo.

Que é, pois, que sabemos existir no Universo, que é superior à Matéria ou Energia? A VIDA E A MENTE! A Vida e a Mente em todos os seus diversos graus de desenvolvimento! "Então, perguntais, quereis dizer que O TODO É VIDA E MENTE? Sim e Não! é a nossa resposta. Se entendeis a Vida e a Mente como nós pobres mortais conhecemo-las, diremos, Não! O TODO não é isto! "Mas, que natureza de Vida e de Mente quereis significar?", direis vós.

A resposta é: "A MENTE VIVENTE, muito acima do que os mortais conhecem por essas palavras, como a Vida e a Mente são superiores às forças mecânicas ou à matéria; A INFINITA MENTE é Muito superior em comparação à Vida e à Mente finita." Queremos exprimir o que as almas iluminadas significam ao pronunciarem reverentemente a palavra ESPÍRITO!

O TODO é a Infinita Mente Vivente; o Iluminado chama-a ESPÍRITO!

Capítulo V
O Universo mental

"O Universo é Mental: ele está dentro da mente d'O TODO." - o CAIBALION -

O TODO é ESPÍRITO! Mas que é Espírito? Esta pergunta não pode ser respondida, porque a sua definição seria praticamente a do TODO, que não pode ser explicado nem definido. Espírito é um simples nome que os homens dão às suas mais elevadas concepções da Infinita Mente Vivente; esta palavra significa a Essência Real; significa a Mente Vivente, tão superior à Vida e à Mente tais como as Conhecemos, quanto estas últimas são superiores à Energia mecânica e à Matéria. O Espírito é superior ao nosso entendimento, e só empregamos este termo para podermos falar do TODO. No juízo dos pensadores e inteligentes estamos justificados falando do Espírito como Infinita Mente Vivente, e reconhecendo que não Podemos compreende-Ia, quer raciocinando sobre ela, quer estudando a matéria na sua totalidade.

Façamos agora uma consideração sobre a natureza do Universo, quer no seu todo, quer nas suas partes. Que é o UniverSO? Dissemos que nada há fora do TODO. Então o Universo é O TODO? Não; não o é; porque o Universo parece ser formado de MUITOS, e está constantemente mudando, ou, por outras palavras, ele não pode ser comparado com as idéias que estabelecemos a respeito do TODO. Então, se o Universo não é o TODO, ele é o Nada; tal é a conclusão inevitável da mente à primeira idéia. Mas esta não satisfaz a questão, porque sentimos a existência do Universo. Ora, se o Universo não é O TODO, nem o Nada, que será então? Examinemos a questão.

Se verdadeiramente o Universo existe, ou parece existir, ele procederá diretamente do TODO, poderá ser uma criação do TODO. Mas como poderá alguma coisa sair do nada, de que O TODO a teria criado?

Vários filósofos responderam a esta pergunta, dizendo que TODO criou o Universo de si MESMO, isto é, da existência e substância do TODO. Mas isto não pode ser, porque o TODO não pode ser dividido ou diminuído, como já vimos, e se isto fosse verdade, cada partícula do Universo não poderia deixar de conhecer o seu ente - O TODO; o TODO não perderia o conhecimento próprio, nem SE TORNARIA atualmente um átomo, uma força cega ou uma coisa de vida humilde. Com efeito, alguns homens, julgando que o TODO é exatamente TUDO, e reconhecendo também que eles, os homens, existem, aventuraram-se a concluir que eles eram idênticos ao TODO, e atroaram os ares com os seus clamores de "EU SOU DEUS!" para divertimento da multidão e sorriso dos sábios. O clamor do corpúsculo que dissesse: "Eu sou Homem!", seria mais modesto em comparação.

Mas, que é, pois, o Universo, se não for o TODO separando a si mesmo em fragmentos? Que outra coisa poderá ser? De que coisa poderá ser feito? Esta é a grande questão. Examinemo-la bem. Reconhecemos que o Princípio de Correspondência (vide a primeira lição) vem em nosso auxílio aqui. O velho axioma hermético "o que está em cima é como o que está embaixo", pode ser empregado com êxito neste ponto. Permiti-nos fazer uma rápida hipótese sobre os planos elevados, 'examinando-os em nós mesmos. O Princípio de Correspondência aplica-se a este como a outros problemas.

Vejamos, pois! No seu próprio plano de existência, como cria o Homem? Primeiramente, ele pode criar, fazendo alguma coisa de materiais exteriores. Mas assim não pode ser, porque não há materiais exteriores ao TODO, com os quais ele possa criar. Em segundo lugar, o Homem procria ou reproduz a sua espécie pelo processo da geração que é a própria multiplicação por meio da transformação de uma parte da sua substância na da sua prole. Mas, assim também não pode ser, porque o Todo não pode transferir ou subtrair uma parte de si mesmo, assim como reproduzir ou multiplicar a si mesmo: no primeiro caso haveria uma revogação da lei, e no segundo, uma multiplicação ou adição do TODO, idéias totalmente absurdas. Não há nenhum outro meio pelo qual O HOMEM cria? Sim, há; ele CRIA MENTALMENTE! E deste modo, não emprega materiais exteriores, não reproduz a si mesmo, e, apesar disso, o seu Espírito penetra a Criação Mental.

Conforme o Princípio de Correspondência, temos razão de considerar que O TODO CRIA MENTALMENTE o Universo, de um modo semelhante ao processo pelo qual o Homem cria as Imagens mentais. Este é o testemunho da Razão, que concorda perfeitamente com o testemunho do Iluminado, como ele o manifesta pelos seus ensinos e escritos. Assim são os ensinamentos do Sábio. Tal era a doutrina de Hermes.

O TODO não pode criar de outro modo senão mentalmente, sem empregar qualquer material (nada há para ser empregado),, e nem reproduzir a si mesmo (o que é também impossível). Não se pode escapar desta conclusão da Razão, que, como dissemos, concorda com os mais elevados preceitos do Iluminado. justamente como vós podeis criar um Universo de vós mesmos na vossa mentalidade, assim O TODO cria Universo na sua própria Mente. Mas o vosso Universo é criação mental de uma Mente finita, enquanto que o do TODO é criação de uma Mente Infinita. Ambos são análogos em natureza, mas infinitamente diferentes em grau. Vamos examinar cuidadosamente como fazemos nos processos de criação e manifestação. Mas antes de tudo é preciso fixardes as vossas mentes nesta frase: O UNIVERSO, E TUDO O QUE ELE CONTÉM, É UMA CRIAÇÃO MENTAL DO TODO. COM efeito, O TODO É

MENTE!

" O TODO cria na sua Mente infinita inumeráveis Universos, que existem por eons de Tempo; e contudo, para O TODO, a criação, o desenvolvimento, o declínio e a morte de um milhão de Universos é como que o tempo do pestanejar dum olho." - O CAIBALION-.

"A Mente Infinita d'O TODO é a matriz dos Universos." -O CAIBALION-.

O Princípio de Gênero (vide lição primeira e seguintes) é manifestado em todos os planos de vida, quer materiais, mentais ou espirituais. Mas, como já dissemos, Gênero não significa Sexo; o sexo é simplesmente uma manifestação material do, gênero. Gênero significa relativo à geração ou criação. Em qualquer lugar, em qualquer plano, em que uma coisa é criada ou gerada, o Princípio de Gênero se manifesta. E isto é verdade mesmo na criação dos Universos.

Mas, não se deve concluir disto que ensinamos haver um Deus ou Criador macho e fêmea. Esta idéia é um desvio dos antigos preceitos sobre este assunto.

O verdadeiro ensinamento é que o TODO em si mesmo está fora do Gênero, assim como de qualquer outra Lei, mesmo as do Tempo e do Espaço. Ele é a Lei de que todas as Leis procedem e não está sujeito a elas. Contudo, quando O TODO se manifesta no plano de geração ou criação, os seus atos concordam com a Lei e o Princípio, porque se realizam num plano inferior de existência. E, por conseguinte, ele manifesta no Plano Mental o Princípio de Gênero, nos seus aspectos Masculino e Feminino.

Esta idéia poderá causar admiração a alguns de vós, que aprendem-na pela primeira vez, mas todos vós aceitaste-a passivamente nas vossas concepções diárias. Falais na Paternidade de Deus e na Maternidade da Natureza; de Deus, o Pai divino e da Natureza, a Mãe universal; logo, reconheceis instintivamente o Princípio de Gênero no Universo. Não é verdade?

Mas a doutrina hermética não exprime uma dualidade real: O TODO é um; os dois aspectos são simplesmente aspectos de manifestação. O ensinamento é que o Princípio Masculino manifestado pelo TODO só impede a destruição da concepção atual do Universo. Ele projeta o seu Desejo no Princípio Feminino (que se chama Natureza), ao mesmo tempo que este último começa a obra atual da evolução do Universo, desde os simples centros de atividade até o homem, e subindo cada vez mais de acordo com as bem-estabelecidas Leis da Natureza. Se dais preferência aos velhos modos de expressão, podeis considerar o Princípio Masculino COMO DEUS, o Pai, e o Princípio Feminino COMO a NATUREZA, a Mãe Universal, em cuja matriz todas as coisas foram geradas. Isto não é simplesmente uma ficção poética de linguagem; é uma idéia do processo atual de criação do Universo. Mas é preciso não esquecer que O TODO é um, e que o Universo é gerado, criado e existe na sua Mente Infinita.

Isto vos permitirá fazer uma idéia de vós mesmos, se quiserdes aplicar a Lei de Correspondência à vossa própria mente e a vós mesmos. Sabeis que a parte de Vós que chamais Eu. em certo sentido, sustenta e prova a criação de Imagens mentais na vossa própria mente. A parte da vossa mente em que é realizada a geração mental pode ser chamada o eu inferior, distinto do Eu. que sustenta e examina os pensamentos, as idéias e as imagens do eu inferior. Reparai bem que "o que está em cima é como o que está embaixo", e que os fenômenos de um plano podem ser empregados na solução dos enigmas de planos superiores ou inferiores.

Será para admirar que Vós, os filhos, sintais esta instintiva reverência pelo TODO, sentimento que chamamos religião; esta reverência e este respeito para com a MENTE-PAI? Será para admirar que, ao considerar as obras e as maravilhas da Natureza, fiqueis dominado por um grande sentimento que tem sua origem fora do vosso íntimo ser? É a MENTE-MÃE que vos estreita, como a mãe estreita seu filho ao seio.

Não deveis cometer o erro de crer que o pequeno mundo que vedes ao redor de vós, a Terra, que é simplesmente um grão de areia em comparação com o Universo, seja o próprio Universo. Existem milhões de mundos semelhantes e maiores. Há milhões e milhões de Universos iguais em existência dentro da Mente Infinita do TODO. E mesmo no nosso pequeno sistema solar há regiões e planos de vida mais elevados que os nossos, -e entes, em comparação aos quais nós, míseros mortais, somos como as viçosas formas viventes que habitam no fundo do oceano, comparadas ao Homem. Há entes com poderes e atributos superiores aos que o Homem sonhou ser possuído pelos deuses. Não obstante, estes entes foram como vós e ainda inferiores, e, com o tempo, vós podeis ser como eles ou superiores a eles; porque, como diz o Iluminado, tal é o Destino do Homem.

A Morte não é real, ainda mesmo no sentido relativo; ela é simplesmente o Nascimento a uma nova vida, e continuareis sempre de planos elevados de vida a outros mais elevados por eons e eons de tempo. O Universo é vossa habitação e estudareis os seus mais distantes a esses antes do fim do Tempo, Residis na Mente Infinita do TODO, e as vossas potencialidades e oportunidades são infinitas mas somente no tempo e no espaço. E no fim do Grande Ciclo de EONS, O TODO recolherá em si todas as suas criações; porém, vós continuareis alegremente a vossa jornada, porque então querereis preparar-vos para conhecer a Verdade

Total da existência em Unidade com O TODO.

E, quando estiverdes na metade do caminho, estareis calmos e serenos; sois seguros e protegidos pelo Poder Infinito da MENTE-MÃE.

"Dentro da Mente Pai-Mãe, o filho mortal está na sua morada." - O CAIBALION -

"Não há nenhum órfão de Pai ou de Mãe no Universo." - O CAIBALION –

Capítulo VI
O paradoxo divino

"Os falsos sábios, reconhecendo a irrealidade comparativa do Universo, imaginaram que podiam transgredir as suas Leis: estes tais são vãos e presunçosos loucos; eles se quebram na rocha e são feitos em pedaços pelos elementos, por causa da sua loucura. O verdadeiro sábio, conhecendo a natureza do Universo, emprega a Lei contra as leis, o superior contra o inferior; e pela Arte da Alquimia transmita aquilo que é desagradável naquilo que é agradável, e deste modo triunfa, O Domínio não consiste em sonhos anormais, em visões, em vida e imagInações fantásticas, mas sim no emprego das forças superiores contra . as inferiores, escapando assim das penas dos pia-nos inferiores pela vibração nos superiores. A Transmutação não é uma denegação presunçosa, é a arma ofensiva do Mestre." - O CAIBALION - .

Este é o Paradoxo do Universo, que resulta do Princípio de Polaridade que se manifesta quando o TODO começa a Criar. É necessário prestar atenção, porque isto estabelece a diferença entre a falsa e a verdadeira sabedoria.

Enquanto que para o TODO INFINITO, o Universo, as suas Leis, as suas Forças, a sua Vida e os seus Fenômenos, são como pensamentos presentes no estado de Meditação ou Sonho; para tudo o que é Finito, o Universo deve ser considerado como Real, e a vida, a ação e o pensamento devem ser baseados nele, de modo a concordar com um preceito da Verdade superior; cada qual concordando com o seu próprio Plano e suas Leis. Se o TODO imaginasse que o Universo era verdadeira Realidade, desgraçado do Universo porque ele não poderia subir do inferior ao superior que a deificação; então o Universo ficaria fixo e o progresso seria impossível.

E se o Homem, devido à falsa sabedoria, considerar as ações, vidas e pensamentos do Universo, como um mero sonho (semelhante aos seus próprios sonhos finitos), então ele o faz tão conveniente para si, e, como um dormidor que está passeando, tropeça sempre num círculo vicioso, sem fazer progresso algum, sendo, por fim, despertado por uma queda terrível, provenIente das Leis Naturais que ele ignora. Conservai sempre a vossa mente nas Estrelas, mas deixai os vossos olhos verem os vossos passos para não cairdes na lama, por causa da vossa contemplação de cima. Lembrai-vos do Paradoxo Divino, que ao mesmo tempo que o Universo NÃO EXISTE, ELE EXISTE. Lembrai-vos sempre dos dois Pólos da Verdade: o Absoluto e o Relativo. Tomai cuidado com as MeiasVerdades.

Aquilo que os Hermetistas conhecem como a Lei do Paradoxo é um aspecto do Princípio de Polaridade. Os escritos herméticos estão cheios de referências ao aparecimento de Paradoxos na consideração dos problemas da Vida e da

Existência. Os Instrutores previnem constantemente os seus discípulos contra o erro de omitir o outro lado de cada questão. E as suas admoestações se referem particularmente aos problemas do Absoluto e do Relativo, que deixam perplexos todos os estudantes de filosofia, e que causam muitas idéias e ações contrárias ao que é geralmente conhecido como senso comum. Nós prevenimos a todos os estudantis que fiquem certos de compreender o Paradoxo Divino do Absoluto e do Relativo, para não ficarem atolados na lama da Meia-Verdade. É para este fim que foi escrita esta lição particular. Aprendei-a bem!

O primeiro pensamento que o homem pensador tem, depois que ele compreende bem a verdade que o Universo é uma Criação Mental do TODO, é que o Universo, e tudo o que ele contém, é mera ilusão, irrealidade; idéia contra a qual os seus instintos se revoltam. Contudo esta, como todas as outras grandes verdades, pode ser considerada sob os pontos de vista Absoluto e Relativo. Sob o ponto de vista Absoluto o Universo comparado com O TODO em si é de natureza duma ilusão, dum sonho, duma fantasmagoria. Sempre reconhecemo-lo em nossas vistas ordinárias, porque falamos do mundo como um espetáculo transitório que vai e vem, nasce e morre, por causa do elemento de impermanência e mudança, limitação e insubstancialidade; idéia esta que está em relação com a de um Universo criado, ao passo que contrasta com a idéia do TODO.

Filósofos, metafísicos, cientistas e teólogos, todos são concordes sobre este ponto, que é fundado em todas as formas de idéias filosóficas e religiosas, assim como nas teorias das respectivas escolas metafísicas e teológicas.

Assim, as doutrinas herméticas não ensinam a insubstancialidade do Universo com palavras mais altíssonas do que as que vos são familiares, mas, apesar disso, o seu modo de encarar o assunto parecerá uma coisa mais assustadora. Uma coisa que tem um princípio e um fim pode ser considerada, em certo sentido, como irreal e não verdadeira; e, conforme todas as escolas de.- pensamento, o Universo está sob esta lei.

No ponto Absoluto de vista, nada há real a não ser o TODO, que não pode ser realmente explicado. Ou o Universo é criado da Matéria, ou é uma criação mental na Mente do TODO: ele é insubstancial, não-duradouro, uma coisa de tempo, espaço e mobilidade. É necessário compreenderdes cabalmente isto, antes de, passardes a examinar as concepções herméticas sobre a natureza mental do Universo. Examinai cada uma das outras concepções e vereis que elas não são verdadeiras.

Mas o ponto de vista Absoluto mostra um só lado do Panorama; o outro lado é o

Relativo. A Verdade Absoluta foi definida como sendo as Coisas como a mente de Deus as conhece, ao passo que a verdade Relativa são as Coisas como a mais elevada razão do Homem as compreende. Assim, ao passo que para o Todo o Universo é irreal e ilusório, um simples sonho ou resultado de meditação; para as mentes finitas que fazem parte deste mesmo Universo e o observam através das suas faculdades, ele é verdadeiramente real e assim deve ser considerado. Ao reconhecer o ponto de vista absoluto, não devemos cometer o erro de negar ou ignorar os fatos e fenômenos do Universo do modo como estes se apresentam às nossas faculdades: lembremos que não somos o TODO.

Para dar um exemplo familiar, todos reconhecemos que a Matéria existe para os nossos sentidos, e estaríamos errados a mente finita se o não reconhecêssemos. Mas, sempre a nossa mente finita compreende a afirmação científica que, falando cientificamente, não há nada mais que a Matéria; aquilo que chamamos Matéria é considerado como sendo simplesmente uma agregação de átomos, os quais são um grupo de unidades de forças chamadas elétrons ou íons, que estão em constante vibração e movimento circular. Batemos numa pedra e sentimos o baque; parece ser uma coisa real, mas é simplesmente o que dissemos acima. Mas lembramo-nos que o nosso pé, que sente o baque, também é Matéria, e portanto é constituído de elétrons, porque esta matéria também é nosso cérebro. E, para melhor dizer, se não fosse por causa da nossa Mente, absolutamente não poderíamos reconhecer o pé ou a pedra.

Assim, o ideal do artista ou escultor, que ele tanto esforça para reproduzir na tela ou no mármore, parece verdadeiramente real para ele. Assim se produzem os caracteres na mente do autor ou dramaturgo, o qual procura expressá-los de modo que os outros os possam reconhecer. E se isto é verdade no caso da nossa mente finita, qual não será o grau de Realidade nas imagens Mentais criadas na Mente do Infinito? õ amigos, para os mortais este Universo de Mentalidade é verdadeiramente real; é o único que sempre podemos conhecer, ainda que subamos de planos a Planos cada vez mais elevados. Para conhecê-lo de outro modo, pela experiência atual, teríamos de ser o TODO mesmo. É verdade que quanto mais alto nos elevamos na escada - alcançamos as proximidades da mente do Pai - as coisas mais visíveis tomam a natureza ilusória das coisas finitas, Mas antes que o TODO nos retire em si a visão atual não desaparece.

Assim, não devemos viver acima das formas da ilusão. Desde que reconhecemos a natureza real do Universo, procuremos compreender as suas leis mentais e nos esforcemos em empregá-las para obtermos melhor resultado no nosso progresso através da vida, ao caminharmos de um plano a outro plano de existência. As Leis do Universo não são as pequenas Leis Férreas, por causa da sua natureza mental. Tudo, exceto o TODO, é limitado por elas. Aquilo que está NA MENTE . INFINITA DO TODO é REAL em grau relativo a esta mesma Realidade que é revestida na natureza do TODO.

Não fiquemos, pois, incertos e atemorizados: somos todos FIRMEMENTE CONTIDOS NA MENTE INFINITA DO TODO e nada nos pode prejudicar e nos intimidar. Não há força fora do TODO para agir sobre nós. Podemos, pois, ficar calmos e tranqüilos. Há um mundo de conforto e tranqüilidade nesta realização depois de atingida. Então "calmos e tranqüilos repousaremos, embalados no Berço do Abismo"; ficando sem perigo no seio dc. Oceano da Mente Infinita, que é o TODO. NO TODO, move,remos, viveremos e teremos nossa existência.

A Matéria não é para nós a Matéria inferior, enquanto vivemos no plano da Matéria, apesar de sabermos que é simplesmente uma agregação de elétrons ou partículas de Força, que vibram rapidamente e giram umas ao redor das outras na formação de átomos; os átomos vibram e giram formando moléculas que, por sua vez, formam as grandes massas de Matéria. A Matéria não é para nós a Matéria inferior, quando prosseguimos nas investigações mais elevadas, e aprendemos dos Preceitos herméticos que a Força, da qual os elétrons são unidades, é simplesmente uma manifestação da mente do TODO, e assim no Universo tudo é simplesmente Metal em sua natureza. Enquanto no Plano da Matéria, podemos reconhecer os seus fenômenos, poderemos examina-la (como o fazem todos os Mestres de graus mais ou menos elevados), mas fazemo-lo aplicando as forças superiores. Cometeremos uma loucura pretendendo negar a existência da Matéria no aspecto relativo. Podemos negar o seu domínio sobre nós, devemos fazer, mas não devemos ignorar que ela existe em seus aspectos relativos, ao menos enquanto no seu plano.

As Leis da Natureza não são menos constantes ou efetivas, como sabemo-lo, apesar de serem simplesmente criações mentais. Elas estão em muitos efeitos dos diversos planos.

Dominamos as leis inferiores aplicando-lhes as que lhes são superiores; e somente por este modo. Mas não podemos escapar da Lei e ficar inteiramente fora dela. Nada senão O TODO pode escapar da Lei; e isto é porque o TODO é a própria LEI, de que todas as Leis procedem. Os mais adiantados Mestres podem adquirir os poderes usualmente atribuídos aos deuses do homem; e há inúmeras ordens de entes, na grande hierarquia da vida, cujas existências e poderes excedem mesmo os dos mais elevados Mestres entre os homens a um grau imaginário para os mortais. contudo, o mais elevado dos Mestres e o Ente mais elevado devem curvar-se à Lei e ser como Nada diante do Todo. De o modo que se mesmo estes Entes, cujos poderes excedem o atribuídos pelos homens aos seus deuses, estão subordinados à Lei, imaginai qual não será a presunção do homem mortal da nossa raça e do nosso grau, quando ousa considerar as Leis da Natureza como irreais, visionárias e ilusórias, porque chegou a compreender a verdade que as Leis são de natureza mental e simples Criações Mentais do TODO. Estas Leis, que O TODO destinou para governar as leis, não podem ser desafiadas nem argüidas. Enquanto durar o Universo, elas durarão, porque o Universo só existe pela virtude destas Leis, que formam o seu vigamento e que ao mesmo tempo o mantém.

O Princípio hermético de Mentalismo, explicando a verdadeira natureza do Universo por meio do princípio que tudo é Mental, não muda as concepções científicas do Universo, da Vida ou da Evolução. Com efeito, a ciência simplesmente corrobora os Ensinamentos herméticos. Estes últimos ensinam que a natureza do Universo é Mental, ao passo que a ciência moderna disse que ele é Material; ou (ultimamente) que ele é Energia, em última análise. Os Preceitos herméticos não caem no erro de combater os princípios básicos de Herbert Spencer que afirmam a existência de unia "Energia Infinita e Eterna da qual todas as coisas procedem". Com efeito, os Hermetistas reconhecem na filosofia de Spencer a mais elevada exposição das operações das Leis naturais que foram promulgadas até agora, e eles crêem que Spencer foi uma reencarnação de um antigo filósofo que viveu no Egito, milhares de anos antes e que por último se tinha encarnado como Heráclito, filosofo grego que viveu em 500 antes de Cristo. E eles consideram esta idéia da "Energia Infinita e Eterna" como partindo diretamente da linha dos Preceitos herméticos, sempre com o acréscimo da sua própria doutrina que esta Energia (de Spencer) é a Energia da Mente do TODO. Com a Chave-Mestra da Filosofia hermética, o estudante poderá abrir várias portas das mais elevadas concepções filosóficas do grande filósofo inglês, cuja obra manifesta os resultados da preparação das suas encarnações precedentes. A sua doutrina a respeito da Evolução e do Ritmo está na mais perfeita concordância com os Preceitos herméticos sobre o Princípio do Ritmo.

Assim, o estudante do Hermetismo não deve desprezar quaisquer destes pontos de vista científicos a respeito o Universo. Todos devem ser interrogados para se concluir e compreender o princípio oculto que "O TODO é Mente; o Universo é Mental e criado na Mente d'O TODO". Eles crêem que os outros seis dos Sete Princípios se adaptarão a esta doutrina científica e servirão para esclarecê-la. Não há que admirar, ao encontrarmos a influência do pensamento Hermetista nos primitivos filósofos da Grécia, em cujas idéias fundamentais se baseiam em grande parte as teorias da ciência moderna. A aceitação do Primeiro Princípio hermético (o de Mentalismo) é o único grande ponto de diferença entre a ciência moderna e os estudantes Hermetistas, mas a Ciência se dirige gradualmente para o lado dos Hermetistas nas suas apalpadelas no meio da escuridão para encontrar um caminho de saída do Labirinto em que vaga nas suas pesquisas pela Realidade.

O fim desta lição é gravar na mente dos nossos estudantes a verdade que, para todos os intentos e propósitos, o Universo e suas leis, seus fenômenos, são justamente REAIS, que mesmo o Homem está incluído nelas, de modo que poderiam estar sob a hipótese de Materialismo ou Energismo. Sob qualquer hipótese o Universo no seu aspecto exterior é mutável e transitório; e por isso sem substancialidade e realidade. Mas (notai o outro pólo da verdade), sob qualquer das mesmas hipóteses, somos compelidos a, AGIR E VIVER COMO se as coisas transitórias fossem reais e substanciais. Há sempre esta diferença entre as diversas hipóteses, ; que sob os velhos pontos de vista o Poder Mental era ignorado como Força Natural, ao passo que sob o Mentalismo ele se torna uma grande Força Natural. Esta diferença revoluciona a Vida daqueles que compreendem este Princípio, as leis que dele resultam e as suas práticas.

De modo que todos os estudantes devem compreender as vantagens do mentalismo e aprender a conhecer, usar e aplicar as leis que dele resultam. Mas não devem cair na tentação que, como diz o Caibalion, domina os falsos sábios e os deixa hipnotizados pela aparente irrealidade das coisas, tendo como conseqüência eles andarem para trás como desvairados, vivendo num mundo de sonhos, ignorando o trabalho e a vida do homem, sendo o seu fim "quebrarem-se contra as rochas e se despedaçarem pelos elementos, por causa da sua loucura". Em primeiro lugar vem o exemplo do sábio, que a mesma autoridade estabelece do modo seguinte: "ele emprega a Lei contra as Leis, o superior contra o inferior e pela Arte da Alquimia transmuta o que é desagradável no que é agradável e deste modo triunfa." Seguindo a autoridade, combatamos também a falsa sabedoria (que é uma loucura), que ignora a verdade: "O Domínio não consiste em visões e sonhos anormais, em vida e imaginações fantásticas, mas sim no emprego das forças superiores contra as inferiores, escapando assim das penas dos planos inferiores pela vibração nos superiores." Lembrai-vos, sempre, estudantes, que "a Transmutação não é uma presunçosa denegação, mas sim a arma ofensiva do Mestre". As citações acima são do Caibalion e são dignas de serem conservadas na memória do estudante.

Nós não vivemos num mundo de sonhos, mas sim num Universo que, enquanto relativo, é real tanto quanto as nossas vidas e ações são interessadas. A nossa ocupação no Universo não é negar a sua existência, mas sim viver, empregando as Leis para nos elevarmos do inferior ao superior, fazendo o melhor que podemos sob as circunstâncias que aparecem cada dia, e vivendo, tanto quanto é possível, para as nossas idéias elevadas e os nossos ideais. O verdadeiro fim da Vida não é conhecido pelo homem neste plano; as maiores autoridades e a nossa própria intuição dizem-nos que não cometeríamos erro vivendo do modo melhor que pudermos, e segundo a tendência Universal no mesmo ponto, apesar das aparentes evidências em contrário. Todos estamos no Caminho, e a estrada conduz sempre para cima, deixando muitos lugares atrás.

Lede a mensagem do Caibalion, e segui o exemplo do sábio, fugindo do erro do falso sábio que perece por causa da sua loucura.

Capítulo VII
O Todo em tudo

"Enquanto Tudo está n'O TODO, é também verdade que O TODO está em Tudo. Aquele que compreende realmente esta verdade alcançou o grande conhecimento." - O CAIBALION -

Quantas vezes a maioria das pessoas ouviram repetir a declaração que a sua Divindade (chamada por muitos nomes) era "Todo em Tudo,,, e quão Pouco suspeitaram elas da verdade oculta, encoberta por estas palavras tão descuidadamente pronunciadas? A expressão comumente usada é uma sobrevivência da antiga máxima hermética acima citada. Como diz o Caibalion: "Aquele que compreende realmente esta verdade alcançou o grande conhecimento." E, sendo assim, permiti-nos examinar esta verdade, cujo conhecimento tanto significa. Nesta exposição da verdade - esta máxima hermética - está encoberta uma das maiores verdades filosóficas, científicas e religiosas.

Nós vos explicamos o Preceito hermético a respeito da Natureza mental do Universo: a verdade que "o Universo é Mental; ele está dentro da Mente d'O TODO". Diz o Caibalion na passagem citada acima: "Tudo está n'O TODO." Mas note-se também a declaração correlativa, que: "É também verdade que O TODO está em TUDO." Esta declaração aparentemente contraditória é reconciliável pela Lei do Paradoxo. É, aliás, uma exata declaração hermética das relações que existem entre o TODO e o seu Universo mental. Vimos que "Tudo está n'O TODO", vejamos agora o outro aspecto do assunto.

Os Ensinos herméticos são, com efeito, que o Todo está iminente (permanece, está inerente, habita) no seu Universo, e em cada partícula, unidade ou combinação, dentro do Universo. Esta expressão é geralmente ilustrada pelos Instrutores com uma referência ao Princípio de Correspondência. O Instrutor ensina o discípulo a formar uma Imagem mental de uma coisa, uma pessoa ou uma idéia, porque todas as coisas têm uma forma mental; dando como exemplo o ator dramático que forma uma idéia dos seus caracteres, ou um pintor ou escultor que forma uma imagem de um ideal que ele procura exprimir pela sua arte. Neste caso, o estudo ante deve compreender que, enquanto a imagem tem a sua existência e ser somente em sua própria mente, ao mesmo tempo ele, o estudante, autor, dramaturgo, pintor ou escultor, está em certo sentido imanente, e permanece, habita, na imagem mental. Em outras palavras, toda a virtude, vida, espírito e realidade da imagem mental é derivada da mente imanente do pensador. Considerai isto por um momento e logo compreendereis a idéia.

Para tomarmos um exemplo moderno, diremos que Otelo, lago, Hamlet, Lear,

Ricardo III, existiram somente na mente de Shakespeare, no tempo da sua concepção ou criação. E ainda, Shakespeare também existiu em cada um destes caracteres, dando-lhes a sua vitalidade, espírito e ação. Qual é o et espírito)> dos caracteres que conhecemos como Micawber, Oliver Twist, Uriah Heep; será Dickens, ou cada um destes caracteres terá um espírito pessoal, independente do seu criador? Têm a Vênus de Medici, a Madona Sixtina, o Apolo de Belvedere, espírito e realidade de si próprios, ou representam eles o poder espiritual e mental dos seus criadores? A Lei de Paradoxo demonstra que as duas proposições são verdadeiras, consideradas no seu próprio ponto de vista. Micawber é Micawber e é também Dickens. E, demais, enquanto que Micawber pode ser dito Dickens, o mesmo Dickens não é idêntico a Micawber. O homem, como Micawber, pode exclamar: "O Espírito do meu Criador está inerente em mim e, apesar disso, eu não sou ELE!" Quão diferente é esta da horrível Meia-Verdade tão estrondosamente anunciada por alguns dos falsos sábios, que enchem a atmosfera dos seus gritos: "Eu sou Deus!" Imaginai o pobre diabo de Micawber ou de Uriah Heep, gritando: "Eu sou DI'Ckens"; ou algum dos humildes bobos das peças de Shekespeare, anunciando com grandiloqüência: "Eu sou Sbakespeare!" O TODO está até na minhoca, contudo, a minhoca está longe de ser o TODO. E até, é de admirar que, conquanto a minhoca só exista como uma coisa humilde, criada e tendo a sua existência na Mente do TODO, ele, O TODO, esteja imanente na minhoca e nas partículas que a formam. Haverá talvez um mistério maior que o de Tudo n'O TODO, e O TODO em Tudo?

O estudante perceberá no correr da obra que os exemplos dados acima são necessariamente imperfeitos e inadequados, porque representam a criação de imagens mentais na mente finita, ao passo que o Universo é criação da Mente Infinita e a diferença entre os dois pólos as separa.

E assim é simplesmente uma questão de grau, porque em ambas o mesmo Princípio está em operação: o Princípio de Correspondência manifesta-se nelas. "O que está em cima é como o que está embaixo; e o que está embaixo é como o que está em cima.,"

E, no grau em que o Homem realize a existência do Espírito que está imanente no seu ser, ele subirá na escada espiritual da vida. Eis o que significa desenvolvimento espiritual: o reconhecimento, a realização e manifestação do Espírito dentro de nós. Procurai não esquecer-vos desta última definição: a do desenvolvimento. Ela contém a Verdade da verdadeira Religião.

Existem muitos planos de Existência, muitos subplanos de Vida, muitos graus de existência no Universo. E tudo depende do avançamento dos entes na escada, cuja ponta mais inferior é a mais grosseira matéria, e a mais superior sendo separada somente pela mais pequena divisão do ESPÍRITO DO TODO. Nesta Escada da Vida, tudo se move em cima e embaixo. Todos estão no caminho, Cujo fim é o TODO. Todo o progresso é uma volta à Morada própria. Tudo está em cima e embaixo, apesar de todas as aparências contraditórias. Tal é a mensagem do Iluminado.

Os Preceitos herméticos referentes ao processo da Criação Mental do Universo são que, no começo do Ciclo de Criação, O TODO, em seu aspecto de Existência projeta a sua Vontade sobre o seu aspecto de Estado, e o processo de criação começa.

Dizem que o processo consiste no abaixamento da Vibração até que é alcançado um grau bem inferior de energia vibratória, no qual ponto é manifestada a forma mais grosseira possível da Matéria. Este processo é chamado o estado de Involução, em que o TODO está involuido, ou envolvido dentro da sua criação. Este processo é considerado pelos Hermetistas como tendo correspondência com o processo mental de um artista, escritor ou inventor, que também, fica envolvido na sua criação mental como quase esquecendo a sua própria existência e que, por algum tempo, quase vive na sua criação. Se em vez de envolvido usarmos a palavra êxtase, talvez possamos dar uma pequena idéia do que queremos dizer.

Este estado Involutivo da Criação é muitas vezes chamado a Efusão da Energia Divina, como o estado Evolutivo é chamado Infusão. O pólo extremo do processo de Criação é considerado como sendo o mais afastado movido pelo TODO, enquanto que o princípio do estado Evolutivo é considerado como o princípio da volta do pêndulo do Ritmo; sendo expressa em todos os Ensinos herméticos uma idéia de volta à ' casa.

Os Preceitos são que durante a Elusão, as vibrações tornam-se cada vez mais inferiores até que finalmente a restringência cessa, e as vibrações de volta começam. Mas há uma diferença: ao passo que na Elusão as forças criadoras manifestam-se compactamente e como um todo, no começo do estado Evolutivo ou de Infusão, é manifestada a Lei de Individualização, que é a tendência a separar em Unidas de Força, até que finalmente aquilo que se separou do TODO como energia não individualizada volte à sua fonte como Unidade de Vida altamente desenvolvida, tendo subido de mais a mais na escada por meio da Evolução Física, Mental e Espiritual.

Os antigos Hermetistas usam a palavra Meditação, ao descrever o processo da criação mental do Universo na Mente do TODO, a palavra contemplação sendo também freqüentemente empregada. Mas a idéia entendida parece ser a do emprego da Atenção Divina. Atenção é uma palavra derivada de um verbo latino, que significa estender-se, desdobrar-se, e também o ato de. Atenção é realmente um desdobramento mental, uma extensão da energia mental, de modo que a idéia interior é facilmente compreendida quando examinamos o significado real da Atenção,.

Os Ensinos herméticos a respeito do processo de Evolução são os que o Todo, tendo meditado no princípio da Criação, tendo estabelecido então os fundamentos materiais do Universo, tendo pensado na sua existência, gradualmente desperta da sua Meditação e assim começa a manifestar o processo de Evolução, nos planos material, mental e espiritual, sucessivamente e em ordem. Então o movimento de ascensão começa, e tudo começa a mover-se para a mansão espiritual. A Matéria torna-se menos grosseira; as Unidades nascem à existência; as combinações começam a formar-se; a Vida aparece e manifesta-se em formas cada vez mais elevadas; e a Mente torna-se cada vez mais evidente, as vibrações sendo constantemente mais elevadas. Em resumo, o processo total da Evolução, em todas as suas fases, começa e procede de acordo com as Leis estabelecidas do processo de Infusão. Todas ocupam eons e eons do tempo do Homem, cada eon contendo muitos milhões de anos; porém, como nos diz o Iluminado, a criação inteira, incluindo a Involução e a Evolução de um Universo, é para o TODO simplesmente como um piscar de olhos. No fim dos inúmeros ciclos de eons de tempo, O TODO retira a sua Atenção, sua Contemplação e Meditação do Universo, porque a Grande Obra está acabada e Tudo está retirado no TODO de que provém. Mas, 6 Mistério dos Mistérios!, o Espírito de cada alma não é aniquilado, mas sim expandido infinitamente, a Criatura e o Criador são confundidos. Tal é a relação do Iluminado!

A precedente ilustração da meditação e do subseqüente despertamento da meditação do TODO é mais um esforço dos Instrutores para descrever o processo Infinito por um exemplo finito. E, ainda: O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima. A diferença é somente em grau. E assim COMO O TODO desperta-se da meditação sobre o Universo, assim o Homem (no tempo) cessa de manifestar no Plano Material, e retira-se cada vez mais no Espírito presente, que é realmente O Ego Divino.

Há um assunto maior de que desejamos falar-vos nesta lição, e que nos levaria imediatamente a uma invasão do campo da especulação -metafísica; contudo, o nosso fim é simplesmente mostrar a futilidade de tais especulações. Aludimos à questão que inevitavelmente vem à mente de todos os pensadores que se aventuraram a investigar a Verdade. A pergunta é: Por que criou o TODO os Universos? A pergunta pode ser feita de diferentes formas, mas a que vai acima é o essencial da investigação.

Os homens esforçaram-se para responder a esta pergunta, mas ainda não há resposta digna de nome. Muitos imaginaram que o TODO tem muito a ganhar com isto, mas isto é absurdo; porque, que poderia ganhar O TODO que já não possua? Outros deram a resposta na idéia que o TODO quis que tudo amasse, e outros que ele criou por prazer e divertimento, ou porque estava só, ou para manifestar o seu poder: todas respostas e idéias pueris, qualidades do período infantil do pensamento.

Outros acreditaram descobrir o mistério afirmando que o TODO achou-se impelido a criar, pela razão da sua própria natureza interna, o seu instinto criador, Esta idéia é mais adiantada que as outras, mas o seu ponto fraco está na idéia de que o TODO é impelido por alguma coisa, quer interna, quer externa. Se a sua natureza interna, ou instinto criador, impele-o a fazer as coisas, então a natureza interna ou o instinto criador seria o Absoluto, em vez do TODO, e neste caso esta parte da proposição está errada. E, ainda, o TODO cria e manifesta, e parece ter muitas qualidades de satisfações em fazê-lo. E é difícil de escapar da conclusão que, em grau infinito, ele poderia ter o que corresponde no homem a uma natureza inata, ou um instinto criador, correspondente a um infinito Desejo e Vontade. Não poderia agir sem Querer agir; e não poderia Querer agir sem Desejar agir; e não Desejaria agir sem Satisfação nisso. E todas estas coisas pertenceriam a uma Natureza Infinita, e podem ser consideradas como estando de acordo com a Lei de Correspondência. Mas, ainda, preferimos considerar O TODO como agindo inteiramente LIVRE de toda influência, tanto interna como externa. Isto é o problema que se apóia na raiz da dificuldade, e a dificuldade que se apóia na raiz do problema.

Falando estritamente, não se poderá dizer que haja uma Razão para o TODO agir, porque uma razão implica uma causa, e o TODO está acima da Causa e do Efeito, exceto quando ele quer tomar-se causa, tempo em que o Princípio é posto em movimento. Assim, dizeis, o assunto é Incompreensível, justamente como o TODO é incognoscível. Justamente como dizemos simplesmente que o TODO "É", assim também somos obrigados a dizer que O TODO AGE PORQUE AGE. Enfim, O TODO é toda Razão em si mesma, toda Lei em si mesma, toda Ação em si mesma; e pode-se dizer que, em verdade, o TODO é a sua própria Razão, a sua própria Lei, a sua própria Ação; ou que o TODO, a sua Razão, a sua Ação, a sua Lei, são um, com todos estes nomes sendo de uma só coisa. Na opinião dos que vos dão estas lições, a resposta se encerra no PRÓPRIO INTIMO DO TODO, junto com o seu Segredo de Existência.

A Lei de Correspondência, na nossa opinião, compreende somente este aspecto do TODO, que pode ser chamado o aspecto de ESTADO.

O lado oposto deste aspecto é o aspecto de EXISTÊNCIA, no qual toda ' s as Leis perdem-se na LEI, todos os Princípios imergem no PRINCÍPIO; e o TODO, o PRINCÍPIO, a EXISTÊNCIA, SãO IDÊNTICOS ENTRE SI (uns aos outros). Por isso, as especulações metafísicas sobre este ponto são fúteis. Entramos aqui no assunto, simplesmente para mostrar que conhecemos a pergunta e também o absurdo das respostas ordinárias das metafísicas e teologias.

Em conclusão, poderá ser de interesse aos estudantes dizer-lhes que apesar de muitos dos antigos e modernos Preceitos herméticos tenderem a aplicar o Princípio de Correspondência à questão, com o que resulta a conclusão da Natureza Intima, mesmo assim as lendas contam que Hermes, o Grande, sendo interrogado sobre esta questão pelos seus adiantados discípulos, respondeu-lhes FECHANDO OS SEUS LÁBIOS COM FIRMEZA e não dizendo uma palavra, indicando que NÃO HAVIA RESPOSTA. Mas, então, ele podia ter entendido de aplicar o axioma da sua filosofia, que diz: "Os lábios da Sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento", significando que ainda os seus discípulos adiantados não possuíam o Entendimento que os habilitava ao Preceito. Seja como for, se Hermes possuía o Segredo, ele deixou de o comunicar, e embora o mundo tome muito interesse, OS LÁBIOS DE HERMES ESTÃO FECHADOS a este respeito. E quando o Grande Hermes hesitou em falar, qual mortal poderá atrever-se a ensinar?

Porém, deveis lembrar que ainda que seja aquela a resposta deste problema, se porventura há uma resposta, permanece a verdade que: "Enquanto Tudo está n'O TODO, é também verdade que O TODO está em Tudo." O Preceito é enfático. E podemos acrescentar-lhe as palavras conclusivas de citação:"Aquele que compreende realmente esta verdade alcançou o grande conhecimento."

Capítulo VIII
Os planos de correspondência

"O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima."

O Segundo Grande Princípio hermético explica a verdade que há uma harmonia, uma correlação e correspondência entre os diferentes planos de Manifestação, Vida e Existência. Esta afirmação é uma verdade porque tudo o que está incluído no Universo emana da mesma fonte, e as mesmas leis, princípios e característicos se aplicam a cada unidade, ou combinação de unidades de atividade, assim como cada uma manifesta seus fenômenos no seu próprio plano.

Para um fim de conveniência do pensamento e do estudo, a Filosofia hermética considera que o Universo pode ser dividido em três grandes classes de fenômenos, conhecidas como os Três Grandes Planos denominados:

I. O Grande Plano Físico.

II. O Grande Plano Mental.

III. O Grande Plano Espiritual.

Estas divisões são mais ou menos artificiais e arbitrárias, porque a verdade é que todas as três divisões não são senão graus ascendentes da grande escada da Vida, o ponto mais baixo da qual é a Matéria não diferenciada, e o ponto mais elevado o Espírito. E, aliás, os diversos Planos penetram uns nos outros, assim esta não sólida e exata divisão pode ser colocada entre os mais elevados fenômenos do Plano Físico e o mais inferior do Plano Mental; ou entre os mais elevados do mental e os mais baixos do Físico.

Enfim, os Três Grandes Planos podem ser considerados como três grandes grupos de graus de Manifestação vital. Apesar do fim deste pequeno livro não nos permitir entrarmos em extensa discussão ou explicação do objeto destes diferentes planos, contudo, pensamos ser bom dar aqui uma descrição geral dos mesmos.

A princípio devemos considerar bem a pergunta tantas vezes feita pelo neófito, que deseja ser informado a respeito do significado da palavra "Plano", termo que tem sido muito usado e pouco explicado em muitas obras de ocultismo. A pergunta é geralmente expressa assim: "É um Plano um lugar tendo dimensões, ou é simplesmente uma condição ou estado?" Respondemos: "Não; não é um lugar, nem uma dimensão ordinária do espaço; é ainda mais que um estado ou uma condição e, apesar disso, o estado ou a condição é um grau de dimensão, em escala sujeita à medida." Um tanto paradoxal, não é verdade? Porém examinemos a matéria. Uma "dimensão", vós o sabeis, é "uma Medição em linha reta, em relação à medida", etc. As dimensões ordinárias do espaço são comprimento, largura e altura, ou talvez comprimento, largura, altura, espessura ou circunferência. Há uma outra dimensão das coisas criadas, ou medida em linha reta, conhecida pelos ocultistas, como também por cientistas, apesar destes últimos não a chamarem com o termo "dimensão"; e esta nova dimensão, que futuramente será a mais investigada como Quarta Dimensão, é a marca usada na determinação dos graus ou Planos.

Esta Quarta Dimensão pode ser chamada a Dimensão da Vibração. Este é um fato bem conhecido para a moderna ciência, como para os Hermetistas, que estabeleceram a verdade no seu Terceiro Princípio hermético, que "tudo se move, tudo vibra, nada está parado". Desde as manifestações mais elevadas até às mais baixas, todas as coisas vibram. Não somente elas vibram em diferentes coeficientes de movimento, mas também em diversas direções e de diferentes maneiras. Os graus de coeficiente das vibrações constituem os graus de medição na Escala de Vibrações, ou em outras palavras, os graus da Quarta Dimensão. E estes graus,formam o que os ocultistas chamam "Planos". O mais elevado grau de vibração constitui o plano mais elevado e a mais elevada manifestação da Vida que ocupa este plano. Assim, apesar de um plano não ser um lugar, nem ainda um estado ou uma condição, ele possui as qualidades de ambos. Desejaríamos dizer mais sobre o assunto da escala das Vibrações nas nossas próximas lições, em que consideraremos o Princípio hermético de Vibração.

Deveis lembrar-vos agora que os Três Grandes Planos não são as divisões atuais dos fenômenos do Universo, mas simplesmente termos arbitrários empregados pelos Hermetistas para facilitar o pensamento e o estudo dos vários graus e formas da atividade e da vida universal. O átomo de matéria, a unidade de força, a mente do homem e a existência do arcanjo são graus de uma escala, e fundamentalmente a mesma coisa, a diferença sendo simplesmente uma questão de grau e coeficiente de vibração; todas são criações do TODO, e só têm sua existência na Infinita Mente do TODO.

Os Hermetistas subdividem cada um destes Três Grandes Planos em Sete Planos menores, e cada um destes são também subdivididos em sete sub planos, todas as divisões sendo mais ou menos arbitrárias, penetrando umas nas outras, e adotadas somente para conveniência do estudo científico e para a idéia.

O Grande Plano Físico, com seus Sete Planos menores, é a divisão dos fenômenos do Universo que inclui todos os que são relativos às coisas, forças e manifestações físicas ou mentais. Inclui todas as formas do que chamamos

Matéria e todas as formas do que chamamos Energia ou Força. Deveis saber, porém, que a Filosofia hermética não reconhece a Matéria como uma "coisa em si", ou como tendo uma existência separada constante na mente do Todo. Os Ensinamentos são que a Matéria é antes uma forma da Energia; ela é a Energia num coeficiente inferior de vibrações de certa espécie. E de acordo com isto os Hermetistas classificam a Matéria como a extremidade inferior da Energia, e dão-lhe três dos Sete Planos Menores do Grande Plano Físico.

Estes Sete Menores Planos Físicos são os seguintes:

I . O Plano da Matéria (A)

II. O Plano da Matéria (B)

III. O Plano da Matéria (C)

IV. O Plano da Substância Etérea

V. O Plano da Energia (A)

VI. O Plano da Energia (B)

VII. O Plano da Energia (C)

O Plano da Matéria (A) compreende as formas da Matéria em suas formas de sólidos, líquidos e gasosos como geralmente reconhecem os livros dos físicos. O Plano da Matéria (B) compreende certas formas mais elevadas e mais sutis da Matéria, cuja existência a ciência moderna está reconhecendo agora, os fenômenos da Matéria Radiante, nas suas fases de radium, etc., que contém a subdivisão inferior deste Plano Menor. O Plano da Matéria (C) compreende as formas da matéria mais sutil e tênue, cuja existência não é suspeitada pelos cientistas ordinários.

O Plano da Substância Etérea compreende o que a ciência chama "O Éter", uma substância de extrema tenuidade e elasticidade, que penetra todo o Espaço do Universo, e age como mediador para a transmissão de ondas de energia, como a luz, o calor, a eletricidade, etc. Esta substância Etérea forma um elo de relação entre a Matéria (assim chamada) e a Energia e participa da natureza de ambas. os Preceitos herméticos, contudo, ensinam que este plano tem sete subdivisões (como têm todos os Planos Menores.), e que com efeito existem sete éteres, em vez de um só.

Imediatamente acima do Plano da Substância Etérea está o Plano da Energia

(A), que compreende as formas ordinárias da Energia conhecida pela ciência, sendo, respectivamente, estes sete sub planos, o Calor, a Luz, o Magnetismo, a Eletricidade e a Atração incluindo a Gravitação, a Coesão, a Afinidade Química, etc. e várias outras formas de energia indicada pelas experiências científicas mas ainda não classificadas. O Plano da Energia (B) compreende sete sub planos de formas elevadas da energia ainda não descoberta pela ciência, mas que têm sido apelidadas "As Forças Mais Sutis da Natureza" e que são consideradas em ação nas manifestações de certas formas de fenômenos Mentais e pelas quais tais fenômenos são possíveis. O Plano da Energia (C) compreende sete sub planos de energia tão elevadamente organizados, que eles contêm muitos característicos da vida, mas que não é reconhecido pela mente dos homens no Plano ordinário de desenvolvimento, sendo útil só ao uso dos entes do Plano Espiritual; tal energia nem é sonhada pelo homem ordinário, e pode ser considerada quase como a força divina. Os entes que a empregam são como deuses comparados com os mais elevados tipos humanos conhecidos por nós,

O Grande Plano Mental compreende as formas de pensamentos viventes conhecidas por nós na vida ordinária, bem como certas outras formas só bem conhecidas dos ocultistas. A classificação dos Sete Menores Planos Mentais é mais ou menos satisfatória e arbitrária (se não for acompanhada por esmeradas explicações que estão fora do fim desta obra particular; contudo vamos mencioná-los. Eles são os seguintes:

l . O Plano da Mente Mineral lI. O Plano da Mente Elemental (A)

III.O Plano da Mente Vegetal

IV.O Plano da Mente Elemental (B)

V. O Plano da Mente Animal

VI. O Plano da Mente Elemental (C)

VII. O Plano da Mente Hominal.

O Plano da Mente Mineral compreende os estados ou as condições das unidades, entidades, ou grupos e combinações das mesmas, que animam as formas conhecidas por nós como minerais, químicas, etc. Estas entidades não podem ser confundidas com as moléculas, os átomos e os corpúsculos, que são simplesmente os corpos ou as formas materiais destas entidades, assim como o corpo de um homem é a sua forma material e não ele mesmo. Estas entidades podem ser chamadas espíritos em certo sentido, e seres viventes de um grau inferior de desenvolvimento, vida e mente, exatamente um Pouco maior que as unidades da energia vivente que compreendem as mais elevadas subdivisões do mais elevado Plano Físico. A mente média não quer geralmente atribuir a possessão da mente, espírito ou vida ao reino Mineral, mas todos os ocultistas reconhecem a existência dela e a ciência moderna move-se rapidamente para o ponto de vista do Hermetismo, a respeito deste assunto. As moléculas, os átomos C OS corpúsculos têm seus amores e ódios, suas semelhanças e dessemelhanças, atrações e repulsões, afinidades e desafinidades, etc., e muitas das mais intrépidas mentes de ciência moderna expressaram a opinião que o desejo e a vontade, as emoções e sentimentos, dos átomos simplesmente diferem em grau dos que os homens têm.

Não temos espaço para argumentar sobre este assunto. Todos os ocultistas conhecem isto, e outros se referiram às diversas obras científicas mais recentes para corroboração exterior. Estas são as sete subdivisões usuais deste plano.

O Plano da Mente Elemental (A) compreende o estado ou a condição, e grau de desenvolvimento mental e vital de uma classe de entidade desconhecidas ao homem médio, mas reconhecidas pelos ocultistas. Elas são invisíveis aos sentidos ordinários do homem, mas não obstante existem e têm a sua parte do Drama do Universo. O seu grau de inteligência está entre o das entidades minerais e químicas, de um lado, e das entidades do reino vegetal do outro. Também neste plano há sete subdivisões.

O Plano da Mente Vegetal, em suas sete subdivisões, compreende os estados ou as condições das entidades contidas nos reinos do Mundo Vegetal, os fenômenos vitais e mentais que as pessoas de inteligência média justamente bem compreendem, tendo sido publicadas na última década muitas obras novas e interessantes sobre a "Mente e a Vida nas Plantas". As Plantas têm vida, mente e espírito, tão bem como os animais, o homem e o super-homem.

O Plano da Mente Elemental (B), nas suas sete subdivisões, compreende os estados e as condições de uma forma mais elevada das entidades elementais ou invisíveis, tendo a sua parte na obra geral do Universo, cuja mente e vida forma uma parte da e.-,cada entre o Plano da Mente Vegetal e o Plano da Mente Animal, as entidades participando da natureza de ambos.

O Plano da Mente Animal, nas suas sete subdivisões, compreende os estados e as condições de entidades, entes ou espíritos que animam as formas animais da vida, familiares a nós todos. Não é necessário entrar em detalhes a respeito deste reino ou plano de vida, porque o mundo animal nos é tão familiar como o nosso próprio.

O Plano da Mente Elemental (C), nas suas sete subdivisões, compreende as entidades ou entes invisíveis, como são todas as formas elementais, que participam da natureza da vida animal e da humana em certo grau e certas combinações. As formas mais elevadas são meio-humanas em inteligência.

O Plano da Mente Humana, nas suas sete subdivisões, compreende as manifestações da vida e da mentalidade que são comuns ao Homem, nos seus vários graus e divisões. Nesta relação sabemos que o homem médio atual ocupa a quarta subdivisão do Plano da Mente Humana, e somente o mais inteligente cruzou as fronteiras da Quinta Subdivisão. A raça gastou milhões de anos para alcançar esta posição, e serão necessários muitos mais anos para que ela passe a sexta e a sétima subdivisões e vá além delas. Mas, lembrai-vos que existiram raças antes de nós que passaram por esses degraus e nos planos mais elevados. A nossa própria raça é a quinta (com restos da quarta) que pôs os pés no Caminho. Contudo, há alguns espíritos avançados da nossa própria raça que ultrapassaram as massas, e que passaram a sexta e a sétima subdivisões, e muito poucos entes estão acima deles. O homem da Sexta Subdivisão será o "Super-Homem"; e o da Sétima "O Homem de Cima".

Na nossa consideração dos Sete Planos Mentais Menores, nós nos referimos aos Três Planos Elementais em sentido geral. Não queremos entrar em detalhes sobre este assunto, porque esta obra limita-se a tratar da filosofia e dos preceitos em geral. Mas podemos dizer-vos mais, com o fim de dar-vos uma pequena idéia mais clara das relações destes planos aos mais familiares deles: os Planos Elementais têm a mesma relação com os planos do Mentalidade e da Vida Mineral, Vegetal, Animal e Hominal, como as claves pretas do piano têm para com as claves brancas. As claves brancas são suficientes para produzir a música, mas há certas escalas ' melodias e harmonias em que as claves pretas têm a sua parte, e em que a sua presença é necessária. São necessários também como elos de união da condição do espírito; são entidades-estados, entre os outros diversos planos, certas formas de desenvolvimento podendo ser atingidas nele; este último resultado dando ao leitor que pode ter entre as linhas uma nova luz sobre o processo de Evolução, e uma nova chave da porta secreta dos lábios da vida entre um reino e o outro. Os grandes reinos dos Elementais são muito reconhecidos por todos os ocultistas, e os escritos esotéricos estão cheios de menção deles. Os leitores de "Zanoni" de Bulwer Lytton e outras obras semelhantes poderão reconhecer as entidades que habitam estes planos de vida.

Passando do Grande Plano Mental ao Grande Plano Espiritual, que poderemos dizer? Como poderemos explicar estes estados mais elevados do Ente, da Vida e da Mente, às mentes ainda inábeis para compreender e entender as mais elevadas subdivisões do Plano da Mente Hominal?

A tarefa é impossível. Poderemos falar só nos termos mais gerais. Como pode a Luz ser descrita a um homem nascido cego? Como explicar o açúcar a um homem que nunca comeu coisa doce, ou a harmonia a um que nasceu surdo?

Tudo o que podemos dizer é que os Sete planos Menores do Grande Plano Espiritual (cada Plano Menor tendo suas sete subdivisões) compreende os Entes que possuem a Vida, a mente e a Forma acima da do Homem atual como a deste último é acima do verme terrestre, do mineral ou ainda de certas formas da Energia ou Matéria. A Vida destes Entes é tão transcendental para nós, que ainda não podemos pensar nos detalhes dos mesmos; as suas Mentes são tão transcendentes que para eles nos parecemos pensar um pouquinho, e os nossos processos mentais lhes parecem simplesmente como um processo material; a Matéria de que as suas formas são compostas são dos Planos mais elevados da Matéria, contudo, muitos disseram que eles estão presos na Pura Energia. Que se poderá dizer de tais Entes?

Nos Sete Planos Menores do Grande Plano Espiritual existem Entes que poderemos chamar Anjos, Arcanjos, Semideuses. No Plano Menor mais baixo vivem estas grandes almas que chamamos Mestres e Adeptos. Acima deles fica a Grande Hierarquia das Hostes Angélicas, inconcebíveis ao homem; e acima destas ficam os que podem ser chamados sem irreverência Os Deuses, tão elevados na escada da existência estão eles, pois que a sua existência, inteligência e poder são semelhantes aos atribuídos pelas raças de homens às suas concepções da Divindade. Estes Entes estão ainda além dos mais elevados vôos da imaginação humana, e o epíteto Divino é o único que lhes é aplicável. Muitos destes Entes como também as Hostes Angélicas tomam muito interesse nos negócios do Universo e têm uma parte importante neles. Estas Invisíveis Divindades e Anjos Protetores estendem a sua influência livre e ocasionalmente no processo da Evolução e do Progresso Cósmico. A sua ocasional intervenção e assistência nos negócios humanos criou as muitas lendas, crenças, religiões e tradições da raça passada e presente. Eles muitas vezes impuseram ao mundo os seus conhecimentos e poderes conforme a Lei do TODO.

Mas, ainda mesmo os mais elevados destes Entes adiantados ,existem simplesmente como criações da Mente do TODO, e são sujeitos aos Processos Cósmicos e às Leis Universais. Eles são ainda Mortais. Podemos chamá-los deuses comparados conosco, mas ainda são os Irmãos mais Velhos da Raça, as almas mais avançadas que ultrapassam os seus irmãos, e que renunciaram ao êxtase da Absorção pelo TODO, com o fim de ajudar a,raça na sua jornada para subir o Caminho. Mas eles pertencem ao Universo e estão sujeitos às suas condições (são mortais) e o seu plano está abaixo do plano do Espírito Absoluto.

Somente os mais avançados Hermetistas são aptos para compreender os mais ocultos Preceitos a respeito dos estados de existência e dos poderes manifestados nos Planos Espirituais. Os fenômenos são tão superiores aos dos Planos Mentais que uma confusão de idéias resultaria certamente se atentássemos em descrevêlos. Somente aqueles cujas mentes foram muito adestradas nas linhas da Filosofia hermética por muitos anos certamente que estes transportam consigo de outras encarnações o conhecimento adquirido previamente - podem compreender justamente o que é significado pelo Ensinamento sobre este Plano Espiritual. E muitos destes Preceitos Secretos são considerados pelos Hermetistas como sendo sagrados, importantes e perigosos para a disseminação ao público em geral. Os estudantes inteligentes podem reconhecer que significamos com isto a idéia que a significação da palavra Espírito, como é empregada pelos Hermetistas, é semelhante à de Poder Vivente, Força Anitriada, Essência Oculta, Essência da Vida, etc., que não deve ser confundido com o termo usual e comumente empregado em relação com os termos, isto é, religioso, eclesiástico espiritual, etéreo, santo, etc. Aos ocultistas a palavra Espírito se emprega ro sentido d"O Princípio Animado", entendendo com isto a idéia de Poder, Energia Vivente, Força Mística, etc. E os ocultistas sabem que o que é conhecido por eles como Poder Espiritual pode ser empregado para o mau como para o bom fim (em concordância com o Princípio de Polaridade), fato que foi reconhecido pela maioria das religiões nas suas concepções deSatã, Belzebu, o Diabo, Lúcifer, Anjos caídos, etc. E assim os conhecimentos a respeito destes Planos foram conservados no Santo dos Santos, na Câmara Secreta do Templo de todas as Fraternidades Esotéricas e Ordens Ocultas.

Mas podemos dizer aqui que aquele que atingiu os poderes espirituais superiores e empregou-os mal tem um terrível destino para si na história, e a vibração do pêndulo do Ritmo inevitavelmente lança-lo-á no extremo mais baixo da existência Material, de cujo ponto ele tem de fazer a sua caminhada de prisão espiritual, pelas muitas voltas do Caminho, mas sempre com a tortura de ter sempre consigo urna ligeira memória das alturas de que caiu por causa das suas más ações. A lenda da Queda dos Anjos tem uma base nos fatos atuais como sabem todos Os ocultistas avançados. Os esforços para poderes egoístas no Plano Espiritual inevitavelmente traz como resultado no espírito egoísta a perda da sua balança espiritual e a queda do mesmo modo que foi elevado previamente. Mas, ainda para tal alma, é dada a oportunidade da volta, e ela toma o caminho de volta, pagando a terrível penalidade de acordo com a Ui invariável.

Em conclusão vamos agora lembrar-vos que relativamente (de acordo com ele)

ao Princípio de Correspondência, que contém a verdade: O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima, todos os Sete Princípios Herméticos estão em muitas operações em todos os diversos planos Físicos, Mental e Espiritual. O Princípio da Substância Mental aplica-se a todos os planos, porque tudo nasceu na Mente do TODO. O Princípio de Correspondência se manifesta em tudo, porque há uma correspondência, harmonia e correlação entre os diversos planos. O Princípio de Vibração se manifesta em todos os planos-, com efeito, a verdadeira diferença que faz os planos resulta da Vibração, como explicamos. O Princípio de Polaridade manifesta-se em todos os planos, porque os extremos dos Pólos são aparentemente opostos e contraditórios. O Princípio de Ritmo manifestasse em todos os Planos, o movimento dos fenômenos tendo o seu fluxo e refluxo, a sua alta e baixa. O Princípio de Causa e Efeito se manifesta em todos os Planos, cada Efeito tendo a sua Causa e cada Causa tendo o seu Efeito. O Princípio de Gênero manifesta-se em todos os Planos, sendo a Energia Criadora sempre manifestada e operando ela pela linha dos Aspectos Masculinos e Femininos.

O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima.

Este axioma hermético de centenas de anos compreende um dos grandes Princípios dos Fenômenos Universais. Como procedemos com as nossas considerações dos Princípios permanentes, vamos ter ainda mais claramente a verdade da natureza universal deste grande Princípio de Correspondência.

Capítulo IX
A Vibraçao

"Nada está parado, tudo se move, tudo vibra." - O CAIBALION -

O Terceiro Grande Princípio hermético - o Princípio de Vibração - compreende a verdade que o Movimento é manifestado em tudo no Universo, que nada está parado, que tudo se move, vibra e circula. Este princípio hermético foi reconhecido por muitos dos maiores filósofos gregos que o introduziam em seus sistemas. Mas, depois, por muitos séculos, foram perdidos pelos pensadores que estavam fora das fileiras herméticas. Mas no 9." século a ciência física descobriu novamente a verdade e as descobertas científicas do século XX acrescentaram as provas de exatidão e verdade da secular doutrina hermética.

Os Ensinamentos herméticos são que não somente tudo está em movimento e vibração constante; mas também que as diferenças entre as diversas manifestações do poder universal são devidas inteiramente à variação da escala e do modo das vibrações. Não só isto, mas também que O TODO em si Mesmo manifesta uma constante vibração de um grau tão infinito de intensidade e movimento rápido que praticamente pode ser considerado como estando parado. Os instrutores dirigem a atenção do estudante para o fato de que, ainda no plano físico, um objeto que se move rapidamente (como uma roda girante) parece estar parado. Os Ensinamentos são que com efeito o Espírito está num lado do Pólo de Vibração, e o outro Pólo é certa forma extremamente grosseira da Matéria. Entre estes dois pólos estão milhões de milhões de escalas e modos de vibração.

A Ciência Moderna provou que o que chamamos Matéria e Energia é simplesmente modo de movimento vibratório, e muitos dos mais adiantados cientistas estão-se movendo tão rapidamente para os ocultistas que sustentam que os fenômenos da Mente são modos semelhantes de vibração e movimento. Permiti-nos examinar o que disse a ciência sobre -a questão das vibrações na matéria e na energia.

Em último lugar, a ciência ensina que toda a matéria manifesta, em alguns graus, as vibrações procedentes da temperatura ou calor. Seja um objeto quente ou frio - ambos sendo simplesmente graus da mesma coisa - ele manifesta certas vibrações quentes, e neste sentido está em movimento e vibração. Logo todas as partículas da Matéria estão em movimento circular, desde os corpúsculos até os sóis. Os planetas giram ao redor dos sóis, e muitos deles giram sobre seus eixos. Os sóis movem-se ao redor dos grandes pontos centrais, e crê que estes se movem ao redor de maiores, e assim por diante, até o infinito. As moléculas de que as espécies particulares da Matéria são compostas se acham num estado de constante vibração e movimento umas ao redor das outras. As moléculas são compostas de Átomos, que, semelhantemente, se acham em estado de constante movimento e vibração.

Os átomos são compostos de Corpúsculos, muitas vezes chamados elétrons, íons, etc. que também estão em estado de movimento rápido, girando um ao redor do outro, e que manifestam um estado e um modo verdadeiramente rápido de vibração. E vemos assim que todas as formas da Matéria manifestam a Vibração, de acordo com o Princípio hermético de Vibração.

E assim é com as diversas formas da Energia. A Ciência ensina que a Luz, o Calor, o Magnetismo e a Eletricidade são simplesmente formas de movimento vibratório provavelmente emanadas do Éter. A Ciência até agora não procurou explicar a natureza dos fenômenos conhecidos como Coesão, que é o principio da Atração Molecular, nem a Afinidade Química, que é o princípio da Atração Atômica, nem a Gravitação (o maior mistério destes três), que é o princípio da atração pela qual uma partícula ou massa de Matéria é atraída por outra partícula. Estas três formas da Energia não são ainda compreendidas pela ciência, contudo, os escritores inclinam-se para a opinião que estas três são manifestações da mesma forma da energia vibratória, fato que os Hermetistas descobriram e disseram nos tempos passados.

O Éter Universal, que é postulado pela ciência sem que a sua natureza seja compreendida claramente, é considerado pelos Hermetistas corno sendo uma manifestação elevada daquilo que é erroneamente chamado matéria, isto é, a Matéria a um grau elevado de vibração, é chamada por eles "A Substância Etérea". Os Hermetistas ensinam que esta Substância Etérea é de extrema tenuidade e elasticidade, e penetra o espaço universal, servindo como meio de transmissão das ondas da energia vibratória, corno o calor, a luz, a eletricidade, o magnetismo, etc. Os Ensinamentos são que a Substância Etérea é um elo de união entre as formas da energia vibratória conhecida como . Matéria, de um lado, e a Energia ou Força, de outro lado; e também que ela manifesta um grau de vibração, em escala e modo inteiramente particular.

Os cientistas ofereceram o exemplo de uma roda, pião ou para mostrar os efeitos das cilindro movendo-se rapidamente escalas aumentativas da vibração. O exemplo supõe uma roda, pião ou cilindro, girando numa pequena escala de ligeireza. Suponhamos que o objeto se move lentamente. Ele pode ser visto facilmente, mas nenhum som do seu movimento penetra no ouvido. A ligeireza é aumentada gradualmente. Em poucos momentos o seu movimento toma-se tão rápido que um surdo ruído ou uma nota baixa pode ser ouvida. Então como a escala é aumentada a nota sobe mais na escala 'musical. O movimento sendo ainda mais aumentado, a última nota superior é melhor ouvida. Aí', uma depois da outra, todas as notas da escala musical aparecem, subindo cada vez mais conforme é aumentado o movimento. Finalmente, quando o movimento passou uma certa escala, a nota final perceptível aos ouvidos humanos é alcançada, um som agudo soa morrendo ao longe, e segue-se o silêncio. Nenhum som do objeto girante é ouvido, o grau de movimento sendo tão elevado que o ouvido humano não pode registrar as vibrações.

Então começa a percepção dos graus ascendentes do calor e depois de algum tempo o olho percebe um vislumbre do objeto que se torna uma escuridão de cor avermelhada. Como o grau aumenta, o vermelho fica mais claro. Como a ligeireza ainda é aumentada, o vermelho passa ao alaranjado. O alaranjado passa ao amarelo. Depois seguem-se, sucessivamente as representações do verde, azul, anil, e finalmente violeta, conforme for aumentando a grau de ligeireza. Então a cor violeta desaparece, e todas as cores desaparecem, a vista humana não sendo capaz de registrá-las. Mas existem raios invisíveis que emanam do objeto girante, os raios usados na fotografia, e outros raios sutis da luz. Então começam a manifestar-se os raios peculiares conhecidos como os Raios X, etc., conforme se transforma a constituição do objeto. A Eletricidade e o Magnetismo são emitidos quando for atingido o grau apropriado de vibração.

Quando o objeto atinge um certo grau de vibração as suas moléculas se desintegram e giram por si mesmas nos elementos originais ou átomos.

Os átomos por sua vez, seguindo o Princípio de Vibração, são separados nos pequenos corpúsculos de que são formados. E finalmente, mesmo os corpúsculos desaparecem e pode-se dizer que o objeto é composto da Substância Etérea. A Ciência não continua para diante o exemplo, mas os Hermetistas ensinam que, se as vibrações fossem aumentando continuamente, o objeto subiria pelos estados sucessivos de manifestação e poderia manifestar os diversos graus mentais na direção do Espírito; então ele poderia reentrar finalmente no TODO, que é o Espírito Absoluto. O objeto, contudo, teria deixado de ser um objeto desde que tivesse subido ao degrau da Substância Etérea, mas apesar disso a ilustração é correta porque mostra o efeito do grau e modo de vibração aumentada constantemente. Deve ser lembrado na ilustração acima que nos graus em que o objeto expele vibrações de luz, calor, etc., ele não está atualmente resolvido nestas formas da energia (que são muito elevadas na escala), mas simplesmente alcança um grau de vibração em que estas formas de energia são livradas, em certo grau, das influências restritivas das suas moléculas, seus átomos e corpúsculos, como pode ser o caso. Estas formas de energia, apesar de muito mais elevadas na escala do que a matéria, estão aprisionadas e limitadas nas combinações materiais, pela.razão que as energias manifestam e empregam as formas materiais, mas estão restringidas e limitadas nas suas criações destas formas, de modo que estas são, para um modo de entender, as mais verdadeiras de todas as criações, ficando a força criadora envolvida na sua criação.

Mas os Ensinamentos herméticos vão muito além dos da ciência moderna. Eles ensinam que, toda a manifestação do pensamento, emoção, raciocínio, vontade, desejo, qualquer condição ou estado, são acompanhados por vibrações, uma porção, das quais é expelida e tende a afetar a mente de outras pessoas por indução.

Este é o princípio que produz os fenômenos de telepatia, influência mental e outras formas da ação e do Poder do mente com que se está acostumando rapidamente, por causa da completa disseminação dos conhecimentos Ocultos pelas diversas escolas, cultos e instrutores na época atual.

Todos os pensamentos, todas as emoções ou estados mentais têm o seu grau e modo de vibração. E por um esforço da vontade da pessoa, ou de outras pessoas, estes estados mentais podem ser reproduzidos, do mesmo modo que o tom musical pode ser reproduzido por meio da vibração de um instrumento em certo grau e assim como a cor pode ser reproduzida da mesma forma. Pelo conhecimento do Princípio de Vibração, aplicado aos Fenômenos Mentais, podese polarizar a sua mente no grau que quiser, adquirindo assim um perfeito domínio sobre os seus estados mentais, as disposições, etc. Do mesmo modo pode afetar as mentes dos outros, produzindo nelas os estados desejados. Por fim, ele pode produzir no Plano Mental o que a ciência produz no Plano Físico, principalmente, Vibrações à Vontade. Este poder pode ser adquirido somente pela instrução própria, pelos exercícios, práticas, etc., da ciência da Transmutação Mental, um dos ramos da Arte hermética.

Uma pequena reflexão sobre o que dissemos mostrará ao estudante que o Princípio de Vibração compreende os admiráveis fenômenos do poder manifestado pelos Mestres e Adeptos, que aparentemente são capazes de destruir as Leis da Natureza mas que em realidade simplesmente usam uma lei contra outra, um princípio contra outro; e que obtêm os seus resultados mudando as vibrações dos objetos materiais ou formas de energia, e então realizam o que é comumente chamado milagre.

Diz um dos velhos escritores herméticos: "Aquele que compreende o Princípio de Vibração alcançou o cetro do Poder."

Capítulo X
A Polaridade

"Tudo é duplo; tudo tem dois pólos; tudo tem seu par de opostos; o semelhante e o dessemelhante são uma só coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados." - O CAIBALION -

O Quarto Grande Princípio hermético - o Princípio de Polaridade - contém a verdade que todas as coisas manifestadas têm dois lados, dois aspectos, dois pólos opostos, com muitos graus de diferença entre os dois extremos. Os velhos paradoxos, que ainda deixaram perplexa a mente dos homens, são explicados pelo conhecimento deste Princípio.

O homem também reconheceu muitas coisassemelhantes a este Princípio e tentou exprimi-lo por estas máximas e aforismos: Tudo existe e não existe ao mesmo tempo, todas as verdades são meias-verdades, todas as verdades são meio-falsas, há dois lados em tudo, todo verso tem o seu reverso, etc.

Os Ensinos herméticos são, com efeito, que a diferença entre as coisas que se parecem diametralmente opostas é simplesmente questão de graus. Eles ensinam que os pares de opostos podem ser reconciliados, e que a reconciliação universal dos opostos é efetuada pelo conhecimento deste Princípio de Polaridade. Os instrutores dizem que os exemplos deste Princípio podem ser dados a qualquer pessoa, e por meio de uma examinação da natureza real das coisas. Eles conhecem porque afirmam que o Espírito e a Matéria são simplesmente dois pólos da mesma coisa, sendo os planos intermediários simplesmente graus de vibração. Eles afirmam que o TODO e o Muito são a mesma coisa, a diferença sendo simplesmente questão de grau de manifestação mental. Assim a LEi e as Leis são os dois pólos de uma só coisa. Do mesmo modo o Princípio e os Princípios, a Mente Infinita e a mente finita.

Então passando ao Plano Físico, eles explicam o Princípio dizendo que o Calor e o Frio são idênticos em natureza, as diferenças sendo simplesmente questão de graus. O termômetro marca diversos graus de temperatura, chamando-se o pólo mais baixo frio, e o mais elevado calor. Entre estes dois pólos estão muitos graus de calor ou frio, chamai-os qualquer dos dois que não cometereis erro algum. O mais elevado dos dois graus é sempre o mais quente, enquanto que o mais baixo é sempre o trais frio. Não há demarcação absoluta; tudo é questão de grau. Não há lugar no termômetro em que cessa o calor e começa o frio. Isto é questão de vibrações mais elevadas ou menos elevadas. Mesmo os termos alto e baixo (inferiores e superiores), que 'somos obrigados a usar, são unicamente pólos da mesma coisa; os termos são relativos. Assim como o Oriente e o Ocidente; viajai ao redor do mundo e na direção do Oriente, e chegareis a um ponto que é chamado Ocidente, ao vosso ponto de partida, e voltareis deste ponto oriental. Viajai para o Norte e parecer-vos-á viajar no Sul, ou vice-versa.

A Luz e a Obscuridade são pólos da mesma coisa, com muitos graus entre elas. A escala musical é a mesma coisa: vibrando o ponto "C" movei-o para cima até que encontrais outro ponto "C", e assim por diante, a diferença entre as duas extremidades da corda sendo a mesma, com muitos graus entre os dois extremos. A escala das cores é a mesma: pois que as mais elevadas e as mais baixas vibrações são simplesmente diferenças entre o violeta superior e o vermelho inferior. O Grande e o Pequeno são relativos. Assim também o Ruído e o Silêncio, o Duro e o Flexível. Tais são o Agudo e o Liso. O Positivo e o Negativo são dois pólos da mesma coisa, com muitos graus entre eles.

O Bem e o Mal não são absolutos; chamamos uma extremidade da escala Bem e a outra Mal. Uma coisa é menos boa, que a coisa mais elevada na escala, mas esta coisa -menos boa, por sua vez, é mais boa (melhor) que a coisa imediatamente inferior a ela; e assim por diante, o mais ou o menos sendo regulado pela posição na escala.

E assim é no Plano Mental. O Amor e o ódio são geralmente considerados como sendo coisas diametralmente opostas entre si, inteiramente diferentes, irreconciliáveis. Mas aplicamos o Princípio de Polaridade, e supomos que não há coisa de Amor Absoluto ou de ódio Absoluto, como distintos um do outro. Ambos são simplesmente termos aplicados aos dois pólos da mesma coisa. Começando num ponto da escala encontramos mais amor ou menos ódio, conforme subirmos a escala; e mais ódio e menos amor, conforme descermos: sendo verdade que não há matéria de cujo ponto, superior ou inferior, possamos admirar. Há graus de Amor e de Ódio, e há um ponto médio em que o semelhante e o dessemelhante tornam-se tão insignificantes que é difícil fazer distinção entre eles. A Coragem e o Medo seguem a mesma regra. Os pares de opostos existem em toda parte. Onde encontrardes uma coisa encontrareis o seu oposto: os dois pólos.

E é este fato que habilita o Hermetista a, transmutar um estado mental, em outro, conforme as linhas da Polarização. As coisas pertencentes a diferentes classes não podem ser transmutadas em uma outra, mas as coisas da mesma classe podem ser transmutadas, isto é, podem ter a sua polaridade mudada. Assim o Amor pode ser Oeste ou Leste, Vermelho ou Violeta, mas pode tornar-se e imediatamente se torna em ódio, e do mesmo modo, o ódio pode ser transformado em Amor, pela mudança da polaridade. A Coragem pode ser mudada em Medo e vice-versa. As coisas duras podem ficar moles. As coisas agudas podem ficar lisas. As coisas frias podem ficar quentes. E assim por diante, a transmutação sendo sempre entre coisas da mesma natureza, porém de graus diferentes. Tomemos o caso de um homem medroso. Elevando as suas vibrações mentais na linha do Medo e da Coragem, pode chegar a possuir maior grau (e Coragem e Intrepidez. E de igual modo um homem preguiçoso pode mudar-se em um indivíduo ativo, enérgico, simplesmente pela polarização na direção da qualidade desejada.

O estudante que está familiarizado com os processos pelos quais as diversas escolas de Ciência mental, etc., produzem modificações nos estados mentais dos que empregam os seus ensinos, poderá não compreender o princípio que opera estas mudanças. Contudo, quando o Princípio de Polaridade é compreendido, ele vê que as mudanças mentais são ocasionadas por uma mudança de polaridade, uma descida na mesma escala: o assunto é facilmente compreendido. A mudança não é da natureza de uma transrnutação de uma coisa em outra coisa inteiramente diferente, mas é simplesmente uma mudança de grau nas mesmas coisas, uma diferença muito importante. Por exemplo, tomando uma analogia do Plano Físico, é impossível mudar o Calor em Agudeza, Ruído, Altura, etc., mas o Calor pode ser transmutado em Frio, simplesmente pela diminuição dás 'vibrações. Da mesma forma o ódio e o Amor são mutuamente transmutáveis; assim também o Medo e a Coragem. Mas o Medo não pode ser mudado em Amor, nem a Coragem em Mo. Os estados mentais pertencem a inúmeras classes, cada classe deles tem dois pólos opostos, entre os quais a transmutação é possível.

O estudante reconhecerá facilmente que nos estados mentais, bem como nos fenômenos do Plano Físico, os dois pólos podem ser classificados como Positivo e Negativo, respectivamente. Assim o Amor é Positivo para o ódio, a Coragem para o Medo, a Atividade para a Indolência, etc. E também pode-se dizer ainda que aos que não estão familiarizados com o Princípio de Vibração, o pólo Positivo parece ser de um grau mais elevado que o pólo Negativo, e dominá-lo imediatamente. A tendência da Natureza é na direção da atividade dominante do pólo Positivo.

Para acrescentar mais alguma coisa à mudança dos pólos dos próprios estados mentais de cada um pela operação da arte de, Polarização, os fenômenos da Influência mental, nas suas diversas fases, nos mostram que este princípio pode estender-se até ao fenômeno da influência de uma mente sobre outra, de que muito se tem escrito nos últimos anos. Quando se compreende que a Indução mental é possível, isto é, que estes estados mentais são produzidos pela indução de outros, então se pode ver imediatamente como um certo grau de vibração, ou a polarização de um certo estado mental, pode ser comunicado a outra pessoa, e assim se muda a sua polaridade nesta classe de estados mentais. É conforme este princípio que os resultados de muitos tratamentos mentais são obtidos. Por exemplo, uma pessoa é azul, melancólica e cheia de medo. Um cientista mental adestrando pela sua própria vontade a sua mente à desejada vibração, obtém a desejada polarização no seu próprio caso, então produz um estado mental semelhante no outro por indução, o resultado sendo que as vibrações são elevadas e a pessoa polarizada no lado Positivo da escala em vez do lado Negativo, transmutadas em e o seu Medo e outras emoções negativas são , Coragem e nos estados mentais positivos similares. Um pequeno estudo mostrar-vos-á que estas mudanças mentais são quase todas de conformidade com a linha de Polarização, a mudança sendo de grau e não de espécie.

O conhecimento da existência deste grande Princípio hermético habilitará o estudante a compreender melhor os seus próprios estados mentais e o das outras pessoas. Ele verá que estes estados são todos questão de graus, e vendo assim, ele poderá elevar ou baixar a vibração à vontade, mudar os seus pólos mentais, em vez de ser o seu servo e escravo. E por este conhecimento poderá auxiliar inteligentemente os seus semelhantes, e pelo método apropriado mudar a - polaridade quando desejar.

Aconselhamos todos os estudantes a famliarizarem-se com este Princípio de Polaridade, porque uma exata compreensão dó mesmo esclarecerá muitos assuntos difíceis.

Capítulo XI
O Ritmo

"Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; a ritmo é a compensação." - O CAIBALION -

O Quinto Grande Princípio Hermético - o Princípio de Ritmo - encerra a verdade que em tudo se manifesta um movimento proporcional, um movimento de um lugar para outro, um fluxo e refluxo, um movimento para diante e para trás, um movimento semelhante ao do pêndulo, uma maré baixa e uma maré alta entre os dois Pólos que se manifestam nos planos físico, mental e espiritual. O Princípio de Ritmo está em relação com o Principio de Polaridade descrito rio capítulo precedente. O Ritmo se manifesta entre os dois Pólos estabelecidos pelo Princípio de Polaridade. Isto não significa, porém, que o pêndulo do Ritmo vibra nos pólos extremos, porque isto raramente acontece; com efeito, na maioria dos casos, é muito difícil estabelecer o extremo polar Oposto. Mas a vibração vai primeiro para o lado de um Pólo e depois para o do outro.

Há sempre uma ação e uma reação, uma marcha e uma retirada, uma alta e uma baixa, manifestadas em todos os tons e, fenômenos do Universo. Os sóis, os mundos, os homens, os animais, as plantas, os minerais, as forças, a energia, a mente a matéria e mesmo o Espírito manifestam este Princípio. O Princípio se manifesta na criação e destruição dos,mundos, na elevação e queda das nações, na vida histórica de todas as coisas, e finalmente nos estados mentais do Homem.

Começando com as manifestações do Espírito ou do TODO, pode-se dizer que existem a Elusão e a Infusão; a "Expiração e a Inspiração de Brahm", como diz a expressão dos Brâmanes. Os Universos são criados; eles chegam ao ponto mais baixo de materialidade, e logo começam a sua vibração para cima. Os sóis nascem à existência, e sendo atingida a sua maior força, o processo de retrocesso começa, e depois de eons de tempo eles se tornam inertes massas de matéria, esperando um outro impulso que novamente ponha as suas energias interiores na atividade e começa um novo ciclo de vida solar. E assim é com todos os mundos; nasceram, viveram e morreram: é só renascer. E assim é com todas as coisas de figura e forma; elas vibram da ação para a reação, do nascimento para a morte, da atividade para a inatividade voltam para trás.

Assim é com todas as coisas viventes; nasceram, cresceram, morreram, e depois tomaram a nascer. Assim é com todos os grandes movimentos, as filosofias, os credos, os costumes, os governos, as nações e todas as outras coisas: nascer, crescer, amadurecer, decair, morrer e depois renascer. A vibração do pêndulo está sempre em evidência.

A noite segue o dia, e o dia segue a noite. O pêndulo vibra do Outono ao Inverno, e depois volta para trás. Os corpúsculos, os átomos, as moléculas e todas as massas de matéria vibram ao redor do círculo da sua natureza. Não há coisa alguma de absoluta inércia ou cessação de movimento, e todo movimento - participa do Ritmo. O princípio é de aplicação universal. Pode ser aplicado a qualquer questão ou fenômeno de qualquer dos diversos planos de vida. Pode ser aplicado a todas as fases da atividade humana.

Sempre existe a vibração rítmica de um pólo a outro. O Pêndulo Universal sempre está em movimento. As marés da Vida sobem e descem de acordo com a Lei.

O Princípio de Ritmo acha-se bem entendido pela ciência moderna, e é considerado como uma lei universal aplicada às coisas materiais. Mas os Hermetistas levam o princípio muito além, e sabem que as suas manifestações e influências se estendem às atividades mentais do Homem, e que isto se explica pela contínua sucessão de condições, estados, emoções e outras incômodas e embaraçosas mudanças que observamos em nós mesmos. Mas os Hermetistas, estudando as operações deste Princípio, aprenderam a escapar da sua atividade pela Transmutação.

Os Mestres Hermetistas há muito tempo descobriram que, conquanto o Princípio de Ritmo seja invariável, e sempre esteja em evidência nos fenômenos mentais, ainda existem dois planos de sua manifestação tanto quanto os fenômenos mentais estão incluídos. Descobriram que existem dois planos gerais de Consciência, o Inferior e o Superior, o conhecimento deste fato habilita-os a subir ao plano superior e assim escapar da vibração do pêndulo rítmico que se manifesta no plano inferior. Em outras palavras, a vibração do pêndulo se realiza no Plano Inconsciente, e a Consciência não é afetada. A isto eles chamam a Lei de Neutralização. As suas operações consistem na elevação do Ego acima das vibrações do Plano Inconsciente da atividade mental, de modo que a vibração negativa do pêndulo não é manifestada na consciência, e por esta razão eles não são afetados, É semelhante à elevação acima de uma coisa, deixando-a passar debaixo de vós. Os Mestres Hermetistas, ou os estudantes adiantados, polarizando-se no pólo desejado, e por um processo semelhante à recusa de participar da vibração que desce, ou, se preferis, à negação da sua influência sobre eles, sustêm-se firmes na sua posição polarizada, e deixam o pêndulo mental vibrar para trás no plano inconsciente. Todas as pessoas que atingiram todos os graus do domínio próprio realizam isto mais ou menos inconscientemente, e recusando deixar as suas condições e os seus estados mentais negativos dominá-las, aplicam a Lei de Neutralização.

O Mestre, contudo, leva-os a um grau muito elevado de progresso, e pelo uso da sua Vontade atinge um grau de Equilíbrio e Firmeza mental quase impossível de ser crido pelos que deixam mover-se à direita e à esquerda pelo pêndulo mental das condições e emoções.

A importância disto pode ser apreciada por qualquer pensador que compreende que a maioria das pessoas são criaturas de condições, emoções e sensações, e que só manifestam um domínio próprio muito insignificante. Se quiserdes detervos e examinar um momento, vereis como muitos movimentos de Ritmo vos afetaram em vossa vida, como um período de Entusiasmo foi invariavelmente seguido por uma sensação e condição de Depressão. Do mesmo modo, as vossas condições e períodos de Coragem foram seguidos por iguais condições de Medo. E assim sempre aconteceu com a maioria das pessoas: tempos de sensação sempre apareceram e desapareceram com elas, mas elas não suspeitaram a causa ou razão do fenômeno mental. A compreensão das operações deste Princípio dará à pessoa a chave para o Domínio destes movimentos rítmicos de emoções, e habilitá-la-á a conhecer melhor a si mesma e a evitar de ser levada por estes fluxos e refluxos. A Vontade é superior à manifestação consciente deste Princípio, todavia o próprio Princípio não pode ser destruído. Podemos escapar dos seus efeitos, porém, apesar disso, o Princípio está em operação. O pêndulo sempre se move, porém, nós podemos escapar de sermos levados por ele.

Há outras espécies de operações deste Princípio de Ritmo, que queremos falar agora. Acha-se na sua ação aquilo que é conhecido como a Lei de Compensação. Uma das definições ou significações da palavra Compensação é contrabalançar, que é o sentido em que os Hermetistas empregam o termo. É a esta Lei de Compensação a que se refere o Caibalion, quando diz:

"A medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação."

A Lei de Compensação é que o movimento numa direção determina o movimento na direção oposta, ou para o pólo oposto; um balança ou contrabalança o outro. No Plano Físico vemos -muitos exemplos desta Lei. O pêndulo do relógio move-se em certa distância à direita, e depois numa igual distância à esquerda. As estações balançam-se umas às outras da mesma forma. As marés seguem a mesma Lei. E a mesma Lei é manifestada em todos os fenômenos de Ritmo. O pêndulo com brevidade move-se numa direção, e com a mesma brevidade na outra; um movimento extenso à direita representa invariavelmente um movimento extenso à esquerda. Um objeto atirado para cima a uma certa altura tem uma igual distância para atravessar na volta. A força com que um projétil é arremessado uma milha para cima é reproduzida quando o projétil volta à terra. Esta Lei é constante no Plano Físico, como vos mostrará uma referência às autoridades-modelos.

Porém, os Hermetistas levam isto muito mais longe. Eles ensinam que os estados mentais de um homem estão sujeitos à mesma Lei. O homem que goza sutilmente está sujeito a sofrimentos sutis; ao passo que aquele que sente poucas penas só é capaz de sentir pouco gozo. O porco sofre porém muito pouco mentalmente, e também goza muito pouco: é compensado. E do outro lado, temos outros animais que gozam sutilmente, mas cujo organismo nervoso e temperamento lhes faz sofrer esquisitos graus de penas. E assim é com o Homem. Existem temperamentos que permitem um grau muito inferior de gozo, e igualmente um grau inferior de sofrimento-) enquanto que há outros que permitem um gozo mais intenso, mas também um sofrimento mais intenso. A verdade é que a capacidade para o sofrimento ou gozo é contrabalançada em cada indivíduo. A Lei de Compensação está aí em constante operação.

Contudo, os Hermetistas ainda vão mais além neste assunto. Eles ensinam que antes que alguém possa gozar um certo grau de prazer, deverá ter movido, proporcionalmente para o outro pólo da sensação. Dizem, contudo, que o Negativo é procedente do Positivo, nesta questão, quer dizer que experimentando um certo grau de prazer não se segue que se deverá pagar por isto com um grau correspondente de sofrimento; pelo contrário, o prazer é o movimento rítmico, concordando com a Lei de Compensação, para um grau de sofrimento precedentemente experimentado na vida presente, ou numa encarnação precedente. Isto traz nova luz sobre o Problema do sofrimento.

Os Hermetistas consideram a cadeia das vidas como contínua, e como formando parte de uma vida do indivíduo, de modo que, por, conseguinte, o movimento rítmico por esta forma é compreendido enquanto que não teria significação sem que fosse admitida a verdade da reencarnação.

Porém, os Hermetistas pregam que o Mestre ou o estudante adiantado está habilitado' em grau elevado, a escapar o movimento para o Sofrimento, pelo processo de Neutralização antes mencionado. Elevando-se ao plano superior do Ego, muitas das experiências que acontecem aos que vivem no plano inferior são evitadas e escapadas.

A lei da Compensação toma uma parte importante nas vidas dos homens e das mulheres. É sabido que geralmente uma pessoa paga o preço de tudo o que possui ou carece. Se tem alguma coisa, carece de outra: a balança é equilibrada. Ninguém pode guardar o seu dinheiro e ter a migalha de pão ao mesmo tempo. Todas as coisas têm os seus lados prazenteiro e desprazenteiro. As coisas que se ganham são sempre pagas pelas coisas que se perdem. O rico possui muito do que falta ao pobre, ao mesmo tempo que o pobre também possui coisas que estão fora do alcance dos ricos. O milionário poderá ter inclinação para muitos festins, e a opulência com que sustentar todas as delícias e luxúrias da mesa, mas carece do apetite para gozar dela; ele inveja o apetite e a digestão do trabalhador, que carece da opulência e das inclinações do milionário, e que tem mais prazer com o seu simples alimento do que o milionário poderia ter, se o seu apetite não fosse mau, nem a sua digestão arruinada, porque as necessidades, os hábitos e as inclinações diferem. E assim é através da vida. A Lei de Compensação está sempre em ação, esforçando-se para balançar e contrabalançar, e sempre vindo a tempo, sendo necessário diversas vidas para o movi mento de volta do Pêndulo do Ritmo.

Capítulo XII
A Causalidade

"Toda Causa tem seu Efeito; todo Efeito tem sua Causa; todas as coisas acontecem de acordo com a Lei; o Acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; existem muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei." - O CAIBALION -

O Sexto Grande Princípio hermético - o Princípio de Causa e Efeito - contém a verdade que a Lei domina o Universo, nada acontece por Acaso, que este é simplesmente um termo para indicar a causa existente, porém não reconhecida ou percebida; 'que os fenômenos são contínuos, sem interrupção ou exceção.

O Princípio de Causa e Efeito está oculto em todas as idéias científicas antigas e modernas, e foi anunciado pelos Instrutores Herméticos nos primitivos dias. Quando se levantaram muitas e variadas disputas entre as diversas escolas de pensamento, estas disputas foram principalmente sobre os detalhes das operações do Princípio, e ainda às mais das vezes sobre a significação de certas palavras. O Princípio obscuro de Causa e Efeito foi aceito como exato praticamente por todos os pensadores de nomeada do mundo inteiro. Pensar de outro modo seria subtrair os fenômenos do universo do domínio da Lei e da Ordem, e proscrevê-lo ao domínio de uma causa imaginária que os homens chamaram o Acaso.

Uma -pequena consideração mostrará a todos que em realidade não existe coisa alguma de puro. Acaso. Webster define a palavra Acaso do modo seguinte: "Um suposto agente ou período de atividade diferente da força, lei ou propósito; a operação de atividade de tal agente; o suposto eleito deste agente; um acontecimento fortuito, uma causalidade, etc." Porém, um pequeno exame ' mostrar-vos-á que não existe um agente como Acaso, no sentido de uma coisa fora da lei, uma coisa fora de Causa e Efeito. Como poderia ser uma coisa que agisse no universo fenomenal, independente das leis, da ordem e da continuidade deste último? Tal coisa seria inteiramente independente do movimento ordenado do universo, e portanto superior a este. Não podemos imaginar nada fora do TODO que esteja fora da Lei, e isto somente porque o TODO é a própria LEI. Não há lugar no universo para uma coisa fora e independente da Lei. A existência de tal Coisa tomaria sem efeito todas as Leis Naturais, e mergulharia o universo em uma desordem e ilegalidade caótica.

Um exame cuidadoso mostrará que aquilo que chamamos Acaso é simplesmente um modo de exprimir as causas obscuras; as causas que não podemos compreender. A palavra Acaso derivada de uma palavra que significa cair (como a caída dos dados) 1 dando a idéia de que a caída dos dados (e de muitos jogos de azar) é simplesmente um acontecimento que não tem relação com qualquer causa. E é este o sentido em que geralmente é empregado o termo. Mas quando o assunto é examinado secretamente, vê-se que não há nenhum acaso na caída dos dados. Todos os dias cai uma morte, que desagrada a um certo número de pessoas; ela obedece a uma lei do infalível como a que governa a revolução dos planetas ao redor do sol. Atrás da vinda da morte estão as causas, ou cadeias de causas, movendo-se além do lugar que a mente pode alcançar. A posição da morte no box, a redução da energia muscular expendida nos golpes, a condição da mesa, etc., etc., todas são causas, cujo efeito pode ser visto. Mas atrás destas causas observadas existem cadeias de causas de procedência não observada, todas as quais têm uma influência sobre o número da morte predominante.

Se uma morte dura uma grande quantidade de tempo, isto procederá de que os números manifestados serão quase iguais) isto é, haverá um número igual de uma mancha, duas manchas, etc., que são predominantes. Lançai uma moeda ao ar, e ela cairá sobre quaisquer cabeças ou rabos, mas fazei um bom número de arremessos e as cabeças e rabos cairão logo. Esta é a operação da lei proporcional. Mas apesar da proporção e dos simples arremessos estarem debaixo da Lei de Causa e Efeito, se fôssemos capazes de examinar nas precedentes causas, seria claramente observado que era simplesmente impossível para a morte vir de outro modo, nas mesmas circunstâncias e no mesmo tempo. Dadas as mesmas causas, os mesmos resultados advirão.

Sempre há uma causa e um porquê para todos os acontecimentos.

Nada acontece sem uma causa, ou uma cadeia de causas. Muita confusão houve nas mentes de pessoas que consideraram este Princípio, porque não eram capazes de explicar como uma coisa poderia causar outra coisa, isto é, ser a criadora da segunda coisa. Com efeito, como matéria, nenhuma coisa pode causar ou criar outra coisa. A Causa e o Efeito são distribuídos simplesmente como eventualidades. Uma eventualidade é aquilo que acontece ou advém, como um resultado ou uma conseqüência de diversos eventos procedentes. Nenhum evento cria outro evento, mas é simplesmente um elo precedente na grande cadeia ordenada de eventos procedentes da energia criativa do TODO. Há.uma continuidade entre todos os acontecimentos precedentes, conseqüentes e subseqüentes. Há uma relação entre tudo o que veio antes, e tudo o que vem agora. Uma pedra é deslocada de um lugar montanhoso e quebra o teto de uma cabana lá embaixo no vale. A princípio consideramos isto como um acontecimento casual, mas quando examinamos o assunto encontramos uma grande cadeia de causas. Em primeiro lugar está a chuva que amoleceu a terra que suportava a pedra e que a deixou cair; em segundo lugar atrás desta está a influência do sol, de outras chuvas, etc., que gradualmente desintegraram o pedaço de rocha de um pedaço maior, estão as causas que motivaram a formação da montanha e o seu levantamento pelas convulsões da natureza, e assim até o infinito.

Então poderíamos procurar as causas atrás da causa da chuva, etc. Poderíamos considerar a existência do teto. Enfim, logo nos envolveríamos em uma rede de acontecimentos, causas e efeitos, de cujas malhas intrincadas não nos poderíamos desembaraçar.

Do mesmo modo que um homem tem dois pais, quatro avós, oito bisavós, dezesseis trisavós, e assim por diante até que em quarenta gerações calcula-se o número dos avós remontarem a muitos milhares. Assim é com o número de causas que se ocultam sob o mais trivial acontecimento ou fenômeno, tal como a passagem de uma delgada fuligem pelos vossos olhos. Não é coisa agradável descrever o pedaço de fuligem desde o período primitivo da história do mundo desde quando ele formava uma parte de um tronco maciço de árvore, que foi primeiramente transformado em carvão e depois até que passou agora pelos vossos olhos no seu caminho para outras aventuras. E uma grande cadeia de acontecimentos, causas e efeitos, trouxe-o à sua condição presente, e a última é simplesmente uma cadeia dos acontecimentos que poderão produzir outros eventos centenas de anos depois deste momento. Uma série de acontecimentos procedentes do delgado pedaço de fuligem foi a escrita destas linhas que fez o tipógrafo-mestre reformar certa palavra, o revisor fazer a mesma coisa, e que produzirá certos pensamentos na vossa mente, e de outros, que por sua vez afetarão outras e assim por diante conforme a habilidade do homem para raciocinar: e tudo isto da passagem de um delgado pedaço de fuligem, o que mostra a relatividade e associação das coisas, e o fato anterior que "não há coisa grande, não, há coisa pequena, na mente que causa tudo".

Detende-vos a pensar um momento. Se certo moço não tivesse encontrado uma certa moça, no obscuro período da Idade da Pedra, vós, que agora estais lendo estas linhas, não existiríeis agora. E, talvez, se o mesmo casal não se encontrasse, nós que escrevemos estas linhas, não existiríamos também agora. E o verdadeiro ato de escrever, da nossa parte, e o ato de ler, da vossa, poderá não só afetar as respectivas vidas nossas e vossas, mas também poderá ter uma influência direta ou indireta sobre muitas outras pessoas que agora vivem e que viverão nas idades futuras. Toda idéia que pensamos, todo ato que fazemos, tem o seu resultado direto ou indireto que se adapta à grande cadeia de Causa e Efeito.

Não queremos entrar em consideração sobre o Livre-Arbítrio ou o determinismo, nesta obra, por várias razões. Entre as diversas razões, a principal é que nenhum lado da controvérsia é inteiramente verdadeiro; com efeito, ambos os lados são parcialmente verdadeiros, de acordo com os Preceitos herméticos. O Princípio de Polaridade mostra que ambos são Meias-Verdades: pólos opostos da Verdade. Os Preceitos são que o homem pode ser Livre e ao mesmo tempo limitado pela Necessidade, dependendo isto da significação dos termos e elevação da Verdade cuja significação é examinada. Os escritores antigos expressam este assunto, assim: "A criação que está mais distante do Centro é a mais limitada; quanto mais próximo chega do Centro, tanto mais Livre é."

A maioria das pessoas são mais ou menos escravas da hereditariedade, dos que as rodeiam, etc., e manifestam muito pouca Liberdade. São guiadas pelas opiniões, os costumes e as idéias do mundo exterior, e também pelas suas emoções, sensações e condições, etc. Não manifestam domínio algum, digno de nome. Indignamente repudiam esta asserção, dizendo, pois eu certamente sou livre para agir e fazer como me apraz; faço justamente o que quero fazer", mas deviam explicar melhor o quero e o como me, apraz. Que os faz querer fazer uma coisa de preferência a outra; que lhes faz aprazer fazer isto e não aquilo? Não existe por que para a seu prazer e desejo? O Mestre pode mudar estes prazeres e vontades em Outros no lado Oposto do Pólo mental. Ele é capaz de Querer por querer, sem querer por causa das condições, emoções meio, sem tendência ou desejo. , sensações ou sugestões do A maioria das pessoas são arrastadas como a pedra que cai, obediente ao meio, às influências exteriores e às condições e desejos internos, não falando dos desejos e das vontades de outros mais fortes que elas, da hereditariedade, da sugestão, que as levam sem resistência da sua parte, sem exercício da Vontade. Movidas, como os peões no jogo de xadrez da vida, elas tomam parte neste e são abandonadas depois que o, jogo terminou. Mas os Mestres, conhecendo a regra do jogo, elevam-se acima do plano da vida material, e colocando-se em relação com as mais elevadas forças da sua natureza dominam as suas próprias condições, os caracteres, as qualidades e a polaridade, assim como o meio em que vivem, e deste modo tornam-se Motores em vez de Peões: Causas em vez de Efeitos. Os Mestres não escapam da Causalidade dos planos mais elevados, mas concordam com as leis superiores, e assim dominam as circunstâncias no plano inferior. Eles formam parte consciente da Lei, sem serem simples instrumentos. Enquanto servem nos Planos Superiores, governam no Plano Material.

Porém, tanto nos superiores como nos inferiores, a Lei está sempre em ação. Não há coisa do Acaso. As deusas cegas foram abolidas pela Razão. Agora podemos ver com olhos esclarecidos pelo conhecimento que tudo é governado pela Lei Universal - o infinito número de leis é simplesmente uma manifestação da única Grande Lei - a LEI que é O TODO. É verdade, contudo, que nem mesmo um pardal fica descuidado à Mente do TODO, assim como os cabelos da nossa cabeça são contados, como disseram as escrituras. Nada há fora da Lei; nada do que acontece é contrário a ela. Contudo, não cometais o erro de supor que, por causa disso, o Homem é simplesmente um cego autômato. Os Preceitos Herméticos ensinam que o Homem pode usar a Lei contra as leis, e que a vontade superior prevalece contra a inferior, até que por fim procure refúgio na própria LEI, e olhe com desprezo as leis inferiores. Sois capaz de compreender a mais íntima significação disto?

Capítulo XIII
O Gênero

"O Gênero está em tudo; tudo tem os seus Princípios Masculino e Feminino; o Gênero se manifesta em todos os planos." - O CAIBALION

O Sétimo Grande Princípio hermético - o Princípio de Gênero - contém a verdade que há Gênero manifestado em tudo, que os Princípios Masculino e Feminino estão sempre presentes e em ação em todas as fases dos fenômenos e todos os planos da vida. Neste ponto achamos bom chamar a vossa atenção para o fato que o Gênero, no seu sentido Hermético, e o Sexo no uso ordinariamente aceitado do termo, não são a mesma coisa.

A palavra Gênero é derivada da raiz latina que significa gerar, procriar, produzir. Uma consideração momentânea mostrar-vos-á que a palavra tem um significado mais extenso e mais geral que o termo Sexo, o último referindo-se às distinções físicas entre as coisas viventes machos e fêmeas. O sexo é simplesmente uma manifestação do Gênero em certo plano ( o Grande Plano Físico: o plano da vida orgânica. Desejamos fixar esta distinção nas vossas mentes, porque certos escritores, que adquiriram uma simples noção da Filosofia hermética, pretenderam identificar este sétimo Princípio hermético com as disparatadas, fantásticas e muitas vezes repreensíveis teorias e ensinos a respeito do Sexo.

O ofício do Gênero é somente de criar, produzir, gerar, ,etc., e as suas manifestações são visíveis em todos os planos de fenômenos. É um tanto difícil dar provas disto nas linhas científicas, pela razão que a ciência ainda não reconheceu este Princípio como de aplicação universal. Mas ainda assim várias provas têm provindo de fontes científicas. Em primeiro lugar, encontramos uma distinta manifestação do Princípio de Gênero entre os corpúsculos, íons ou elétrons, que constituem a base da Matéria como a ciência conhece por último, e que formando combinações formam o Átomo, que até há pouco tempo era considerado como final e indivisível.

A última palavra da ciência é que o átomo é composto de uma multidão de corpúsculos, elétrons ou íons (sendo aplicados vários nomes por autoridades diferentes), que giram uns ao redor dos outros e vibram num elevado grau de intensidade. Mas as explicações que seguem mostram que a formação do átomo é realmente devida ao agrupamento de corpúsculos negativos ao redor de um positivo; parecendo que os corpúsculos positivos exercem certa influência sobre os corpúsculos negativos, fazendo estes formarem certas combinações e assim cria ou gera um átomo. Isto está em relação com os mais antigos Preceitos herméticos que sempre identificaram o principio masculino de Gênero com o pólo Positivo, ao Feminino com o pólo Negativo da Eletricidade.

Agora uma palavra a respeito desta identificação. A mente do público formou uma idéia inteiramente errônea a respeito das qualidades do chamado pólo Negativo da Matéria magnetizada ou eletrizada. Os termos Positivo e Negativo são em verdade erroneamente aplicados a este fenômeno pela ciência. A palavra Positivo significa tudo o que é real e forte, comparado com a Negativa irrealidade e fraqueza. Nada é ulterior aos fatos reais dos fenômenos elétricos. O chamado pólo Negativo da bateria é realmente o pólo no qual e pelo qual se manifesta a geração ou produção de novas formas de energia. Nada há Negativo ao redor dele. As maiores autoridades científicas agora usam a palavra Catódico " em lugar de Negativo. Do pólo Catódico procedem a imensidade de elétrons ou corpúsculos; do mesmo pólo saem estes maravilhosos raios que revolucionaram as concepções científicas nos últimos dez anos. O pólo catódico é a mãe de todos os fenômenos estranhos, que tornaram inúteis os velhos livros, e que fizeram muitas teorias admitidas serem proscritas do programa da especulação científica. O pólo catódico ou negativo é o Princípio materno dos fenômenos elétricos, e das formas mais sutis da matéria, já é conhecido pela ciência. Assim vedes que temos razão quando recusamos usar o termo Negativo nas nossas considerações sobre o assunto, e insistindo na substituição da palavra Feminino pelo antigo termo. Os fatos da condição nos levam a isto, sem mesmo tomarmos em consideração os Preceitos herméticos. E assim usaremos a palavra Feminino em lugar de Negativo falando deste pólo de atividade.

Os últimos ensinos científicos são que os corpúsculos criadores ou elétrons são Femininos (a ciência diz que eles são compostos de eletricidade negativa, e nós dizemos que são compostos de energia Feminina). Um corpúsculo feminino abandona um corpúsculo Masculino e toma uma, nova direção. Ele ativamente procura uma união com um corpúsculo Masculino, sendo incitado a isso pelo impulso natural de criar novas formas de. Matéria ou Energia. Um escritor costuma até empregar a frase "ele a um dado tempo procura, de sua própria volição, uma união", etc.

Este destacamento e esta união formam a base da maior parte das atividades do mundo químico. Quando o corpúsculo Feminino une-se com um corpúsculo Masculino, começa um certo processo. As partículas Femininas vibram rapidamente sob as influências da Energia masculina, e giram ao redor da última. O resultado é o nascimento de um novo átomo. Este novo átomo é realmente composto da união dos elétrons ou corpúsculos Masculinos e Femininos, mas quando a união é formada, o átomo torna-se uma coisa separada, tendo certas propriedades, mas não manifestando muito a propriedade da eletricidade independente. O processo de destacamento ou separação dos elétrons Femininos é chamado ionização. Estes elétrons ou corpúsculos são os mais ativos trabalhadores no campo da Natureza. Provenientes das suas uniões ou combinações, se manifestam os diversos fenômenos da luz, do calor, da eletricidade, do magnetismo, da atração, repulsão, afinidade química e o inverso, e outros fenômenos semelhantes. E tudo isto procede do. ação do Princípio de Gênero no plano da Energia.

A parte do princípio Masculino parece ser a de dirigir uma certa energia inerente pua o princípio Feminino e assim pôr em atividade o processo criativo. Mas o princípio Feminino é sempre o único que faz a ativa obra criadora, e isto é assim em todos os planos. E ainda, cada princípio é incapaz da energia operativa sem o outro. Em muitas formas da vida, os dois princípios estão combinados em um só organismo. Por esta razão, tudo no mundo orgânico manifesta ambos os gêneros: há sempre o Masculino na forma Feminina, e o Feminino na forma Masculina.

Os Ensinos herméticos contêm muita coisa a respeito da ação dos dois princípios de Gênero na produção e manifestação das diversas formas de energia, etc., mas não julgamos conveniente entrar em detalhes a respeito dos mesmos neste ponto, porque não podemos sustentá-los com provas científicas, pela razão que a ciência ainda não progrediu o necessário para isso. Mas o exemplo que vos demos dos fenômenos dos elétrons ou corpúsculos vos mostram que a ciência está no caminho reto, e poderia também dar-vos uma idéia geral dos princípios ocultos.

Diversos dos principais investigadores científicos declararam a sua opinião que na formação dos cristais foi descoberta alguma coisa que corresponde à atividade sexual, que é uma outra bagatela mostrando a direção em que sopram os ventos científicos. E cada ano traz outros fatos para corroborar a exatidão do Princípio hermético de Gênero. Seria estabelecido que o Gênero está em ação e manifestação constante no campo da matéria inorgânica e no campo da Energia ou Força. A eletricidade é agora geralmente considerada como alguma coisa em que todas as outras formas de energias parecem dissolver. A Teoria Elétrica do Universo é a última doutrina científica, e ela está crescendo rapidamente em popularidade e aceitação geral. E assim segue-se que se pudermos descobrir nos fenômenos da eletricidade - levados ao seu princípio e fonte de manifestações - uma clara e infalível evidência da presença do Gênero e suas atividades, estamos justificados vos fazendo crer que a ciência enfim deu provas da existência em todos os fenômenos universais deste grande Princípio hermético: o Princípio de Gênero.

Não é necessário gastar o nosso tempo com o muito conhecido fenômeno da atração e repulsão dos átomos, afinidade química, os amares e ódios das partículas atômicas, as atrações ou coesões entre as moléculas da matéria. Estes fatos são muito bem conhecidos para necessitar extensos comentários' nossos. Mas considerasses alguma vez que todas estas coisas são,manifestações do Princípio de Gênero? Não vedes que estes fenômenos andam ao Par com os dos corpúsculos ou elétrons? E ainda mais que isto, não vedes a racionalidade dos Ensinos herméticos que afirmam que a verdadeira Lei da Gravitação - esta estranha atração pela qual todas as partículas e corpos de matéria no universo tendem para outras simplesmente outra manifestação do Princípio de Gênero, que opera na direção de atração da energia Masculina para a Feminina, e viceversa? Não poderemos dar-vos provas científicas disto agora; mas vamos examinar os fenômenos à luz dos Ensinos herméticos sobre o assunto, e veremos se não tereis uma mais útil hipótese que as oferecidas pela ciência física. Submetei todos os fenômenos físicos ao texto, e vereis sempre em evidência o Princípio de Gênero.

Permiti-nos agora passarmos à consideração da ação do Princípio no Plano Mental. Muitas idéias interessantes têm nele a sua examinação.

Capítulo XIV
O gênero mental

Os estudantes de psicologia que seguiram o modo moderno de pensar a respeito dos fenômenos mentais ficaram surpreendidos pela persistência da dupla idéia mental que se tem manifestado tão fortemente durante os dez anos passados do último meio século, e que deu origem a um grande número de teorias plausíveis a respeito da natureza e constituição destas duas mentes. Recentemente Thompson J. Hudson atingiu grande popularidade em 1893, avançando a sua bem conhecida teoria das "mentes objetiva e subjetiva", que ele afirmou existir, em cada indivíduo. Outros escritores atraíram também a atenção pelas teorias sobre as "mentes consciente e subconsciente", mentes voluntária e involuntária", "mentes ativa e passiva", etc., etc. As teorias dos diversos escritores diferem entre si, mas permanece o princípio oculto da dualidade da mente.

O estudante de Filosofia hermética tem provocação de riso quando lê e ouve qualquer coisa destas novas teorias a respeito da dualidade da mente, cada escola aderindo tenazmente à sua própria teoria favorita e clamando ter descoberto a verdade. O estudante volta para trás as páginas da história oculta e, nos primeiros elementos dos preceitos ocultos, encontra referências à antiga doutrina hermética do Princípio de Gênero no Plano Mental: a manifestação do Gênero Mental. E examinando mais ele conclui que a antiga filosofia tinha conhecimento dos fenômenos da mente dual e deu conta disto pela teoria do Gênero Mental, Esta idéia de Gênero Mental pode ser explicada em poucas palavras aos estudantes que estão familiarizados com as modernas teorias há pouco aludidos. O Princípio Masculino da Mente corresponde à chamada Mente Objetiva, Mente Consciente, Mente Voluntária, Mente Ativa, etc. E o Princípio Feminino da Mente corresponde à chamada Mente Subjetiva, Mente Subconsciente, Mente Involuntária, Mente Passiva, etc. Certamente que os Preceitos herméticos não concordam com as diversas teorias modernas sobre a natureza das duas fases da mente, nem admitem muitos fatos considerados como sendo respectivamente dos dois aspectos, porque muitas teorias e afirmações são alambicadas e incapazes de resistir ao toque da experiência e da demonstração. Apontamos as fases de concordância simplesmente para o fim de ajudar o estudante a assimilar os seus conhecimentos já adquiridos com os Preceitos da Filosofia hermética.

Os estudantes de Hudson encontrarão no princípio do seu segundo capítulo da Lei dos Pensamentos Psíquicos", a proposição que: "A mística algaravia dos filósofos herméticos desenvolve a mesma idéia", isto é, a dualidade da mente.

Se o Dr. Hudson empregasse o tempo em decifrar um pouco da "mística algaravia da Filosofia Hermética", ele teria obtido grande esclarecimento sobre a função da "mente dual"; porém, naquele tempo, as suas obras mais interessantes ainda não tinham sido escritas. Vamos agora considerar os Preceitos herméticos sobre o Gênero Mental.

Os Instrutores Herméticos dão as suas instruções a respeito deste assunto fazendo os seus estudantes examinarem a relação da sua consciência a respeito do seu Ego. Os estudantes aprendem a pôr a sua atenção no Ego que habita em cada um de nós. Cada estudante aprende a ver que sua consciência lhe dá uma primeira relação da existência do seu Ego: à relação é "O Eu sou". A princípio isto parece ser a última palavra da consciência, mas um exame um, pouco mais profundo descobre que este "Eu sou" pode ser separado ou dividido em duas partes distintas, dois aspectos, os quais, apesar de agirem em uníssono e em conjunto, podem ser separados na consciência.

Apesar de a princípio parecer existir um só Ego, um exame mais cuidadoso e mais profundo mostra que existe um Ego e um Eu. Estes gêmeos mentais diferem em característicos e natureza, e um exame das suas naturezas e dos fenômenos que procedem da mesma dará muita luz sobre muitos problemas da influência mental.

Permiti-nos começar com uma consideração sobre o Eu, que é usualmente tomado pelo Ego pelo estudante, até que ele investigue nos acessos da consciência. Um homem pensa do seu Ego (no seu aspecto de Eu) como sendo composto de certos estados, modos, hábitos, característicos, etc., tudo o que faz sobressair a sua personalidade, ou a Seidade conhecida a si e aos outros.

Conhece que estas emoções e sensações mudam, nascem e morrem, estão sujeitas aos Princípios de Ritmo e de Polaridade, que as levam de um extremo ao outro. Pensam também que o Eu é formado de certos conhecimentos reunidos nas suas mentes e formando então uma parte deles mesmos. Tal é o Eu de um homem.

Porém, falamos muito apressadamente. O Eu de muitos homens pode ser considerado como consistindo da sua consciência corpórea e dos seus apetites físicos, etc. A sua consciência sendo presa à sua natureza corpórea, eles praticamente vivem nela. Muitos homens ainda consideram o seu vestuário como parte do seu Eu e atualmente parecem considerá-lo como uma parte de si mesmos. Um escritor disse humoristicamente que os "homens se compõem de três partes: o espírito, o corpo e a roupa".

Estas pessoas ou roupas conscientes perderiam a sua personalidade se fossem despidas da sua roupa, por selvagens, na ocasião de um naufrágio. Porém, mesmo muitos dos que estão presas à idéia do vestuário pessoal afirmam fortemente que a consciência do seu corpo é o seu Eu. Eles não podem ter a idéia de uma Seidade independente do corpo. A sua mente parece-Ihes ser praticamente uma coisa pertencente ao seu corpo: o que é sempre o contrário.

Mas, conforme o homem sobe na escala de consciência, ele se torna capaz de distinguir o seu Eu da sua idéia do corpo e de pensar que este é uma coisa pertencente à sua parte mental. Mas, só então poderá identificar inteiramente o Eu com os estados mentais, as emoções, etc., que ele sente existir dentro de si.

É capaz de considerar estes estados internos como idênticos a ele mesmo, em vez deles serem simplesmente coisas produzidas por uma parte da sua mentalidade e existindo dentro dele: sendo suas, estando nele, mas não sendo ele mesmo. Compreende que pode mudar estes estados mentais de emoções por um esforço da vontade e que pode do mesmo modo produzir uma emoção ou um estado de uma natureza exatamente oposta, e, contudo, existe o mesmo Eu. E assim até que seja capaz de pôr de parte estes vários estados mentais, as emoções, os hábitos, as qualidades, os característicos e outras faculdades mentais: é capaz de pô-las no não-eu, coleção de curiosidade e embaraços, como uma posse de valor. Isto requer muita concentração mental e poderes de análise mental da parte do estudante. Porém, mesmo assim a tarefa é possível para os estudantes avançados, e mesmo os não muito adiantados podem ver, na imaginação, como pode ser realizado o processo.

Depois que o processo de pôr. de parte foi executado o estudante pôr-se-á em posse consciente de uma Seidade que pode ser considerado nos seus dois aspectos de Eu e Ego. O Eu será considerado como sendo uma coisa mental em que os pensamentos, as idéias, as emoções, as sensações, e outras condições são produzidas. Pode ser considerado como a matriz como o disseram os antigos, capaz de fazer a geração Manifesta-se à consciência como um Ego Feminino com latentes de criação e geração das progênies mentais de todas as espécies e reinos. Sente-se que as suas forças de energia criativa são enormes. Contudo, parece ser consciente que ele recebe muitas formar, de energias' do seu Ego companheiro, ou de outro Ego, quando é capaz de dar existência às criações mentais. Esta consciência traz consigo a realização de uma enorme capacidade para a operação . mental e a habilidade criativa.

Porém, o estudante descobre logo que isto não é tudo o que percebe dentro da sua consciência interior. Percebe que existe uma Coisa mental que é capaz de querer que o Ego Feminino acione na direção de certa linha criativa, e que também é capaz de sustentar e provar a criação mental. Esta parte deles mesmos, dizem ser chamada Ego. É capaz de ficar na sua consciência à vontade. Não tem uma consciência de habilitações para gerar e criar ativamente, no sentido do processo que acompanha as operações mentais, mas sim no sentimento e consciência de uma facilidade para projetar uma energia do Ego Masculino ao Ego Feminino - um processo de desejo que a criação mental comece e continue. Compreende também que o Ego Masculino é capaz de sustentar e abrigar as operação da criação mental do Ego Feminino. Na mente de cada pessoa existe estes dois aspectos.

O Eu representa o Princípio Masculino de Gênero e o Eu representa o Feminino. O Ego representa o aspecto de Existência; o Eu o aspecto de Estado. Deveis saber que o Principio de Correspondência opera neste plano do mesmo modo que o faz no grande plano em que é feita a criação dos Universos. Ambos são semelhantes, porém muito diferentes em grau. "O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como a que está em cima".

Estes aspectos da mente - os Princípios Masculino e Feminino - o Ego e o Eu - considerados em relação com' os conhecimentos dos fenômenos mentais ou físicos, dão a chave, mestra destas pouco conhecidas regiões da operação e manifestação mental. O Princípio de Gênero Mental manifesta a verdade que se oculta debaixo do campo total dos fenômenos de influência mental, etc.

A tendência do Princípio Feminino é sempre em receber impressões, ao passo que a tendência do Princípio Masculino é sempre em dá-Ias ou exprimi-Ias. O Princípio Feminino tem um campo de operação mais variado que o Princípio Masculino. O Princípio Feminino dirige a obra da geração de novos pensamentos, conceitos, idéias, incluindo a obra da imaginação. O Princípio Masculino contenta-se com a obra da Vontade, nas suas várias fases. E assim, sem o auxílio ativo da vontade do Princípio Masculino, o Princípio Feminino pode contentar-se com a geração de imagens mentais que são o resultado de impressões recebidas de fora, em vez de produzir criações mentais originais.

As pessoas que prestam urna contínua atenção a um assunto empregam ativamente ambos os Princípios Mentais: o Feminino na obra da ativa geração mental, e a Vontade Masculina na estimulação e fortificação da porção criativa da mente. A maioria das pessoas empregam realmente o Princípio Masculino mas pouco, e contentam-se com viver de acordo com os pensamentos e as idéias insinuadas no Eu pelo Ego das outras mentes. Porém, o nosso propósito não é demorarmo-nos na consideração desta fase do assunto, que pode ser estudada num bom livro de psicologia, com a chave que nós vos demos sobre o Gênero Mental.

O estudante dos Fenômenos Psíquicos está ciente dos admiráveis fenômenos classificados sob o título de Telepatia, Transmissão de Pensamento, Influência

Mental, Sugestão, Hipnotismo, etc. Muitos procuraram para uma explicação destas várias fases de fenômenos as teorias dos diversos instrutores da mente dupla. Em certa medida estão certos, porque há claramente uma manifestação de duas fases distintas da atividade mental. Porém, se esses estudantes considerarem estas mentes duplas à luz dos Preceitos herméticos a respeito das Vibrações e do Gênero Mental, compreenderão que têm na mão a chave com que tanto esforço procuravam.

Nos fenômenos de Telepatia vê-se como a Energia Vibratória do Princípio Masculino é projetada para o Princípio Feminino de outra pessoa e este toma o pensamento-semente e o desenvolve até a madureza. Pela mesma forma operam a Sugestão e o Hipnotismo. O Princípio Masculino da pessoa dando as sugestões dirige uma exalação da Energia Vibratória ou Força-Vontade para o Princípio Feminino da outra pessoa, e esta última aceitando-a, recebe-a em si mesma e age e pensa de conformidade com ela. Uma idéia assim recolhida na mente de uma pessoa, cresce e se desenvolve, e com o tempo é considerada como a melhor produção mental do indivíduo, porquanto, em realidade, é como o ovo do cuco colocado no ninho do pardal, quando este destrói a produção direta, e se põe no ninho. O método normal é para os Princípios Masculino e Feminino na mente de uma pessoa coordenar e agir harmoniosamente em conjunção com a de outra.

Mas, infelizmente, o Princípio Masculino nas pessoas médias é muito lento em agir - o entendimento da Força-Vontade é muito vagaroso - e a conseqüência é que tais pessoas são quase inteiramente dirigidas pelas mentes e os desejos das outras pessoas, às quais ela permite que façam as suas idéias e os seus desejos. Quão poucas ações ou pensamentos originais são realizados pelas pessoas médias? Não são a maioria das pessoas simples sombras e ecos de outras que têm vontades ou mentes mais fortes que elas? Isto acontece porque a pessoa média vive mais na consciência do seu Eu do que na do Ego.

Está polarizada no seu Princípio Feminino da Mente, e o Princípio Masculino, em que se acha a Vontade, é obrigado a ficar inativo e sem emprego.

O homem e a mulher fortes do mundo manifestam invariavelmente o Princípio Masculino da Vontade, e a sua força materialmente depende deste fato. Em vez de viver das impressões dadas às suas mentes pelos outros, dominam a sua própria mente pela sua Vontade, obtendo a espécie desejada de imagens mentais, e ainda mais dominam do mesmo modo as mentes dos outros. Vede as pessoas fortes, como implantam os seus pensamentos-sementes nas mentes das massas do povo, fazendo assim este pensar de acordo com os desejos e as vontades destes indivíduos fortes. Isto é porque as massas do povo são como que criaturas-carneiros, não dando origem a uma idéia própria e não empregando as suas próprias forças de atividade mental.

A manifestação do Gênero Mental pode ser observada ao redor de nós todos os dias da vida. As pessoas magnéticas são as que podem empregar o Princípio Masculino com o fim de imprimir as suas idéias nos outros. O ator que faz o povo chorar ou rir como quer, o faz empregando este princípio. E assim é sucessivamente o orador, o político, o pregador, o escritor ou qualquer pessoa que tenha a atenção do público. A influência particular exercida por algumas pessoas sobre outras é devida à manifestação do Gênero Mental, na direção da linha vibratória acima indicada. Neste princípio acha-se oculto o segredo do magnetismo pessoal, da influência pessoal, da fascinação, etc., assim como os fenômenos geralmente agrupados sob o nome de Hipnotismo.

O estudante que familiarizou-se com os fenômenos geralmente chamados psíquicos, poderá descobrir a importante parte tomada nos ditos fenômenos por esta força que a ciência denominou Sugestão, termo pelo qual se quer significar o processo ou método pelo qual uma idéia é transmitida à mente de outro, fazendo a segunda mente agir de acordo com ela. Uma exata compreensão da Sugestão é necessária para se compreender com inteligência os variados fenômenos psíquicos que a Sugestão encobre.

Porém, o conhecimento da Vibração e do Gênero Mental é ainda mais necessário para o estudante da Sugestão. Porque todo o princípio da Sugestão depende do princípio de Gênero Mental e de Vibração.

É costume dos escritores e instrutores da Sugestão explicar que é a mente objetiva ou voluntária que faz a impressão mental, ou sugestão na mente subjetiva ou involuntária. Porém, não descrevem o processo ou não nos dão uma analogia na natureza pela qual possamos compreender melhor a idéia. Mas, se quiserdes raciocinar sobre o assunto à luz dos Preceitos Herméticos, sereis capaz de ver que o fortalecimento do Princípio Feminino pela Energia Vibratória do Princípio Masculino está em concordância com as leis universais da natureza, e que o universo natural oferece inúmeras analogias pelas quais o princípio pode ser compreendido. Com efeito, os Preceitos Herméticos mostram que a verdadeira criação do Universo segue a mesma lei, e que em todas as manifestações criativas, nos planos espiritual, mental e psíquico, está sempre em operação o princípio de Gênero: manifestação dos Princípios Masculino e Feminino. "O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima."

E mais ainda, quando se compreende o princípio de Gênero Mental, os variados fenômenos de psicologia tornam-se imediatamente adaptáveis a uma classificação e estudo inteligente, em vez de serem muito obscuros. O princípio se realiza na prática, porque é baseado nas imutáveis leis universais da vida.

Não entraremos em extensa discussão ou descrição dos variados fenômenos da influência mental ou atividade psíquica. Existem muitos livros bons, escritos e publicados sobre este assunto nos últimos anos. Os principais fatos dados nesses vários livros são corretos, apesar dos escritores intentarem explicar os fenômenos por diversas teorias que lhes são favoritas. O estudante pode instruir a si próprio nestas matérias, e empregando a teoria do Gênero Mental será capaz de pôr em ordem no caos das teorias e doutrinas contrárias, e poderá tomar-se mestre no assunto se for inclinado à ele. O fim desta obra não é dar uma extensa relação dos fenômenos psíquicos, mas sim dar ao estudante uma chave-mestra com a qual possa abrir as diversas portas que conduzem às partes do Templo do Conhecimento que ele quiser explorar. julgamos que nesta consideração dos preceitos do Caibalion, encontrar-se-á uma explicação que servirá para esclarecer muitas dificuldades embaraçosas: ela será uma chave que abrirá muitas portas.

Qualquer que seja o costume de fazer detalhes a respeito das muitas formas de fenômenos psíquicos e da ciência mental, colocamos providencialmente na mão do estudante as idéias pelas quais ele pode instruir-se muito a respeito de cada fase do assunto que o interessar. Com o auxílio do Caibalion pode-se fazer uma livraria oculta, a velha Luz do Egito iluminando as páginas e os assuntos obscuros. Este é o fim deste livro.

Não queremos expor uma nova filosofia, mas sim fornecer o bosquejo de um grande preceito do mundo antigo, que poderá esclarecer as doutrinas de outros, que servirá de Grande Reconciliador das diferentes teorias e doutrinas opostas.

Capítulo XV
Axiomas herméticos

"A posse do Conhecimento sem ser acompanhada de uma manifestação ou expressão em Ação é como o amontoamento de metais preciosos, uma coisa vã e tola. O Conhecimento é, como a riqueza., destinado ao Uso. Lei do Uso é Universal, e aquele que viola esta lei sofre por causa do seu conflito com as forças naturais." - O CAIBALION -

Os Preceitos herméticos, conquanto sempre tenham sido bem guardados na mente dos seus afortunados possuidores, pelas razões que já dissemos, nunca foram destinados a ser simplesmente acumulados e ocultados. A Lei do Uso está contida nos preceitos, como podeis ver pela referência à citação acima do

Caibalion, que a estabelece energicamente. O Conhecimento sem o Uso e a Expressão é uma coisa vã, que não traz bem algum ao seu possuidor ou à sua raça. Guardai-vos da avareza mental e expressar em Ação aquilo que aprendesses. Estudai os Axiomas e Aforismos, mas praticai-os também.

Damos a seguir alguns dos mais importantes Axiomas herméticos do Caibalion, com alguns comentários juntos a cada um deles. Fazei-os vós mesmos, praticaios e usai-os, porque eles não são realmente vossos enquanto não os tiverdes Usado.

"Para mudar a vossa disposição ou vosso estado mental, mudai a vossa vibração." - O CAIBALION

Todos podem mudar as suas vibrações mentais por um esforço da Vontade na direção determinada, fixando a Atenção sobre um estado mais desejável. A Vontade dirige a Atenção, e a Atenção muda a Vibração. Cultivai a Arte da Atenção, por meio da Vontade, e aprendereis o segredo do Domínio das Disposições e dos Estados mentais.

"Para destruir uma desagradável ordem de vibração mental, ponde em movimento o Princípio de Polaridade e concentrai-vos sobre o Pólo Oposto ao que desejais suprimir. Destruí o desagradável mudando a sua polaridade." - O CAIBALION

Esta é uma das mais importantes das fórmulas herméticas. É baseada em verdadeiros princípios científicos. Nós vos dissemos que um estado mental e o seu oposto eram simplesmente os dois pólos de uma só coisa, e que a polaridade pode ser invertida pela Transmutação Mental. Este princípio é conhecido pelos psicólogos modernos, que o aplicam para a destruição de hábitos desagradáveis, mandando os seus discípulos concentrarem sobre a qualidade oposta. Se fordes possuídos pelo medo, não percais tempo tratando de destruir esse medo, mas cultivai imediatamente a qualidade da Coragem, e o Medo desaparecerá. Muitos escritores exprimiram esta idéia muito claramente empregando o exemplo do quarto escuro. Não deveis tirar a Escuridão, mas simplesmente abrindo as janelas e entrando a Luz, a Escuridão desaparece. Para destruir uma qualidade Negativa, concentrai-vos sobre o Pólo Positivo dessa mesma qualidade, e as vibrações se mudarão gradualmente do Negativo ao Positivo, até que finalmente fiqueis polarizado no Positivo em vez de no Negativo. O inverso é também verdade, como muitos criaram as suas mágoas, quando puseram-se a vibrar constantemente no pólo Negativo das coisas, Pela mudança da vossa polaridade podeis dominar os vossos defeitos, mudar os vossos estados mentais, refazer as vossas disposições, e formar o caráter. Muitos dos Domínios Mentais dos Hermetistas avançados são devidos a esta aplicação da Polaridade, que é um dos mais importantes aspectos da Transmutação Mental. Lembrai-vos do Axioma Hermético (citado previamente), que diz:

"A Mente (tão bem como os metais e elementos) pode ser transmutada de estado em estado, de grau em grau, de condição em condição, de pólo em pólo, de vibração em vibração." - O CAIBALION -

O domínio da Polarização é o domínio dos princípios fundamentais da Transmutação Mental ou Alquimia Mental, porque, a não ser que adquira a arte de mudar a sua própria polaridade, ninguém poderá influir sobre os que o rodeiam. A compreensão perfeita deste princípio tornará a pessoa apta a mudar a sua própria Polaridade, bem como a dos outros, se ela quiser empregar o tempo no estudo e na prática necessária para possuir a arte. O princípio é verdadeiro, mas os resultados obtidos dependem da paciência e da prática persistente do estudante.

"O Ritmo pode ser neutralizado pela aplicação da Arte de Polarização." - O CAIBALION -

Como explicamos nos capítulos antecedentes, os Hermetistas ensinam que o Princípio de Ritmo se manifesta no Plano Mental tanto como no Plano Físico, e que a contínua sucessão de disposições, sensações, emoções e outros estados mentais, é devida ao movimento à direita e à esquerda, por assim dizer, do pêndulo mental que nos leva de um extremo de sensação a outro extremo. Os Hermetistas ensinam também que a Lei de Neutralização habilita a pessoa a dominar, em grande parte, a ação do Ritmo no conhecimento interior ou consciência. Como explicamos, há um Plano Superior de Consciência, do mesmo modo que um Plano Inferior ordinário, e o Mestre elevando-se mentalmente ao Plano Superior faz um movimento do chamado pêndulo mental manifestar-se no Plano Inferior, e ele, estando. no Plano Superior, escapa conscientemente do movimento inferior. Isto efetua-se pela polarização na Seidade Superior, e depois transportando as vibrações mentais do Ego acima das do plano ordinário de consciência. Isto é semelhante ao elevamento acima de uma coisa, deixando-a passar por baixo de vós. O Hermetista avançado polariza-se no Pólo Positivo do seu Ente: o pólo "Eu sou", ao contrário do pólo da personalidade, e pela recusa e negação da ação do Ritmo, eleva o seu próprio plano de consciência, e permanentemente firme na Manifestação do seu Ente, deixa o pêndulo mover-se no Plano Inferior sem mudar a sua Polaridade. Isto é realizado por todas as pessoas que atingiram todos os graus do domínio próprio, quer compreendam a lei quer não. Tais pessoas simplesmente recusam deixar-se mover pelo pêndulo das condições ou emoções, e, afirmando constantemente a sua superioridade, permanecem polarizadas no polo Positivo. O Mestre, por conseguinte, atinge um grau muito grande de progresso, porque compreende a lei que está dominando por uma lei superior, e pelo emprego da sua Vontade alcança um equilíbrio e estabilidade Mental quase impossível de ser acreditado pelos que se deixam mover à direita e à esquerda pelo pêndulo mental das condições e emoções.

Contudo, lembrai-vos sempre que não podeis destruir realmente o Princípio de Ritmo, porque ele é indestrutível, Podeis simplesmente vencer uma lei contrabalançando-a com outra, e assim manter-vos em equilíbrio. As leis do balanço e contrabalanço estão em ação tanto nos planos mentais como nos físicos, e a compreensão destas leis habilita o homem a parecer destruir as leis, quando ele simplesmente exerce um contrabalanço.

"Nada escapa do Princípio de Causa e Eleito, mas existem vários Planos de Causalidade, e pode-se empregar as leis do plano superior para vencer as leis do inferior." - O CAIBALION -.

Pela compreensão das práticas da Polarização, os Hermetistas elevam-se a um plano superior de Causalidade e assim contrabalançam as leis dos planos inferiores de Causalidade. Tornando-se aptos a dominar as suas condições e emoções e a neutralizar o Ritmo, como já explicamos, eles podem escapar de uma grande parte das operações de Causa e Efeito do plano ordinário.

As massas populares são impulsionadas, obedientes aos seus guias, às vontades e desejos dos outros mais fortes que elas, aos efeitos das tendências hereditárias, às sugestões dos que as rodeiam, e a outras coisas exteriores, que tendem a moveIas no tabuleiro de xadrez da vida como simples peões. Elevando-se sobre estas causas influentes, os Hermetistas avançados alcançam um plano elevado de ação mental, e dominando as suas condições, seus impulsos e suas sensações, criam para si novos caracteres, qualidades e poderes, pelos quais dominam os que ordinariamente o rodeiam, e assim tomam-se praticamente jogadores em vez de simples peões. Tais pessoas ajudam inteligentemente a jogar a partida da vida, sem serem movidas no seu caminho e caminhando com mais força e vontade. Empregam o Princípio de Causa e Efeito, sem serem empregados por este. Sem dúvida que ainda as mais elevadas estão sujeitas ao Princípio como ele se manifesta nos planos superiores, mas nos planos inferiores da atividade são Senhores em vez de Escravos. Diz o Caibalion:

"Os Sábios servem no plano superior, mas governam no inferior. Obedecem às leis que vêm de cima deles, mas no seu próprio plano e nos inferiores a eles, governam e dão ordens. E assim fazendo formam uma parte do Princípio, sem se oporem a este. O sábio concorda com a Lei, e compreendendo o seu movimento, ele o opera em vez de ser cego escravo. Do mesmo modo que o hábil nadador volta o seu caminho e jaz este caminho, conforme a sua vontade, sem ser como a barca que é levada para cá e para lá: assim é o sábio em comparação do homem ordinário; e, contudo, o nadador e a barca, o sábio e o ignorante, estão sujeitos à Lei. Aquele que compreende isto está, bem no caminho do Domínio." - O CAIBALION -

Em conclusão, permiti-nos chamar a vossa atenção para o Axioma Hermético:

"A verdadeira Transmutação Hermética é uma Arte Mental." - O CAIBALION -

No axioma acima, os Hermetistas ensinam que a grande obra de influenciar a sua própria roda é realizada pelo Poder Mental. O Universo sendo totalmente mental, é claro que só poderá ser governado pela Mentalidade. E nesta verdade acha-se contida uma explicação dos diversos poderes mentais que estão tomando muita atenção e estudo nestes primeiros anos do Vigésimo Século. Debaixo e atrás do véu das doutrinas dos diversos cultos e escolas, acha-se ainda constantemente o princípio da Substância Mental do Universo. Se o Universo é Mental na sua natureza substancial, segue-se que a Transmutação Mental pode mudar as condições e os fenômenos do Universo. Se o Universo é Mental, a Mente será o poder mais elevado que produz os seus fenômenos. Se compreender isto, tudo o que é chamado milagres e prodígios será considerado pelo que realmente é.

"O TODO é MENTE; o Universo é Mental." - O CAIBALION -

PARTE II · AS SETE LEIS CÓSMICAS

Capítulo I
Introdução

No decorrer de certo trabalho de pesquisa que demorou vários anos para ser concluído, o autor foi convidado a investigar e descrever muitas formas de pensamento e especulação filosóficos que atraíram e chamaram a atenção da mente de indivíduos de todas as idades e nações. Sem dúvida, isso o colocou em estreito contato com tal pensamento, tanto aquele dos tempos mais remotos quanto os do presente imediato; tanto em suas formas exotéricas ou exteriores, mais populares, como em suas formas esotéricas ou interiores, que sempre estão presentes nos antigos sistemas de pensamento filosófico.

No decurso dessa obra, e agora, quando o autor volta os olhos para o passado e se depara com um caminho tão trilhado, ele estava, e ainda está, impressionado pelo importante fato de que, em quase todos esses sistemas de pensamento, ainda está por encontrar ou a declaração expressa ou, pelo menos, a admissão tácita da aceitação tácita de certas leis fundamentais que regem o comportamento das coisas e dos eventos do mundo fenomênico em geral e em particular. Isso é verdade não só no que diz respeito aos sistemas filosóficos de tempos remotos, como os da Índia ou Grécia antiga, e centros semelhantes das culturas do passado, mas até mesmo aos sistemas mais avançados do pensamento filosófico e científico de nossa época e nossos países. A esse respeito, em muitos casos é inquestionável que o pensamento científico do moderno Ocidente serve para corroborar robustamente os preceitos do Oriente.

Essas leis que regem o modus operandi das coisas naturais, tanto psíquicas como físicas, parecem ter sido consideradas no passado, mas também em nossos dias, como evidentes por si mesmas, axiomáticas, sem precisar de argumentos ou provas essenciais, dotadas de validade suficiente por sua própria racionalidade e pelos relatos de experiências inteligentes, em vez de serem meras teorias ou hipóteses especulativas, com reservas mentais. Em outras palavras, elas parecem ter sido aceitas, mesmo no passado distante, como se já estivessem em consonância com as exigências para submeter a testes o critério fundamental de crença e Verdade que, muito tempo depois, seria anunciado por Herbert Spencer em sua célebre afirmação de que “em última análise, devemos aceitar como verdadeira uma proposição cuja negação seja inconcebível”.

Embora as “leis” acima mencionadas sejam encontradas com grande frequência nos vários escritos das diferentes escolas de pensamento filosófico, exotérico e esotérico, oriental e ocidental, antigo e moderno, como já dissemos, o fato é que, até onde nos foi possível constatar, nunca houve empenho semelhante para sistematizar as mesmas coisas na enumeração e classificação formais. Daí decorre o presente empenho em fazê-lo. Deve-se entender, por certo, que o que se faz aqui não é nenhuma tentativa de limitar o número das “leis” em questão àquelas incluídas na presente enumeração – porque é provável que seu número seja muito superior aos que aqui mencionamos. O que se tenta fazer aqui é simplesmente uma classificação das leis mais em evidência nas fontes às quais recorremos; o trabalho de adição fica a cargo de outros. Da mesma maneira, a terminologia, descrição e classificação ficam sujeitas à mudança, aperfeiçoamento e esclarecimento de outros que chamem a si esse trabalho.

Nesta apresentação do tema, depois de um breve exame da questão da Lei Cósmica e das Leis Cósmicas em geral, o autor vai diretamente à questão das Leis Gerais da Manifestação Cósmica – as Sete Leis Cósmicas, como lhe pareceu apropriado chamá-las –, citando as características gerais de cada uma por vez, e ilustrando-as (ainda que, na verdade, abra mão da tentativa de comprovação) por meio de referências e citações dos escritos de alguns filósofos do passado e presente. Contudo, a existência dessas referências e citações não nos deve induzir à crença de que o autor subscreve necessariamente todo o corpus dos preceitos, especulações ou conclusões gerais desses autores tão mencionados ou citados – trata-se de questões muito diferentes, como o leitor poderá ver e compreender.

Por último, não se faz aqui nenhuma tentativa de apresentar qualquer concepção finita da natureza última do Infinito, o Absoluto. Isso pelas razões muito boas apresentadas no capítulo seguinte. Também não se busca aqui nenhuma explicação exata da “razão” da existência do Cosmos em si – o “Porquê” da Manifestação Cósmica. A presente indagação ocupa-se unicamente do aspecto “Como” das atividades cósmicas, e das regras que as regem.

Com a explicação e o entendimento acima apresentados, o autor pede permissão para seguir em frente.

– William Walker Atkinson

Março de 1931

Capítulo II
Lei cósmica e leis cósmicas

“O Universo é regido pela Lei.”

No uso filosófico corrente, o termo “Cosmos” tem o sentido (sense) e o significado (meaning) de “Natureza, ou a universalidade das coisas naturais, concebidas como um sistema existente e desenvolvendo-se nos termos da lei e da ordem”. O termo em si deriva do radical grego indicativo de ordem e harmonia, e tem sido aplicado, num sentido especial, ao mundo natural, uma vez que se considera que esse mundo opera, em combinações metódicas e harmoniosas, como um sistema. Portanto, foi empregado de modo a contrapor-se ao termo contrário, “Caos”, que indicava o conceito de “vazio e disforme; um estado de coisas confuso e desorganizado que não conta com a presença de poder e ordem; a natureza concebida como não submetida a lei ou leis, e na qual a mudança pura tem supremacia”.

A palavra “Natureza”, assim identificada com o Cosmos, é empregada no sentido geral de “A soma total das forças, físicas ou psíquicas, que energizam o mundo manifestado; ou o agregado de acontecimentos físicos e psíquicos e as coisas mutáveis que compõem o Mundo Manifesto; ou as duas coisas em combinação”. John Stuart Hill afirmou que “Em abstrato, a Natureza é o conjunto dos poderes e da proporção de todas as coisas. Natureza significa a soma total de todos os fenômenos, juntamente com as causas que os produzem; inclusive não apenas tudo que acontece, mas também tudo que é capaz de acontecer; as capacidades não usadas das causas são, ao mesmo tempo, uma parte da ideia de Natureza e aquelas que se concretizam”.

No pensamento filosófico, o termo “Lei” é usado no sentido de “Uma regra ou princípio de existência, operação ou mudança, tão incontestável que se deve concebê-la (a) como imanente à natureza essencial ou ao caráter da coisa que opera nos termos de tal regra ou princípio, ou (b) como instância que foi sobreposta a tal natureza ou caráter por alguma autoridade externa superior”. Num sentido ainda mais estrito, o termo “Lei” significa simplesmente “A invariável exata e a regra estabelecida de procedimentos sistemáticos sob os quais alguma coisa opera, comporta-se ou manifesta-se”.

Estando presente e operante na Natureza, o conceito fundamental de Lei encontra-se incorporado no próprio termo “Cosmos”, em contraste com “Caos”, como vimos há pouco. Está expresso ou implícito em todo pensamento filosófico dentro desses parâmetros, o postulado de uma eterna ordem de operação segundo a qual todas as coisas naturais, animadas ou inanimadas, agem e têm sua existência. Um dos aforismos fundamentais do pensamento filosófico, científico e religioso, antigo e moderno, exotérico e esotérico, é que “O Universo é regido pela Lei”. A negação disso é inconcebível. Portanto, estritamente falando, poderíamos considerar que a Lei das Leis, de absoluta abrangência, é simplesmente “O Cosmos é regido pela

Lei”.

A essa Lei Cósmica original e de absoluta abrangência foram atribuídos muitos nomes – dentre os quais, simplesmente “LEI”, ou “A Grande Lei”. Em geral, considera-se que essa Grande Lei é incognoscível em sua essência última; contudo, por meio de seus efeitos é possível percebê-la como uma norma de procedimento universalmente operativa. É a Lei Última do Cosmos; a fonte, origem e procedência de todas as outras leis que existem na Natureza – e há muitas delas. Em algumas das antigas filosofias esotéricas, a palavra “Lei” é sinônimo de Realidade Última; em outras, porém, considera-se que seja um atributo inalienável do Ser Supremo – o Grande Legislador. Contudo, em todas elas a palavra é vista pelo menos como a mais alta manifestação possível do Poder d’AQUILO-QUE-É. Isso posto, é nossa intenção avançar no tema.

Essa Grande Lei opera e manifesta-se por meio de muitas e variadas formas de atividade sistemática, aqui conhecidas como “As Leis Cósmicas”, das quais algumas das mais importantes e gerais constituem o tema da presente reflexão e narrativa. E não há dúvida de que muitas outras existem. Todavia, é preciso compreender positivamente que aqui não se faz nenhuma tentativa de expandir a operação das Leis Cósmicas para além das limitações do Cosmos em si; elas destinam-se apenas a ser consideradas em conexão com o Mundo da Natureza. É evidente que o que considerarmos acima da Natureza também deve ser considerado como transcendente às Leis relativas da Natureza. Todo conceito de uma Realidade Absoluta traz consigo a ideia de Ser absolutamente livre de Leis Condicionantes; essas leis são operativas unicamente nos planos inferiores de existência fenomenal relativa. Que não haja nenhum equívoco acerca disso.

Quanto à presença e operação da Lei Cósmica na Natureza – o Cosmos –, não pode haver nenhuma diferença de opinião: essa é a concepção invariável, inevitável e infalível dos sistemas Filosóficos, Científicos e Religiosos, antigos e modernos, orientais ou ocidentais, exotéricos e esotéricos. Pouco antes do período de escrita do presente texto, os jornais reproduzem palavras do professor Charles P. St. John, o eminente astrofísico, o orador principal no histórico jantar oferecido ao professor Einstein em Pasadena, nas quais ele afirma que mesmo as mais recentes e revolucionárias concepções de Einstein apresentam “uma cosmologia de total abrangência em que tudo se comporta segundo a Lei”. Isso faz eco à antiquíssima declaração de Gautama, o Buda, segundo a qual “O Universo evolui invariavelmente nos termos da Lei”. O Tempo passou, mas, em essência, a Mensagem da LEI permanece a mesma.

Os que aqui procuram por especulações definitivas sobre o Princípio Último – o Infinito, o Absoluto –, que a filosofia em geral postula como elemento presente sob ou acima das Atividades Cósmicas, ficarão decepcionados. Contudo, isso não se deve ao fato de o presente autor estar desinformado sobre a natureza dessas especulações finitas e sua variedade quase infinita; deve-se, antes, ao fato de não fazerem parte da presente indagação e consideração. Neste livro, estamos preocupados unicamente com as atividades e as leis do Cosmos. O que for Extracósmico está além dos limites do campo do presente trabalho. Portanto, seguimos adiante e deixamos que outros tratem dessas questões fundamentais, em suas obras.

Contudo, sentimo-nos no dever de expressar nossa concordância solidária com os mestres Budistas ancestrais, que afirmaram:

“A imaginação, o discernimento e o pensamento abstrato sempre lutarão inutilmente para representar o Infinito Eterno. Porque nenhum poder de finitude (a que pertencem o pensamento e a fala) pode expressar a Infinitude; tampouco pode o pensamento resultante da Cadeia de Causalidade apreender o infundado e o que possui Existência Independente. Portanto, ignoramos toda a frivolidade dessas especulações e polêmicas, e delas não nos ocupamos.” A mesma ideia é expressa no poema “A Luz da Ásia”, de sir Edwin Arnold, em que o Buda é mostrado como autor do trecho abaixo:

“Om Amataya! Não tenteis avaliar o Incomensurável com palavras; Nem afundeis a cadeia do pensamento no Impenetrável. Aquele que pergunta, erra; o que responde, também; calai-vos, portanto. Existirá algum observador capaz de ver com olhos mortais? Ou algum inquiridor que possa ver com a mente mortal?

Véu após véu será desvendado – mas também deverá haver

Véus sobrepostos no caminho já trilhado”.

Uma vez mais, nos vem à lembrança a antiga inscrição nos muros do antigo Templo de Ísis, no Egito:

“Ísis EU SOU; Tudo que é, que Foi e Será: Nenhum homem jamais levantou meu Véu!” E assim, nos damos aqui por satisfeitos ao repetir a magnífica afirmação de H. P. Blavatsky, que postula uma “Realidade Única, Absoluta, que antecede todo ser manifestado e condicionado, que ela afirma ser “Um PRINCÍPIO Onipresente, Eterno, Sem Limites e Imutável, sobre o qual toda especulação é impossível, porque transcende o poder da concepção humana e porque toda expressão ou comparação da mente humana não poderia senão diminui-lo. Está além do horizonte e do alcance do pensamento – ‘inconcebível e inefável’” (A Doutrina Secreta, vol. I).

Capítulo III
As sete leis cósmicas

As Sete Leis Cósmicas, que constituem o tema de nosso presente exame, são apresentadas a seguir. Em cada caso, primeiro há uma afirmação concisa em termos coloquiais; a isso se segue uma afirmação mais formal e definida do mesmo princípio.

I. A LEI CÓSMICA

DE A UNIDADE NA DIVERSIDADE “O Universo é um sistema organizado.” “O cosmos é um sistema organizado de partes conexas e coordenadas que, por meio dessa combinação, formam uma verdadeira unidade.” Incluídos no campo geral dessa lei encontram-se vários princípios subordinados, formulados como se mostra a seguir:

COMPOSIÇÃO “Tudo é constituído de partes.” “Toda e cada coisa no Cosmos é formada por elementos componentes que, em certas combinações específicas, torna cada uma dessas coisas distinta de todas as outras coisas e, desse modo, serve para determinar seu caráter particular.”

CORRELAÇÃO E COORDENAÇÃO “Tudo depende de muitas outras coisas.” “Toda e cada coisa ou acontecimento no Cosmos são conectados e coordenados com todas as outras coisas ou acontecimentos; em tal categoria não há nada absolutamente desconectado.”

DIFERENCIAÇÃO “Não existem duas coisas absolutamente iguais.” “No Cosmos, nenhuma coisa é exatamente igual a qualquer outra. O Cosmos manifesta uma variedade e diversidade infinitas.”

ANALOGIA E CORRESPONDÊNCIA “Assim em cima como embaixo; assim embaixo como em cima.” “Disso decorre que as atividades em qualquer plano particular do Cosmos têm certas analogias e correspondências em qualquer outro plano.”

II. A LEI CÓSMICA DA ATIVIDADE “Tudo está em constante movimento.” “Tudo no Cosmos é Ativo, Movente, Operacional; sempre há algo em operação no Cosmos como um todo, e em toda e cada uma de suas partes componentes, uma Atividade subjacente e que tudo permeia.”

III. A LEI CÓSMICA DA MUDANÇA “Tudo muda; nada é permanente.” “O Cosmos como um todo, e em toda e cada uma de suas partes componentes, manifesta uma Mudança constante; nada, no Cosmos, permanece imutável, até mesmo no decurso da menor unidade de tempo; o tempo, em si, nada mais é que Mudança mensurada.” Incorporado à lei geral de Mudança, encontra-se um princípio subordinado, formulado da seguinte maneira:

CONTINUIDADE OU SEQUÊNCIA ORDENADA “Tudo flui num deslocamento constante.” “A evolução da mudança das coisas no Cosmos manifesta-se em um fluxo contínuo, associado a uma unidade progressiva que nunca deixa de manter sua sequência ordenada.”

IV. A LEI CÓSMICA DA CAUSALIDADE “Tudo acontece como resultado de uma causa.” “Todas as mudanças nas atividades do Cosmos são condicionadas e causadas; elas se manifestam devido a uma causa condicionante; elas continuam a manifestar-se devido a uma causa condicionante; elas deixam de manifestar-se devido a uma causa condicionante.”

V. A LEI CÓSMICA DO RITMO

OU PERIODICIDADE “Tudo se move em ciclos rítmicos.” “Todas as mudanças nas atividades do Cosmos avançam em ritmo calculado, ciclos calculados ou sucessão periódica.” Incluído nessa lei geral, encontra-se um princípio subordinado, formulado como se vê a seguir:

INVOLUÇÃO–EVOLUÇÃO “A involução sempre precede a Evolução.” “Involução e Evolução são os aspectos análogos ou os polos contrastantes de um grande processo: o que evolui como um aspecto subsequente deve ter tido um movimento regressivo prévio no aspecto antecedente.”

VI. A LEI CÓSMICA DA POLARIDADE “Tudo é um de um par de opostos.”

“O Cosmos manifesta o princípio da Polaridade em toda e cada uma de suas partes componentes. Toda e cada uma de suas qualidades manifestas, ou grupos de qualidades, tem seu ‘outro’ polo, ou seu polo oposto; e assim, cada uma dessas teses e antíteses formam um ‘Par de Opostos’. Esse Par de Opostos, porém, constitui apenas os dois polos contrastantes de uma unidade maior em que ambos podem ser sintetizados.”

VII. A LEI CÓSMICA DO EQUILÍBRIO

OU COMPENSAÇÃO “Todas as coisas são equilibradas.” “Todas as atividades do Cosmos são equilibradas e compensadas, e manifestam uma condição de contrapeso, equilíbrio e contraponto.”

Contudo, as Sete Leis Cósmicas não devem ser vistas como absolutamente independentes entre si. Ao contrário, elas são mais ou menos interdependentes e inter-relacionadas, motivo pelo qual servem para se reforçar e manter umas às outras. Na fraseologia moderna, elas são mais ou menos “interconectadas”, e agem de diferentes maneiras e graus de coordenação. Contudo, há uma unidade essencial entre elas, e cada uma tende mais ou menos a explicar as atividades das outras: é isso que verá ao longo do exame de suas respectivas características. Além disso, a classificação exata aqui observada não é definitiva; é adotada e seguida unicamente por uma questão de conveniência, e está sujeita a reordenações e aperfeiçoamentos, desde que estes sejam considerados aconselháveis. Por último, o principal consiste em lembrar que cada uma dessas leis representa simplesmente algum aspecto ou manifestação particular da Única LEI Cósmica – a Grande LEI do Cosmos – cuja presença e operação dão ao Cosmos seu nome e seu significado essencial.

Capítulo IV
A lei cósmica da unidade na diversidade

“O Universo é um sistema organizado.”

A primeira lei do Cosmos é a Lei da Unidade na Diversidade, que pode ser formulada da seguinte maneira:

“O Cosmos é um sistema organizado de partes correlatas e coordenadas que, em tal combinação, formam uma verdadeira unidade.” Em linguagem filosófica, um “sistema” é definido como “Um conjunto de objetos ordenados ou existentes num contexto de subordinação, dependência e conexão regulares; considera-se também que configura um todo ou uma unidade completa”. A palavra “organizado” significa “ordenado ou constituído de partes interdependentes, cada qual com uma função especial no que diz respeito ao todo”.

O fato de o Cosmos ser visto como um sistema organizado está implícito no significado mesmo do termo “Cosmos”, aplicado ao conceito de “natureza, ou da universalidade das coisas naturais, consideradas como um sistema existente que avança sob os ditames da lei e da ordem”. O universo das coisas e atividades naturais chegou até mesmo a ser considerado como um verdadeiro sistema; todo o pensamento filosófico e científico moderno está em consonância com esse postulado da Unidade na Diversidade. De fato, todo raciocínio científico verdadeiro tem por base essa concepção fundamental, e seria impossível na ausência dela. As doutrinas esotéricas do Oriente sempre se mantiveram fiéis a essa verdade, como se pode inferir de uma afirmação de H. P. Blavatsky, a mais abrangente divulgadora desses preceitos, para quem “A primeira lei da Natureza é a uniformidade na diversidade” (A Doutrina Secreta, vol. II).

O professor B. P. Bowne, em um de seus vários livros, diz: “O fato de as coisas formarem um Sistema, e de esse Sistema ser uno, é a mais profunda convicção da inteligência reflexiva, e constitui o supremo pressuposto do conhecimento organizado. Dentro desse sistema, todas as coisas são determinadas em relações mútuas, de modo que cada coisa está onde está e é o que é por conta de sua relação com o todo.

Esta é uma afirmação precisa do moderno pensamento científico-filosófico sobre o tema. O reconhecimento do predomínio universal da Correlação e Coordenação entre as coisas naturais torna essa conclusão inevitável. Até as informações mais recentes sobre os cálculos de Einstein a respeito do “campo unificado” do Cosmos, de um ponto de vista puramente matemático, são consideradas de pleno acordo como esse conceito geral da Unidade na Diversidade.

O consenso do moderno pensamento científico e filosófico sobre essa questão específica é habilmente formulado nas palavras de Nicholas Murray Butler, presidente da Universidade Columbia, uma das maiores autoridades no assunto. O professor Murray diz:

“A mente agora percebe que tudo está em relação com todas as outras coisas, e que as relações são de enorme importância – na verdade, percebe que elas estão no controle. O olmeiro, longe de ser uma unidade simples e única, é hoje reconhecido como uma forma orgânica de ser, uma congérie de células, de átomos de carbono, de oxigênio, de hidrogênio, nenhum dos quais pode ser visto pelo olho humano sem o uso dos mais sofisticados instrumentos, muito menos pela mente humana, totalmente despreparada para tanto. Uma maçã que cai não mais sugere simplesmente a satisfação de um apetite; sua queda ilustra as leis que ligam o universo numa unidade coerente [...]. Agora se percebe que nenhum objeto é independente. Eles são dependentes entre si, e dependência e relatividade constituem o princípio controlador do universo. Sob a orientação de Newton, reforçada pelas descobertas de um Helmholtz e um Kelvin, essa etapa ou ordenação do conhecimento agora chega a ponto de afirmar que dependência e relatividade são coisas tão absolutas que, ainda que o mais insignificante dos objetos fosse perturbado em posição ou alterado em sua massa, a borda mais externa do universo material seria afetada por esses processos; e também em termos de mensuração, caso nossos instrumentos dessem conta desse trabalho” (Philosophy, de Nicholas Murray Butler. The Columbia University Press, Nova York).

Em nosso exame dessa Lei Cósmica fundamental, achamos por bem fracionar e separar o tema geral em várias subdivisões especiais. Daí decorrem os vários subtítulos importantes que virão a seguir.

COMPOSIÇÃO

“TUDO É CONSTITUÍDO DE PARTES” Essa afirmação geral do princípio da Composição, que gera um importante aspecto da Lei Cósmica da Unidade na Diversidade, é enunciada no parágrafo seguinte:

“Toda e cada coisa no Cosmos é formada por elementos componentes que, em certas combinações particulares, faz de cada uma dessas coisas exatamente o que ela é, tornando-a diferente de todas as demais, e, assim, serve para determinar sua natureza particular.”

Aqui, o termo “componente” significa “que serve para ou ajuda a formar; que compõe; que constitui; constituinte etc.”. O termo “elemento”, como aqui o empregamos, significa “uma das partes essenciais ou princípios fundamentais que constituem qualquer coisa, ou sobre os quais seu caráter, sua constituição ou individualidade se baseia”.

O postulado do princípio da Composição aparece em muitos dos mais antigos preceitos filosóficos, tanto exotéricos como esotéricos, o que é particularmente verdadeiro no caso dos sistemas filosóficos da Grécia e Índia antigas. Isso foi enfatizado pela importância atribuída aos infinitos debates sobre a relação existente entre as “substâncias” hipotéticas das coisas e seus atributos, tidos como “inerentes” a elas. Essas discussões foram igualmente manifestas nas filosofias do mundo ocidental em períodos posteriores, chegando mesmo a persistir em alguns círculos atuais.

Em especial, o tema da Composição era considerado e ensinado na primitiva filosofia Budista. No pensamento Budista, porém, o tema de “substâncias” hipotéticas com “atributos intrínsecos” era tacitamente ignorado ou categoricamente negado. Para os Budistas em geral, a Composição em si era vista como a explicação suficiente do “caráter” de todas as coisas com características de fenômeno – considerava-se que esse “caráter” fosse unicamente uma síntese do componente físico e das qualidades mentais das coisas em questão. No Ocidente, a concepção científico-filosófica moderna segue muito de perto a tendência assim estabelecida pelos antigos Budistas, como veremos mais adiante.

A essência do pensamento Budista característico sobre esse assunto pode ser inferida com base nas seguintes referências a esse respeito, e nas citações de escritores sobre o tema. Por exemplo, a citação de um verbete enciclopédico sobre o Budismo, de autoria de T. W. Rhys Davids, que afirma a concepção Budista das Qualidades Componentes, como vemos a seguir:

“Mesmo na classe inferior das coisas encontramos, em cada indivíduo, forma e qualidades materiais (Skandhas). Em sua classe superior, há também uma contínua série ascendente de qualidades mentais (Skandhas). O que forma o indivíduo é a união dessas qualidades. Portanto, cada pessoa, coisa ou divindade é um agregado, um composto; e, em cada um desses indivíduos, sem nenhuma exceção, a relação de suas partes componentes está em permanente mudança e nunca é a mesma coisa por dois momentos consecutivos. Segue-se daí que tão logo a separação e a individualidade têm início, também começa a dissolução e a desintegração. Não pode haver nenhuma individualidade sem um conjunto: não pode haver nenhum conjunto sem um ‘tornar-se’; não pode haver nenhum ‘tornar-se’ sem um ‘diferenciar-se’; e não pode haver nenhum ‘diferenciar-se’ sem uma dissolução, um aniquilamento que, mais cedo ou mais tarde, será inevitavelmente completo” (Encyclopedia Britannica, verbete sobre Budismo).

De acordo com essa classificação Budista, o homem, a mente, o corpo e até o que é chamado de alma pessoal, nada mais são além de “grupos de atributos”, ou Skandhas – efêmeros, fugazes e destinados a desaparecer com o tempo. Contudo, para evitar mal-entendidos a esse respeito, convém notar que a escola Mahayana de Budismo (assim como a forma mais elevada de Bramanismo) postula a presença de alguma coisa superior – uma “centelha da

Chama Divina” – que não é corpo nem mente, nem mesmo alma pessoal, mas puro Espírito, que não é um Skandha. Essa centelha do Infinito é considerada imutável, eterna e indivisível – nessa filosofia, é o Verdadeiro Eu transcendente. Apesar de extremamente importante, essa distinção não faz parte da presente abordagem, e só a mencionamos aqui para evitar mal- entendidos. Os Skandhas, ou “agregados de atributos”, só se ligam às formas fenomênicas, e não àquilo que necessariamente as transcende.

Além disso, o Budismo sustenta que a diferença no caráter das coisas naturais, ou das pessoas, não depende apenas do caráter de seus elementos componentes: há que levar em consideração a combinação ou o ordenamento desses fatores componentes na constituição das coisas ou pessoas em questão. Não só o que é incorporado dessa maneira, mas também como se dá esse processo na composição. Essa última fase do pensamento Budista sobre o assunto é plenamente sustentada pelos preceitos científico-filosóficos modernos. Por exemplo, o que veremos a seguir:

Dos menos de cem elementos químicos reconhecidos pela ciência moderna, pode derivar – e realmente deriva – um vasto número de tipos particulares de coisas materiais. Isso é possibilitado pelo número quase infinito de combinações ou ordenamentos dos átomos desses respectivos elementos. E esses próprios átomos são produzidos pelas inúmeras combinações e ordenamentos de apenas dois tipos de elétrons: a grande variedade das formas e elementos distintos de matéria, resultantes, portanto, dessas combinações e associações eletrônicas.

Assim também, a partir de um número comparativamente limitado de capacidades mentais básicas, produz-se e manifesta-se uma possível e quase ilimitada variedade de estados e formas mentais. Como nunca há duas coisas ou pessoas exatamente iguais em nenhuma particularidade, segue-se que a combinação e o ordenamento específico de seus respectivos elementos componentes desempenham um importante papel na determinação dos respectivos caracteres. A partir de um número relativamente menor desses fatores, muitos desses ordenamentos ou combinações são possíveis – praticamente uma possibilidade infinita está presente na natureza, como afirma o pensamento moderno sobre o assunto.

Uma das favoritas dentre as ilustrações Budistas da Lei da Composição era aquela de uma carruagem e suas várias partes – rodas, carroceria, barras estabilizadoras etc., ordenadas segundo uma combinação específica. Se essas partes agregadas fossem removidas, diziam, não haveria mais nenhuma “carruagem em si”. Por outro lado, por si sós essas partes removidas e separadas não constituem uma carruagem; só quando são unidas em uma combinação particular é que se tornam uma carruagem. Se essas partes em uma combinação particular estiverem ausentes, não restaria nada além da palavra “carruagem”.

Da mesma maneira, para ilustrar esse ensinamento os Budistas faziam alusão ao rio. Eles ensinavam que um rio é realmente uma combinação de suas partes componentes, a saber, o leito, a margem, a água etc. Eliminando-se tudo isso, não restará nada além da palavra “rio”. Eles também poderiam pegar um bulbo semelhante à cebola; submeteriam-no ao processo de descascá-lo ou remover suas sucessivas camadas de películas, só para descobrir que, no fim, não sobraria nada além da palavra “cebola” (e, possivelmente, seu odor – sendo este, sem dúvida, também um verdadeiro elemento componente). Esses exemplos poderiam não ter fim, com a característica de que o princípio fundamental permaneceria o mesmo.

Em nosso moderno pensamento ocidental sobre o assunto, seguimos praticamente a mesma linha de raciocínio. Conhecemos, e podemos conhecer, qualquer coisa natural somente por meio de um conhecimento de suas qualidades que, em combinação, constituem o caráter particular e respectivo de tal coisa – em suma, suas características. Cada uma dessas coisas pode ser decomposta em suas características componentes; e então, novamente sintetizadas na totalidade dessas características. É impossível definir corretamente qualquer objeto natural, a não ser mediante uma referência a seus elementos componentes; colocando-os de lado, não resta nada que possa ser apreendido pela mente.

Na concepção moderna predominante consideramos que, para afirmar e sustentar a natureza de uma coisa natural dada, é preciso enumerar a lista total de seus elementos ou qualidades componentes, pelo menos na medida em que deles tenhamos conhecimento. A verdadeira coisa em questão, e sobre a qual se faz essa tentativa de afirmação, é praticamente considerada como a totalidade de suas qualidades componentes previsíveis, conhecidas e desconhecidas. Algumas dessas qualidades, porém, só se manifestaram no passado, e outras só existem hoje em estado de latência com a possibilidade de manifestação no futuro; de modo que essa totalidade de qualidades previsíveis se manifeste, a qualquer momento dado, não como um todo, mas apenas em parte. Por conseguinte, essa síntese completa das qualidades naturais de uma coisa natural, do ponto de vista moderno predominante, é vista como a verdadeira “substância” dessa coisa específica. (Aqui, porém, é preciso lembrar que “qualidades”, psíquicas ou mentais, não são coisas ou entidades estáticas, mas, ao contrário – como tudo o mais no mundo dos fenômenos –, são atividades, ou formas de atividade.)

Consequentemente, segundo essa concepção uma “substância” particular não é mais uma “alguma coisa” por trás de seus atributos “inerentes”; trata-se, ao contrário, da forma sintetizada de ser da qual certos atributos componentes são previsíveis. Em resumo, esta é a concepção científico-filosófica moderna da Unidade na Diversidade manifesta no “caráter” de uma coisa natural. Contudo, independentemente das especulações acerca de “substâncias” hipotéticas, é axiomático que o “caráter” das coisas naturais é determinado pela presença e pelo poder de suas respectivas qualidades em combinações específicas e relações mútuas. A negação de tal fato é inconcebível à concepção do pensamento moderno.

CORRELAÇÃO E COORDENAÇÃO

“TUDO DEPENDE DE MUITAS OUTRAS COISAS” O princípio geral da Correlação, que constitui um aspecto importante da Lei Cósmica da Unidade na Diversidade, pode ser enunciado da seguinte maneira:

“Toda e cada coisa ou acontecimento no Cosmos é correlacionado e coordenado com toda e cada outra coisa ou acontecimento de natureza semelhante; não há absolutamente nada de desconexo nessa categoria.”

O pensamento bem fundamentado resultará inevitavelmente na informação de que não existe nada de absoluto nos objetos que aparecem no sistema de coisas fundamentais que compõem o Cosmos; e que, pelo contrário, tudo que aí aparece é relativo. Todo pensamento filosófico, antigo e moderno, sustenta esse ponto de vista. Como disse bem o professor Butler (já citado aqui): “Tudo ilustra as leis que ligam o universo em uma unidade coesa. Hoje temos consciência de que nenhum objeto é independente. Cada um depende de outro e, relativamente, a dependência é o fato controlador do universo manifestado”. E há também outro que afirma: “A separação nada mais é que um mito operacional do universo”.

A Filosofia insiste em que somente a partir de um Princípio Último do Ser é possível postular a absolutidade; e que só pode haver um Absoluto ou uma Absolutidade. Tudo o mais é, e deve ser, relativo e condicionado, além de partes componentes de um sistema inter-relacionado de coisas. Essa é a narrativa de toda razão filosoficamente empregada. O fato de tal Absoluto ou Absolutidade – o Princípio Último do Ser – estar realmente presente e operacional, e ser necessário para explicar o Cosmos em si, constitui o postulado básico ou, pelo menos, o pressuposto tácito da maioria das escolas de pensamento filosófico. Na Filosofia do Absoluto de Herbert Spencer, por exemplo, esse postulado é fortemente enfatizado como uma instância verdadeiramente necessária do ponto de vista lógico.

Em nossa opinião, do que foi dito até aqui entende-se que todos os acontecimentos Cósmicos devem ser vistos como relativos; na verdade, estão incluídos no enunciado geral relativo à Correlação. Todo e cada acontecimento está conectado a outros de sua espécie e classe. Disso também decorre que cada declaração de um fato sobre uma coisa relativa é, e deve ser, simplesmente “relativa” ou “comparativa”, e não absoluta. Por exemplo, não existe “Calor” ou “Frio” absolutos – nada além de graus relativos e comparativos de temperatura. O mesmo se pode dizer da Cor, da Beleza, da Felicidade e da Riqueza – na verdade, de cada uma das características de qualquer coisa no Cosmos. Convém ter isso em mente em nossas reflexões.

Não é apenas sozinhas que todas as coisas que compõem o Cosmos são “Correlatas”: é igualmente verdadeiro que todas as suas atividades são “Coordenadas”. A palavra “Coordenação” significa “O estado de ser coordenado, isto é, de existir em condição, movimento e ação comuns, situação em que as coisas separadas se combinam, correlacionam e desfrutam de existência e atividade mútuas e recíprocas”. As atividades Cósmicas são consideradas como positivamente coordenadas pelo pensamento filosófico e científico. Caso contrário, não existiria nenhum Cosmos, isto é, a universalidade das coisas naturais evoluindo sob a lei e a ordem; do contrário, existiria então apenas uma agregação “atabalhoada”, “a esmo” e “por mero acaso” de atividades desvinculadas e descoordenadas.

DIFERENCIAÇÃO

“NÃO EXISTEM DUAS COISAS

EXATAMENTE IGUAIS” Como observará, a enunciação da Lei Cósmica da Unidade na Diversidade declara que os elementos correlatos e coordenados do sistema Cósmico também são “Diferenciados”. O termo “Diferenciado” aplica-se aqui ao “estado ou condição de ser distinto, diferente ou dessemelhante de outras coisas”.

Em nossa afirmação sobre o princípio da Composição, verá que essa diferenciação resulta, em grande parte, da combinação particular e da inter- relação dos elementos que compõem e organizam a coisa individual em questão, e isso serve para determinar seu caráter no que este se distingue e diferencia de todas as outras coisas individuais.

Aqui, porém, queremos chamar sua atenção para o fato de que essa diferenciação e variação entre coisas é muito mais radical do que geralmente se imagina – de fato, há uma capacidade praticamente infinita para a Diferenciação e a Variação no Cosmos. O princípio pode ser formulado da seguinte maneira:

“No Cosmos não existe nada exatamente igual a outra coisa. O Cosmos manifesta variedade e diversidade infinitas.” Na infinitude prática das formas naturais – por exemplo, nas folhas da relva, nos grãos de areia, nas criaturas vivas de todos os tipos e, na verdade, em todas as formas das coisas naturais, nunca se encontrarão duas formas que sejam precisa e absolutamente semelhantes e idênticas. Existem, sem dúvida, muitos graus de semelhança e conformidade, mas nunca uma similaridade absoluta de caráter ou forma. Na Evolução, a Variação é um importante fator e elemento. O progresso evolucionário é sempre acompanhado pela Variação – às vezes muito acentuada, outras vezes quase imperceptível, mas sempre Variação.

Por alguma razão, a Natureza parece empenhar-se poderosa e constantemente pela Variação. Por exemplo, é evidente que ela tem esse objetivo em vista na aparência e evolução dos sexos. Ao assegurar a existência de dois sexos, e não apenas um, mediante o acasalamento de pais e mães, a Natureza estimula a variação. A Natureza desaprova a consanguinidade muito próxima de animais e a autofecundação de plantas, sendo muito comum que tome precauções bastante complexas contra esta última. Ela também tende a eliminar a descendência resultante da miscigenação decorrente da reprodução cruzada demasiado próxima, tanto de indivíduos quanto de raças; ela estimula a mistura de diferentes linhagens de muitas maneiras distintas.

É evidente que os processos de produzir e manter a Variação fazem parte do sistema Cósmico de leis. Isso não é, nem pode ser, o resultado de mero Acaso – uma vez que tal coisa não existe. A Natureza tem uma infinitude de materiais com que trabalhar; uma infinitude de tipos possíveis, que lhe permitem criar formas e com os quais pode produzir variações: consequentemente, uma infinitude de formas naturais manifestas. Nunca espere encontrar duas coisas absolutamente semelhantes, idênticas em todas as características, mesmo na infinitude – pois elas jamais serão encontradas.

Essa é a narrativa da filosofia e da ciência modernas. E essa narrativa é plena de conformidade com os antigos preceitos esotéricos, conforme o afirma H. P. Blavatsky na citação a seguir: “A Natureza, enquanto potência criativa, é infinita; e nenhuma geração de cientistas dedicados à física poderá jamais vangloriar-se de ter exaurido a lista de seus sistemas e métodos, por mais uniformes que sejam as leis subjacentes a seus procedimentos” (A Doutrina Secreta, vol. II).

ANALOGIA OU CORRESPONDÊNCIA

“ASSIM EM CIMA COMO EMBAIXO; ASSIM

EMBAIXO COMO EM CIMA” A Lei Cósmica da Unidade na Diversidade sustenta que um princípio de analogia ou correspondência opera entre os diferentes campos ou planos de existência e atividades do Cosmos.

Esse princípio da Analogia ou Correspondência (às vezes tratado como uma lei em si mesma) pode ser formulado da seguinte maneira:

“As atividades em qualquer plano específico do Cosmos têm suas determinadas analogias e correspondências em cada outro desses planos.” A ciência física ocidental sempre teve consciência desse princípio, mas seus seguidores empregaram-no com muita cautela, devido à possibilidade de erro em sua aplicação equivocada e confusa. Não obstante, algumas das mais brilhantes descobertas da ciência moderna foram feitas mediante uma aplicação de seus princípios gerais, interpretados com inteligência. Em particular no mundo da química e da astronomia, respectivamente, isso é verdadeiro. Em matemática, a aplicação foi bem-sucedida em muitos casos. Graças a esse princípio, o homem tem conseguido raciocinar corretamente do Conhecido para o Desconhecido, na filosofia e na ciência. O poeta nos informa genuinamente que, se soubermos tudo sobre a florzinha na parede cheia de fendas e rachaduras, também saberíamos tudo sobre todas as coisas existentes no universo.

Porém, como a ciência moderna reconhece apenas alguns planos de atividade, ela deixa de aplicar esse princípio a seus plenos poderes. Para os adeptos e praticantes do esoterismo ou ocultismo, há uma maior aplicação possível. Na tradição esotérica, há um reconhecimento da existência de sete estados da matéria; sete planos de existência; sete planos ou campos de consciência. Por conseguinte, um número tão maior de planos sobre os quais esse princípio opera, e sobre os quais os acima referidos adeptos podem aplicá-lo em pensamento e investigação. Portanto, segundo as altas autoridades do esoterismo e do ocultismo, estamos justificados ao raciocinarmos, por Analogia e Correspondência, desde as atividades de um plano específico de atividades Cósmicas até aquelas de todos os outros planos da existência. Essas atividades, admitem eles, variam quase infinitamente em suas manifestações particulares sobre os diferentes planos da Natureza; alegam, porém, que os princípios essenciais daquelas circunstâncias ou fontes continuam praticamente idênticos.

Esse princípio foi enunciado por muitos aforismos e adágios na história da filosofia esotérica, como, por exemplo, o famoso aforismo Hermetista “Assim em cima como embaixo; assim embaixo, como em cima”; assim como no microcosmo, também no macrocosmo” etc. etc. Da mesma maneira, no antigo adágio latino “Ex Uno, Disce Omnes” – “Por Um se Conhecem os Outros” . Um autor ocultista afirmou: “Esse princípio universal permitiu que o homem removesse os obstáculos que nos impede de ver o desconhecido. Seu uso chegou mesmo a rasgar um pedaço do Véu de Ísis, o suficiente para revelar uma parte do rosto da própria deusa. O estudo da Mônada permite que se conheça o Arcanjo”.

Dirigindo-se às escolas de ocultismo e esoterismo em geral, H. P. Blavatsky diz: “A segunda lei da Natureza é a Analogia” (A Doutrina Secreta, vol. II). E novamente: “A Analogia é a lei dominante na Natureza, o único e verdadeiro fio de Ariadne que pode nos conduzir, pelos caminhos inextricáveis de seu domínio, até seus mistérios primitivos e derradeiros” (Ibid., vol. II). Na verdade, porém, a mesma autoridade nos adverte que: “Na Ciência Oculta, essa (Analogia) é a primeira e mais importante chave da física Cósmica; mas é preciso estudá-la em seus mínimos detalhes, e ‘analisá-la sete vezes’ antes de conseguir entendê-la. A filosofia Oculta é a única ciência capaz de ensiná-la” (Ibid., vol. I).

Por último, Evelyn Underhill, uma escritora de autoridade irrefutável sobre o tema do Misticismo, afirma: “Segundo Éliphas Lévi, ‘A Analogia é a chave de todos os segredos da Natureza’ [...]. O argumento fundamentado na

Analogia é levado pelos ocultistas a profundidades que dificilmente poderíamos expor neste espaço. Armados com seu archote, eles exploram os mistérios mais sombrios e terríveis da vida, e não hesitam em lançar as sombras grotescas desses mistérios sobre o mundo invisível. O Princípio da Correspondência é sem dúvida profundo, na medida em que funcione dentro de limites. Esse princípio foi admitido no sistema da Cabala, ainda que esse ardiloso sistema estivesse longe de atribuir-lhe a importância que tem na ciência hermética [...]. Boehme e Swedenborg tiraram bons proveitos desse método ao apresentarem suas intuições ao mundo. O sistema também é implicitamente reconhecido por pensadores de um grande número de outras escolas: sua influência permeia os melhores períodos da literatura [...]. Diz Hazlitt, em seu artigo ‘English Novelists’: ‘A percepção intuitiva das analogias ocultas das coisas, ou, como podemos chamá-la, seu instinto da imaginação, talvez seja o que manifesta o caráter do gênio nas produções artísticas, mais que quaisquer outras circunstâncias’” (Mysticism, pp. 192-

93).

Todavia, para concluir, lembraríamos ao leitor que, nas palavras de James Ward: “A Analogia, do modo como a conhecemos, é uma boa serva, mas uma mestra inepta; pois, quando mestra, atua mais no sentido de cegar do que, anteriormente, havia se empenhado em iluminar”. Para conseguir aplicar a Analogia e a Correspondência com eficiência e segurança, é preciso ter um histórico de entendimento e inteligência. Não se trata de uma brincadeira inocente.

Capítulo V
A lei cósmica da atividade

“Tudo está em movimento constante.”

A segunda lei do Cosmos é a Lei da Atividade, que pode ser formulada da seguinte maneira:

“Tudo no Cosmos é Ativo, Movente, Funcional; uma Atividade subjacente e generalizada no Cosmos como um todo, e em toda e cada uma de suas partes componentes.” A presença e a operação universal da Atividade, do Movimento e do Trabalho na infinitude de todo o Cosmos são anunciadas em muitas das mais antigas escolas do pensamento filosófico, sobretudo naquelas de tipo esotérico. Desde o início, os pensadores filosóficos parecem ter percebido esse grande princípio, mesmo quando o registro de seus sentidos não conseguia dar-lhe sustentação em todos os casos. É evidente que eles se deram conta da verdade do princípio por intuição, e também que aplicaram a Lei de Analogia ao assunto em questão. Seja como for, eles claramente a perceberam e a incorporaram em seu pensamento fundamental e seus preceitos.

Sem dúvida, eles não demoraram a observar a atividade física e psíquica manifestada no desenvolvimento da vida na fauna e na flora; essa atividade, porém, estava longe de ser evidente no caso dos objetos inorgânicos; na verdade, nesses casos a inferência natural teria indicado principalmente o contrário. Eles observaram a atividade geral manifestada pelos grandes objetos da Natureza, mas esse fato estava muito distante da concepção de que todas as coisas manifestavam atividade, sendo isso verdadeiro tanto para as menores coisas como para as maiores, para as coisas aparentemente mais inertes e aquelas em que a atividade era mais aparente. Ainda assim, a crença filosófica geral na atividade universal das coisas persistiu, e hoje a ciência moderna a corrobora e consolida.

Hoje, até mesmo a mais ortodoxa das tendências filosóficas e científicas pensa e ensina o Cosmos e suas operações em termos de atividade dinâmica, e não de existência estática. Em todas as vertentes da filosofia e da ciência modernas, podemos notar a ênfase especial que se faz incidir sobre Energia, Atividade e Trabalho, em relação ao Cosmos como um todo e em todas as suas partes e objetos componentes, e sobre todos os seus múltiplos planos e campos de operação. Há um forte impulso em direção do Energismo; uma tendência facilmente percebida pelo bom observador.

A escola filosófica e científica do Energismo chega, inclusive, a postular a Energia como a essência mesma da manifestação do mundo dos fenômenos, e como explicação suficiente de todos os fenômenos naturais. As escolas mais conservadoras e estritamente científicas se dão por satisfeitas em postular um universo movido pelas energias da Natureza, tanto físicas como psíquicas, em contraste com um mundo físico concebido como um agregado de substâncias passivas e inertes. Pode-se dizer que cada concepção científica moderna postula um universo ativo, movente e operacional, ao contrário do que postula a teoria oposta sobre o mesmo tema. Hoje, a concepção dinâmica do universo ocupa uma posição de vanguarda; ela ocupou o trono anteriormente ocupado pela concepção mais ou menos estática. E parece que essa recém-chegada veio para ficar, pelo menos por muito tempo.

Para a confirmação das afirmações acima, basta ler qualquer dos atuais livros de Física – até mesmo os mais elementares. As ilustrações sobre o assunto são de uma abundância quase onipresente. A título de prova, uma delas consiste em deparar-se com o emaranhado de detalhes do tipo, o que já é suficiente para dificultar a tarefa de seleção. Na verdade, está tão consolidada a ideia de atividade universal no pensamento filosófico e científico contemporâneo que é comum encontrarmos referências à teoria geral de que “Todo ser é Atividade, o que é verdadeiro tanto acerca do ser físico quanto do psíquico”.

Em certas formas de ensinamento metafísico moderno o termo “atualidade” é usado como sinônimo de “atividade”. Repetindo, o aforismo de “Atualidade”, que afirma que “Toda existência é ativa, não inerte ou morta; a natureza essencial da existência do mundo dos fenômenos é ser encontrada em suas atividades”.

E, por último, encontramos a crescente aceitação da ideia expressa no postulado de Wilhelm Maximilian Wundt, segundo o qual “O universo mecânico é o envoltório exterior por trás do qual oculta-se uma atividade criativa espiritual”. Na psicologia moderna, em geral se aceita a ideia de que a consciência é sempre acompanhada pela atividade, e os termos “atividade mental”, “atividade intelectual”, “atividade volitiva” etc. são de uso corrente.

O pensamento filosófico e científico moderno ensina que o universo como um todo, e em cada plano de sua existência, distingue-se por atividade, movimento, trabalho. Portanto, temos atividade mental, a atividade da consciência, as atividades da vida, as atividades de assimilação, desenvolvimento, dissolução, desintegração etc., as atividades das células e órgãos vivos, as atividades da fauna e da flora, as atividades químicas, as atividades atômicas, as atividades eletrônicas e, em resumo, todas as formas de função ou operação que envolvem mudança, desenvolvimento e interação.

A Ciência Moderna defende o postulado de que, em grande parte, o mundo dos fenômenos da Natureza depende da Vibração para suas formas multivariadas e a inconstância de seus acontecimentos. A vibração dos elétrons, as unidades da matéria física, dá origem aos átomos; as vibrações dos átomos dão origem às moléculas das quais as formas materiais se compõem. O índice de vibração é a escala de mensuração da natureza e do caráter físico de todos os objetos materiais, afirma a ciência moderna; por exemplo, ela sustenta que o calor, a luz, a eletricidade etc., manifestam-se como uma energia vibratória de graus variados de intensidade, a qual determina o caráter particular dessa energia. Em suma, a ciência moderna sustenta que a diferença observável entre as coisas naturais depende, em grande parte, da diversidade de seus índices de vibração, colocando-se, assim, em consonância prática com os preceitos esotéricos de muitas filosofias antigas – ainda que, no segundo caso, diferentes termos e hipóteses tenham sido empregados para descrever e explicar a operação dessa lei.

Segundo um antigo aforismo ocultista: “Aquele que compreende o Segredo da Vibração terá apreendido o Segredo do Poder”. Um antigo adágio Hermetista sustenta que: “Nada está em repouso; tudo se movimenta; tudo vibra”. O adágio em questão serve para pôr em relevo um antigo ensinamento Hermetista segundo o qual há certas vibrações de tamanho grau de intensidade que, a nossos sentidos limitados, parecem ser absolutamente imóveis. Desse ponto de vista, portanto, o estado de máximo Repouso é realmente o que há de mais alto em termos de Atividade, Trabalho e Movimento.

Além disso, nos antigos preceitos filosóficos dos Hindus (tanto os

Brâmanes como os Budistas), no Cosmos o status de Pralaya, ou repouso, é considerado como um campo de atividade realmente sutil e oculto – um fluxo subterrâneo da passagem do movimento, por assim dizer. Esse fato pode ser corroborado por uma afirmação de H. P. Blavatsky, em que ela afirma: “Com absoluta certeza, é correto dizer que em Pralaya também se encontra o ‘Grande Sopro’; pois o ‘Grande Sopro’ é incessante e, por assim dizer, constitui o perpetuum mobile (eterno movimento) [...]. Há um magnífico poema em Pralaya, escrito por um antigo Rishi, que compara o movimento do Grande Sopro durante o Pralaya aos movimentos rítmicos do Oceano Inconsciente [...]. Durante o Pralaya, porém, todas as coisas diferenciadas, como toda unidade, desaparecem do universo dos fenômenos e são misturadas com – ou, antes, transferidas para – o Um numenal” (Translations of the Blavatsky Lodge, vol. I).

Do ponto de vista da ciência moderna, considera-se que até a mais sólida e densa substância física seja, de fato, um cenário da mais intensa atividade. Em todos os casos do tipo, o objeto físico não é sólido nem totalmente imóvel ou em estado de repouso; na verdade, consiste de inumeráveis partículas infinitesimais (elétrons), rodopiando, dançando e girando ao redor do núcleo atômico, como uma tempestade de neve ou um enxame de abelhas em movimento. Ou, seguindo-as mais de perto, até mesmo essas partículas infinitesimais se desfazem em “centros ondulatórios de força ou energia”, segundo o pensamento científico moderno. A matéria desintegra-se em forma de Movimento, diz a ciência moderna; contudo, a atividade não pode ser reduzida a Não Atividade, nem mesmo no menor limite provável, como nenhuma vertente científica moderna admite.

Como já foi afirmado aqui, no nascimento, crescimento e desenvolvimento das formas orgânicas e inorgânicas dos objetos naturais, embora a atividade esteja em evidência constante, isso não é mais verdadeiro do que no caso dos processos de morte, decadência, dissolução e desintegração das formas naturais, orgânicas e inorgânicas, em todas as quais há atividade, trabalho e movimento envolvidos. Tanto a Desintegração como a Integração resultam da Atividade; construir e destruir são processos realizados pelo Trabalho, e este é Atividade com outra denominação.

Por fim, no campo psíquico ou mental, tão verdadeiramente quanto no campo do físico e material, na Natureza, encontra-se sempre presente e operante aquilo que a ciência e a filosofia chamam de “processo”, que só resulta da atividade.

De outro ponto de vista – ainda que não dessemelhante –, eis o que H. P. Blavatsky diz: “Na verdade, não há nada de absolutamente imóvel no universo” (A Doutrina Secreta, vol. I). E uma vez mais: “Na Natureza não existe repouso nem cessação de movimento – este é um princípio básico em Ocultismo” (Ibid. vol. I).

Desde os primórdios do pensamento filosófico sobre a questão da atividade das coisas naturais, há uma identificação tácita ou expressa de todas essas atividades com uma forma superior ou inferior de vivência ou vida. Isso era verdadeiro até mesmo no caso do exame da atividade das coisas e objetos inorgânicos. Da parte dos objetos inorgânicos, a presença e a manifestação de atividades espontâneas, ou do que parecia sê-las, eram vistas como uma indicação da presença e manifestação de vida numa forma elementar. Apesar de ter sido rejeitada por muito tempo e, inclusive, vilipendiada pela filosofia ocidental, essa concepção voltou agora a ser respeitada pelo pensamento ocidental mais moderno, como veremos mais adiante.

De tão marcante que era essa concepção, em muitas das antigas filosofias esotéricas constituía um princípio cardinal o fato de a Vida ser universalmente presente e operativa em toda a Natureza, e a Morte uma mera fase da vida – essa concepção era geralmente aceita como uma verdade filosófica consolidada. Isso é especialmente evidente nos ensinamentos das filosofias orientais até mesmo nas primeiras eras, e continua até mesmo nos tempos modernos. Também foi fortemente evidenciado nos ensinamentos filosóficos da Grécia antiga, em que a doutrina do Anima Mundi, a Vida do Mundo, foi geralmente aceita como uma verdade filosófica bem estabelecida.

H. P. Blavatsky enfatiza esse fato na seguinte afirmação: “É a Vida Una, eterna, invisível – mas onipresente, sem princípio nem fim, mas periódica em suas manifestações regulares [...]. Seu atributo único e absoluto, que é ele mesmo, o movimento eterno e incessante, é chamado esotericamente de o ‘Grande Alento’, que é o movimento perpétuo do universo” (A Doutrina Secreta, vol. I). Katherine Hilliard, em sua condensação da obra acima mencionada, apresenta um diagrama no qual “Movimento ou Vida” são reproduzidos de modo a formar um lado de um triângulo, sendo os outros lados reproduzidos como Mente e Matéria, respectivamente. Sob o diagrama aparece a seguinte legenda, acrescentada pelo Editor: “‘Vida’ e ‘Movimento’ são termos permutáveis” (Abridgement of the Secret Doctrine, p. 14).

Nos preceitos Budistas, o princípio de Tanha, praticamente “Vontade-de- Viver”, é postulado como o princípio restaurador e estimulador que manifesta todas as formas de atividade física e psíquica, orgânica e inorgânica. Tanha é concebido como possuidor do Desejo-Vontade, sempre falando para expressar-se nas atividades do universo; Karma, a força diretriz e orientadora das atividades nele empregadas e desenvolvidas. Considera-se que Tanha opere em todos os planos do universo e se manifeste, sobretudo, no plano da inconsciência, mas também em todos os planos da consciência. É tida como inerente a todas as coisas; da mesma maneira que a vida é considerada inerente a todas as coisas orgânicas e inorgânicas.

Embora a filosofia e a ciência modernas como um todo não cheguem tão longe na identificação da energia universal com a vida universal, há algumas indicações bastante fortes da tendência do pensamento moderno a seguir o caminho dessa direção-geral, como se pode inferir de afirmações incidentais dos que escrevem sobre esse tema. Especialmente perceptível é uma concordância iminente com as opiniões de certos filósofos gregos antigos para os quais “A capacidade inerente de ação espontânea, ou de movimento próprio, ou de atividade que não provém de uma força externa, é uma característica de Vida, e o que consegue manifestar esses atributos tem, pelo menos, uma dimensão de Vida”.

Como uma indicação da tendência acima afirmada, apresentaremos os seguintes excertos de alguns autores modernos sobre o assunto.

Paul Carus afirmou: “Por espontaneidade, deve-se entender aquele tipo de atividade que provém da natureza do ser ou coisa ativos. Um movimento causado por pressão ou impulso não é espontâneo; contudo, é espontâneo um movimento cuja força-motriz encontra-se no objeto semovente [...]. No caráter de uma coisa está a fonte de sua ação espontânea.”

Ernst Heinrich Haeckel afirmou: “Considero toda matéria como dotada de movimento, ou melhor, de capacidade de movimento. Como a atração e a repulsão (atômicas), essas forças afirmam-se em cada processo químico da mais extrema simplicidade, e nelas se baseiam todos os outros fenômenos [...]. A ideia de afinidade química consiste no fato de os diversos elementos químicos perceberem as diferenças qualitativas nos outros elementos – sentem ‘prazer’ ou ‘repulsão’ ao contato com eles, e executam movimentos específicos com base nessa experiência”. Haeckel também cita, em tom de aprovação, a seguinte afirmação de Naegali: “Para as moléculas, deve ser confortável poder seguir suas atrações e suas aversões; e desconfortável quando são forçadas a agir de outro modo” (Riddle of the Universe).

Paul Carus afirmou: “Estou propenso a concordar com o professor Haeckel quando ele diz que toda a Natureza está viva. Na verdade, tenho insistido enfaticamente na proposição de que há uma Espontaneidade impregnando toda a Natureza [...]. O termo ‘Vida’ é aqui usado num sentido mais vasto do que costuma ser. Significa, aqui, Espontaneidade ou Movimento Próprio [...]. Proponho a denominação melhor de Pambiotismo, brevemente apresentada na máxima ‘Tudo está repleto de Vida, contém Vida, tem capacidade de Viver’”.

Segundo o dr. Richard G. Saleeby, “A Vida é potencial em Matéria [...] naqueles elementos químicos que são encontrados nas células [...]. Uma vez que sabemos que cada um desses elementos, e cada um dos demais, é criado a partir de uma unidade invariável, o elétron [...] então a Vida é potencial na unidade da Matéria – o elétron em si” (Evolution: The Master Key).

Por último, a significativa afirmação de Luther Burbank: “Todas as minhas pesquisas me afastaram da ideia de um universo morto, despedaçado por uma enorme variedade de forças, e me levaram à ideia de um universo que é plena vida – ou qualquer outra designação que lhe queiramos dar. Toda a vida no nosso planeta encontra-se, por assim dizer, na borda externa desse infinito oceano de força. O universo não é meio morto, mas totalmente vivo” (Lecture).

A escola do Vitalismo, representada por Bergsen e seus seguidores, certamente postula o poder e a presença de Vida criativa como a essência mesma do Cosmos. Essa escola vê a totalidade do Cosmos, físico e psíquico, como instinto com iniciativa, espontaneidade e Vida, sempre procurando expressar-se e sempre procurando irromper em atividade criativa – energizando tudo com seu Élan Vital, ou Energia Viva, sempre “o impulso gerador do mundo”, que transforma o Cosmos num grande teatro ou arena de atividade eterna. Nessa fase específica, muitos veem a filosofia de Bergsen como uma das contribuições contemporâneas mais significativas ao pensamento filosófico. Contudo, ela só faz eco ao espírito das antigas filosofias esotéricas do Oriente, uma faculdade que já encontramos em sua apresentação.

Em geral, o Voluntarismo filosófico moderno reafirma a validade de certos preceitos esotéricos do passado, como aqueles da Grécia e das Índias Orientais. O Voluntarismo é aquela escola de filosofia moderna que postula o princípio cardinal de que a Vontade é a base e o espaço da Realidade, do ser e da Energia. Na filosofia moderna, Schopenhauer talvez seja o mais eminente Voluntarista; William Wundt, contudo, foi quem desenvolveu a ideia muito clara e definitivamente. Outros, bem conhecidos na história filosófica recente, também manifestaram tendências Voluntaristas.

Schopenhauer sustentava que o Desejo-Vontade, o “Desejo-de-Viver” (análogo ao Tanha dos Budistas) é o “âmago da existência” e o núcleo das atividades universais multiformes. Todas as atividades vivenciadas resultam do Desejo-Vontade, e essas atividades vão desde aquelas do plano físico até aquelas dos processos fisiológicos inconscientes, e daí para as atividades conscientes dos seres humanos e dos animais. Para Schopenhauer, o Desejo abrange todas as formas de atividade e energia.

Como já foi dito, Schopenhauer ampliou as operações do Desejo-Vontade de modo a incluírem e abarcarem todas as fases, formas e graus das atividades do universo inorgânico e orgânico: forças física, químicas, magnéticas, vitais e psicológicas na natureza. Em todas elas, afirmava o filósofo, encontra-se – evidente e operante – o espírito do anseio pelo Desejo unido à Vontade, isto é, seu famoso enunciado “Desejo-de-Viver”, sempre propugnando pela expressão objetiva e pela manifestação na atividade. A maior parte desse ímpeto, e seu consequente movimento rumo às ações, é sem dúvida inconsciente. Para ilustrar essa afirmação, apresentamos as seguintes citações de Schopenhauer:

“O que na pedra aparece como coesão, gravitação, rigidez etc. é, em sua natureza interior, aquilo que reconheço em mim mesmo como vontade; e aquilo que a pedra, se fosse consciente, também reconheceria como tal.”

De novo: “Jamais acreditarei que a mais simples combinação química possa dar margem, alguma vez, à admissão de uma explicação mecânica; e muito menos a proporção de luz, calor e eletricidade. Essas coisas sempre precisarão de uma explicação dinâmica”.

Outra vez: “Aquilo que em nós persegue seus fins à luz do conhecimento, aqui só se empenha cega e silenciosamente, de uma maneira unilateral e invariável; ainda assim, nos dois casos deve ser chamado de Vontade”.

Uma vez mais: “A inconsciência é a condição original e natural de todas as coisas, o que a faz ser também a base a partir da qual, em espécies particulares de seres, a consciência venha a ser seu mais alto florescimento, razão pela qual a inconsciência continua a predominar sempre. Nessa perspectiva, a maioria das existências não tem consciência, mas ainda assim age de acordo com as leis de sua natureza – isto é, de sua vontade. As plantas têm, quando muito, um análogo muito frágil da consciência; as espécies mais inferiores de animais têm apenas um ínfimo resquício dela. Contudo, mesmo depois de ela ter ascendido, ao longo de toda a série de animais, até chegar ao homem e sua razão, a inconsciência das plantas, de onde ela teve início, ainda continua a ser a base [...]. Quanto mais nos dedicamos ao estudo das formas de vida inferiores, menor é o papel do Intelecto que encontramos; mas o mesmo não acontece com a Vontade”.

Novamente: “Uma vez que a vontade é a causa universal de nós mesmos, o mesmo se pode dizer de todas as coisas; e, a menos que entendamos causa como Vontade, a causalidade continuará sendo apenas uma fórmula mágica. Digamos, então, que podemos definir repulsão e atração, combinação e decomposição, magnetismo e eletricidade, gravidade e cristalização como Vontade”.

Voltando nossas reflexões para tempos mais recentes, encontramos a seguinte afirmação de Nicholas Murray Butler, presidente da Universidade Columbia: “A filosofia interpreta em termos de Vontade – o nome para a única energia que a consciência conhece diretamente – a energia que, de modo tão abundante e maravilhoso, manifesta-se por todos os lados na Natureza. O esforço consciente de mover a mão, a cabeça e o olho constitui o tipo e a norma pelos quais interpretamos, como resultados da energia, as mudanças de posição e de massa que tão incessantemente observamos. Os conceitos de força e energia remetem necessariamente ao conceito de Vontade como sua explicação. Além disso, ao longo do desenvolvimento das formas de vida, encontramos a irritabilidade, uma forma de energia que devemos interpretar em termos de Vontade, muito antes de encontrarmos qualquer coisa que se aproxime de uma manifestação de inteligência – a Inteligência surge ou como um desenvolvimento posterior de nossa Vontade, ou como um “enxerto” nela inserido.

“Um grupo de renomados mestres da física moderna acredita que a matéria em si, em seu estado último, pode ser decomposta em forma de energia, o que, repetindo mais uma vez, só pode ser humanamente explicado como Vontade. Uma tendência forte e, em minha opinião, dominante na filosofia, poderosamente sustentada pelos resultados do conhecimento científico, é aquela que vê a Totalidade como Energia, que é Vontade. De um ponto de vista mecânico, o movimento perpétuo é claramente impossível no estágio científico do conhecimento. Exatamente por conta desse fato, todo movimento mecânico só pode ser explicado se tiver tido origem como Vontade-força. Essa Vontade- força é Totalidade autoativa” (Philosophy. A lecture delivered at Columbia University, in the Series on Science, Philosophy and Art; pp. 17, 18. Publicado pela Columbia University Press, Nova York).

Outros autores têm chamado nossa atenção para a constatação de que o conceito humano original de energia surgiu, de fato, de sua experiência com a Vontade nele próprio e em suas atividades. Assim não fosse, ele não teria conseguido conceber a Energia como o princípio operacional da Atividade Cósmica. Um desses autores afirmou que “Todo Poder é Força de Vontade”.

Para outro: “Em seu sentido último, a Energia pode ser incompreensível a nós, a não ser como uma demonstração daquilo que chamamos de Vontade”.

Isso, como perceberá, corresponde perfeitamente ao conceito do Budismo antigo que, num livro recente sobre seus preceitos, afirma: “A Vontade é a força-motriz ou a energia que, de mil maneiras distintas, produz a aparência de movimento perpétuo ou de vir a ser [...]. A Vontade, porém, como tudo o mais no Universo, é composta por sete formas exteriores, e pode aparecer como energia abstrata ou desejo animal, de acordo com o plano ou nível de consciência em que se torna manifesta. Em si mesma, é uma forma abstrata e impessoal e, como tal, não é nem boa nem má. Na metafísica do Budismo Mahayana ela é Fohat, aquilo que une os dois polos do Ser”. (Buddhism: An Answer from the Western Point of View, pp. 72, 73. Publicado pela Loja Budista de Londres, Inglaterra.)

Outros filósofos, orientais e ocidentais, exotéricos e esotéricos, têm seguido as mesmas linhas gerais do Voluntarismo, que foram aqui descritas. Subjacente a suas respectivas variações especulativas concernentes à exata e essencial natureza da Vontade Cósmica, sempre se encontrará a concepção essencial subjacente de um Princípio Cósmico, de um grau relativamente alto de prestígio e importância que, nas palavras de um autor anônimo, foi assim descrito: “Enfim, ou um Poder com o Desejo de Agir, ou um Desejo com o Poder de Agir; ou ambas as coisas, unidas numa síntese equilibrada e unificadora”. Em suma, a VIDA concebida como Desejo-Vontade-Atividade Voluntária ou Espontaneidade!

Porém, quer entendamos, quer não, a Atividade Cósmica como “instinto com vida” – Desejo-Vontade, o espírito da Espontaneidade –, não poderemos escapar à conclusão lógica inevitável, invariável e infalível segundo a qual, nos termos de nossa afirmação da Lei da Atividade Cósmica, “Tudo, no Cosmos, é Ativo, Mutável, Funcional; uma Atividade subjacente e onipresente está sempre presente e operante no Cosmos como um todo e em cada uma de suas partes componentes”.

Capítulo VI
A lei cósmica da mudança

“Tudo muda; nada é permanente.”

A terceira lei do Cosmos é a Lei da Mudança (às vezes chamada de Lei do

Devir), que pode ser formulada da seguinte maneira:

“No Cosmos como um todo, e em toda e cada uma de suas partes componentes, há manifestação de Mudança constante; nada, no Cosmos, permanece imutável, nem mesmo durante a mínima extensão de tempo; o próprio tempo é mensurado pela Mudança.” Aqui, o termo “Mudança” significa: “Qualquer alteração ou variação, seja de que tipo for; uma passagem de um estado ou forma para outro; transformação, transmutação, transmissão”. O termo “Devir” significa: “Indicação, do ponto de vista filosófico, da passagem de uma forma ou estado para outro; a entrada em algum novo estado ou condição, a partir de circunstâncias que o precederam”.

A Lei da Mudança ou Devir foi reconhecida há muito tempo pelos grandes filósofos da raça; hoje, é praticamente aceita por todas as filosofias e formas de pensamento científico. É postulada pela ciência física moderna como um fato básico; e a moderna psicologia admite-a como um princípio funcional estabelecido de Consciência em geral e em particular.

Na verdade, essa Lei constitui a base primeira de diversas grandes filosofias antigas e modernas; isso é particularmente verdadeiro no caso das respectivas filosofias de Heráclito de Éfeso, do Gautama, o Buda, de Herbert Spencer, no século passado, e de Henri Bergson em nossa própria época. Em determinados momentos da história da filosofia (particularmente naquela da ordem teológica), houve tentativas de postular a existência de um universo estático; mais cedo ou mais tarde, porém, essas tentativas falharam e houve um retorno à concepção de um mundo de experiência dinâmico e impermanente.

O Cosmos – o universo natural – é visto pelos filósofos e cientistas como um grande “Processo de Devir” Cósmico, ou uma Sucessão de Mudanças. A palavra “Processo” (neste caso específico) significa: “Um movimento que avança continuamente no Tempo”. O Tempo, em si, é essencialmente visto como uma medida da Mudança; indica Mudança, implica Mudança, expressa Mudança. Não pode existir Tempo sem Mudança; não pode existir Mudança sem Tempo. As duas ideias são inextricavelmente ligadas.

Considera-se que todas as coisas no Cosmos – isto é, tudo o que existe no mundo da Natureza – destinam-se normalmente a manifestar os seguintes passos, ou mudanças de Devir, a saber, (a) nascimento, (b) desenvolvimento, (c) maturidade, (d) decadência e (e) morte – o Ciclo da Existência –, a não ser, talvez, que algumas etapas intermediárias sejam anuladas pela ocorrência antecipada da Morte (e) pouco depois do Nascimento (a); essas duas etapas, a primeira e a última, são inevitáveis. Tudo está incluído no Processo de Devir – a Sucessão de Mudanças.

Isso é verdadeiro no que se aplica ao universo e aos átomos; aos arcanjos e homens, minerais, plantas, animais, seres humanos; todos os estados ou formas físicas e psíquicas, todas as formas de atividades naturais são regidos por essa lei. Não há exceções conhecidas; e nada de semelhante é concebível. Em todo o pensamento filosófico, teológico e científico que tem permanência no tempo, há um reconhecimento virtual desse fato. As filosofias antigas, sobretudo as de ordem esotérica, insistiam em que somente o Ser ou Princípio Absoluto (sejam quais forem o conceito ou o nome pelos quais são conhecidos) é e deve ser Imutável e absolutamente isento de Mudança: contudo, todas as coisas no

Cosmos manifesto são incondicionalmente regidas pela Lei da Mudança. Do ponto de vista lógico, considera-se que cada uma dessas duas concepções tem implicações e necessidades mútuas.

Heráclito de Éfeso (600 a.C.) ilustrava o Processo de Devir com a comparação de um rio corrente que, embora esteja sempre presente, nunca é exatamente o mesmo. Ele afirmava que “O universo existe num estado de fluxo; flui sempre para diante, sempre o mesmo ainda que nunca exatamente o mesmo; sempre diferente, mas sempre proveniente de seus estados e formas antecedentes”. Repetindo, ele afirmava que “Você não pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois novas águas estarão sempre passando por você”.

Heráclito foi o maior dos gregos antigos a defender o conceito de um universo dinâmico, em contraposição àquele cujos adeptos defendiam a ordem estática. Tudo flui e se transforma para sempre; mesmo na matéria mais imóvel há um fluxo e um movimento invisíveis. Nesse mundo de fluxo, há uma única coisa constante – a própria Lei. Assim disse Heráclito, e acrescentou: “Essa ordem, a mesma para todas as coisas, não foi feita por nenhum dos homens ou divindades; mas ela sempre existiu, e existe, e existirá”. Há muito ignorado e menosprezado, e com pouquíssimos fragmentos dispersos de seus textos que foram preservados, e de sua ciência com cerca de 2.500 anos antes destes últimos, ele viveu muito à frente do seu tempo.

A seguir, encontramos Gautama, o Buda, praticamente contemporâneo de Heráclito (embora nenhuma conexão entre eles seja conhecida ou tenha sido aventada), propondo praticamente as mesmas verdades no que diz respeito ao Devir. Um dos pontos principais dessa doutrina era o da Impermanência de todas as coisas Cósmicas. Sobre essa premissa ele fundamentou grande parte de seus outros preceitos. O Buda anunciou como axioma que “Impermanentes são todas as coisas componentes”, estabelecendo, assim, uma ligação entre a Lei da Composição e a Lei da Mudança.

Gautama, o Buda, parecia favorecer o exemplo da combustão, ou queima, como a melhor ilustração da Mudança ou do Devir. Ele comparava o universo como um todo, e cada coisa nele, com uma Chama que, embora fosse sempre a mesma, não era exata ou perfeitamente a mesma chama, nem mesmo por dois segundos consecutivos – na verdade, a chama não era senão as atividades da combustão constante. Ele também empregava a comparação da correnteza dos rios em seus exemplos.

Em seu grande poema “A Luz da Ásia”, sir Edwin Arnold expressa o ponto essencial da concepção Budista de Mudança e Devir nos seguintes versos:

“E causa e sequência, e a passagem do tempo, E o incessante fluir do Ser que, Sempre em mutação, corre, unido como um rio, Por pequenas e sucessivas ondulações, ligeiras ou morosas – O mesmo, mas nunca o mesmo – vindas de uma fonte distante, Até onde suas águas fluem Para os mares. Estas, evaporando-se ao Sol, Devolvem às ondazinhas esquecidas um chuvisco esfumado, Que cairá sobre as colinas e voltará a deslizar lentamente, Sem nunca ter pausa, nunca ter repouso.” Seguindo a ordem das nossas reflexões, teremos algo a dizer sobre Herbert Spencer (1820-1903), o grande pensador inglês do século passado. Sua filosofia da evolução geral postulava a evolução, ou a mudança metodicamente progressiva, como um fenômeno presente e operante em todas as coisas; não só nos objetos físicos e nos estados mentais, mas também nas instituições humanas, nos costumes, na ética, nas modas e em outras coisas do gênero; e isso se baseava fundamentalmente no conceito de Mudança e Devir constante e metódico no Cosmos, e em cada segmento das atividades cósmicas, estas últimas concebidas como as manifestações específicas da “Infinita e Eterna Energia da qual todas as coisas procedem”, e que “é Incognoscível em sua Essência Última”.

Para Spencer, de fato, nada era constante a não ser a própria Mudança – fato que não admitia nenhuma exceção; nada duraria para sempre sem a Mudança, a não ser, sem dúvida, o Absoluto Incognoscível. Os campos da psicologia, ética, sociologia, religião etc. foram por ele situados sob a lei geral da Evolução. “Poeira, dinastias e dogmas” eram considerados semelhantes sob essa lei de mudança metódica. A operação dessa mudança sistemática no mundo das coisas vivas era Evolução Orgânica; no mundo dos sistemas solar e estelar, Evolução Cósmica; no mundo dos Átomos, Evolução Atômica, e assim por diante. Tudo acontecia de acordo com a mudança regular e metódica e a transformação das formas e estados mais simples em mais complexos. Mudança e Devir Universal metódicos eram seu tema sempre que ensinava Evolução Geral.

Nossa abordagem das questões examinadas até o momento nos levará agora à filosofia de Henri Bergson (1859-1941), o grande filósofo Vitalista dos primórdios do século atual. Deixando de lado sua identificação especial da natureza última das coisas com a Vida – Energia Viva –, trataremos aqui somente de sua “Filosofia da Mudança”, na qual se considera que tudo está submetido à Lei da Mudança e Devir. Para ele, a natureza está sempre “para o que der e vier” – a expressão que remete a uma vida livre, espontânea e criativa. Ele segue Heráclito na crença em que “todas as coisas estão em estado de fluxo ou fluindo”. Também defende a ideia de que todas as coisas são dinâmicas, não estáticas; como se num eterno “vir a ser”, e não simplesmente “ser”; que o Cosmos deve ser visto como uma sucessão de coisas mutáveis; que a mudança ininterrupta, uma incessante mutação fosse uma marca distintiva das atividades do Cosmos.

Bergson apresenta exemplos úteis de como nossos sentidos percebem as atividades mutáveis do Cosmos como estáticas. Essas informações dos sentidos não são, segundo ele, nada além de “instantâneos” de uma sucessão de coisas que, na verdade, estão em movimento. Essas imagens, assim “fotografadas”, mostram as coisas enganosamente, como “tão imóveis como se congeladas para todo o sempre”, para empregar a oportuna descrição de Will Durant. Para usar os termos desse mesmo autor, elas nada mais são que “poses estáticas da viva corrente da realidade”, que o intelecto apreende como “uma série de estados, mas perde a continuidade que os entrelaça à vida”. O Tempo, com seu fluxo incessante, é para Bergson a própria essência do real.

A popularidade da filosofia de Bergson, quando se deu a conhecer, deveu- se em grande parte à sua união das ideias de “energia viva” com as de mudança e evolução, que formam uma parte reconhecida do arsenal mental da ciência moderna. O Élan Vital bergsoniano é um impulso vivo no Cosmos, cuja energia leva as coisas a evoluir e faz do mundo um teatro de infinita criação. Como seus antecessores, ele serviu para fortalecer o conceito de que o Cosmos “não é uma base fixa nem um lugar central e imóvel, mas sim energias pulsantes girando em ritmo ordenado, quer dos sistemas solares ou de nosso próprio coração e inteligências – a consciência de uma ordem dinâmica substituindo aquela de uma ordem estática”, como tão bem afirmou Caroline

Rhys Davids.

Quanto à ciência moderna, pode-se dizer que praticamente todo o pensamento científico moderno está em perfeita consonância com a lei geral de que todas as coisas, sem exceção, existem numa condição de mudança ininterrupta e ordenada – a concepção Cósmica dinâmica. A concepção cósmica, em vez da estática. A ciência física moderna, em todos os seus segmentos, fornece uma profusão de evidências que corroboram essa lei. Em química, astrofísica, biologia, sociologia, mitologia, ética, história religiosa e outros ramos do pensamento, temos farta abundância de exemplos da atividade da mudança ou evolução ordenada do Universo.

Na psicologia moderna, também, temos exemplos impressionantes da mesma lei. Até a própria consciência depende da mudança para suas atividades; sem mudança, não haveria consciência: sobre esse fato, todos os psicólogos modernos estão de pleno acordo. Em essência, eles dizem que “A Consciência é de natureza tal que torna sua existência impossível, a não ser em estado de perpétua mudança. Para nós, a Consciência é inconcebível sem a mudança. Um estímulo uniforme à sensação torna-se rapidamente imperceptível – o estímulo deve variar sua pressão indefinidamente, ou a sensação deixará de existir; e isso também se aplica a todo e qualquer estado consciente, sem exceções. É impossível manter um estado de consciência constante e uniforme”.

Essa avaliação moderna está de pleno acordo com aquela dos preceitos primitivos da antiga doutrina esotérica do modo como a postulou H. P. Blavatsky há aproximadamente cinquenta anos no livro A Doutrina Secreta, no qual, dentre muitas outras referências à Lei da Mudança, ela diz:

“Nada há sobre a Terra que tenha uma duração real, pois nada permanece sem mutação, ou no mesmo estado, durante um bilionésimo de segundo [...]. O Tempo não é mais que uma ilusão ocasionada pela sucessão dos nossos estados de consciência, à medida que viajamos através da duração eterna; e deixa de existir quando a consciência em que tal ilusão se produz já não exista. O presente não é senão uma linha matemática que separa aquela duração eterna, que chamamos futuro, daquela outra a que damos o nome de passado” (A Doutrina Secreta, vol. I).

CONTINUIDADE

“TUDO FLUI NUM DESLOCAMENTO CONSTANTE” Em nossa análise da Lei da Mudança Cósmica Geral, não devemos deixar de examinar atentamente o princípio especial de Continuidade ou Sequência Ordenada, contido na formulação da Lei Geral da Mudança. Esse princípio especial de Continuidade ou Sequência Ordenada pode ser enunciado da seguinte maneira: “A sucessão de coisas mutáveis do Cosmos manifesta-se num fluxo contínuo, conectada a uma unidade progressiva sem nunca deixar de manter sua sequência ordenada”.

Assim usada, a palavra “Continuidade” significa: “[Qualidade ou estado de ser contínuo, isto é, de não ter intervalo, cessação ou interrupção; sucessão ininterrupta e uniforme; recorrência regular em uma série”. Por “Sequência Ordenada”, entende-se: “Um procedimento ordenado de acordo com a lei, e outro que se deixa conduzir por uma sequência; uma sucessão ou progressão de um sistema ordenado”. O termo budista que expressa essa sequência corrente da existência natural só é traduzido como “Concatenação”, que significa “Uma série contínua de elos unidos e inseparáveis, cada qual ligado ao elo precedente e àquele que o sucede, de modo a formar uma série”.

Ao examinar o princípio especial da Continuidade ou Sequência Ordenada, o estudante deve evitar qualquer imagem de uma sucessão semelhante à queda de gotas d’água – um gotejamento com intervalo de tempo e espaço que se interpõe entre as respectivas gotas. Ao contrário, ele deve imaginar um fluxo constante, contínuo e ininterrupto que se apresenta em forma de sucessão unitária; alguma coisa metaforicamente semelhante ao movimento do Fluir do Tempo.

O fluxo móvel pode ser represado por obstruções temporárias de materiais levados por sua própria corrente; ou pode fluir secretamente por algum tempo; ou pode muito bem assemelhar-se a um sistema de tanques ou reservatórios conectados, de um dos quais a corrente extravase e siga para o outro, e assim por diante, até que a série toda tenha sido percorrida. Nesses exemplos, porém, o fluxo deve ser sempre representado como constante e ininterrupto em sua sequência ordenada. Essas supostas exceções, como ficou demonstrado acima, não violam a integridade da regra geral – elas só servem para pôr em relevo o significado original de sua integridade.

Em algumas terras do Oriente, os mestres ocultistas empregam como símbolo dessa série multiforme de mudanças, ou do devir, uma criatura parecida com um camaleão, que muda de cor diante dos nossos olhos; aqui, uma combinação de cores mistura-se gradualmente a outra, e assim por diante. Uma vez mais, um caleidoscópio, manifestando constância e continuidade de movimento e mudança de forma de seu conteúdo, é empregado para um objetivo semelhante de demonstração. O mítico deus do mar, Proteu, que assumia diferentes tipos e formas à vontade, também foi solicitado a servir de ilustração figurativa desse processo. No ensino moderno, as conhecidas placas coloridas que mostram a mistura de luzes e cores diferentes do Espectro Solar são outra modalidade possível de explicação. Exatamente como sugeriu Omar Khayyám no trecho abaixo, extraído de sua obra mais conhecida:

“Cuja Presença Secreta, circulando pelas veias da Criação,

Assume todas as formas, de Mah a Mahi; todas perecem – mas ELE permanece.”

A questão principal sempre consistiu em indicar e exemplificar uma série sucessiva e gradual de misturas associadas, que apresentam mudanças interligadas, ou estágios de mudança, na mesma coisa essencial; e evitar o conceito de (a) uma sucessão de unidades separadas, ou (b) uma sucessão de segmentos “desmembrados” ou partes separadas. Até a conhecida figura de uma “Cadeia Infinita”, tão comumente usada nesse sentido, foi criticada por conter falhas; isso porque, na verdade, tal cadeia seria formada por elos separados (apesar de sequencialmente ligados). Contudo, se os elos fossem realmente unidos, a analogia seria inquestionável. O conceito de uma “fusão” ou “variação gradativa” de uma coisa em outra, proveniente dos sucessivos estágios ou etapas da existência, quando objeto de uma sólida reflexão, nos manterá muito próximos da verdade em nossas ideias sobre o assunto em questão.

O Tempo, que é “a medida da Mudança”, oferece uma ótima ilustração dessa distinção entre Mudança (a) contínua e (b) fragmentada. Temos o hábito de pensar o Tempo como uma série de segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, séculos etc., cuja característica principal são “interrupções” ou “desmembramentos”, ignorando o fato de que o “desmembramento” ou a “fragmentação” dessas supostas unidades de Tempo nada mais é do que o resultado de uma mensuração por expedientes artificiais de separação, ou então pelos movimentos relativos dos objetos naturais – que, em ambos os casos, só existem em nossa mente. Na verdade, o Tempo nunca é tão separado ou “desmembrado”, assim como uma estrada ou rodovia nunca é “desmembrada” em centímetros, metros, quilômetros etc. Os objetos dos quais se depreende alguma ideia intrínseca de Tempo, diz Bergson, na verdade não passam, por assim dizer, de “instantâneos” de um processo em movimento.

O professor Edward Bradford Titchener, num verbete escrito para uma enciclopédia sobre “Associação de Ideias”, apresentou também um exemplo aplicável ao processo contínuo de sequência ordenada, que é universal em sua manifestação, embora nenhuma intenção desse tipo possa ser atribuída a ele no artigo. Ele afirma:

“Os elementos associados ora são extremamente profusos, ora um mero filamento. A massa ora é intensa, ora frágil; ora é clara, ora obscura; ora dirigida por um único elemento, ora por uma união de dois ou mais canais de influência; ora fluindo com prazer, ora com total indiferença afetiva. Essa associação colateral, como qualquer outra consciência, é caleidoscópica, apropriando-se de processos aqui e largando-os ali, mas sempre levada por um único núcleo, de modo que nunca haja um salto de uma etapa para outra, nunca um hiato na cadeia, mas, de modo invariável, uma transição gradual de um ponto a outro” (New International Encyclopedia, vol. II, p. 272).

Esse contínuo fluxo sequencial no Cosmos não é um mero fluir; é também um fluir que manifesta ordem. É um fluxo lógico e ordenado – jamais acidental, caótico, atabalhoado e aleatório em nenhum momento. Não há nele o mais leve vestígio de acaso. A Lei e a Ordem estão por toda parte em evidência – sua manifestação é onipresente. Há uma Lógica Cósmica sob a qual o Cosmos manifesta suas atividades.

Às vezes, o surgimento repentino de “saltos”, “pulos” ou “rompantes” em processos iniciais não deve ser visto como exceções à regra geral de sequências contínuas e ininterruptas nas atividades Cósmicas; pois não se trata disso de maneira alguma. A pesquisa e a observação mais profundas, sustentadas por uma avaliação perspicaz, revelará o fato de que tais ocorrências não violam a integridade da lei. Quando se leva em consideração o “fluxo subterrâneo” da cadeia de acontecimentos correntes, encontra-se a solução. Não há elos ausentes no processo geral de mudança contínua, embora a observação humana possa não perceber todos os elos de uma só vez. A Lei é a lei, e não conhece exceções.

Capítulo VII
A lei cósmica da causalidade

“Tudo acontece devido a uma causa.”

A quarta lei do Cosmos é a Lei da Causalidade, que pode ser formulada da seguinte maneira:

“Todas as mudanças nas atividades do Cosmos são condicionadas e causadas; elas se manifestam através de uma causa condicionante; elas continuam a se manifestar através de uma causa condicionante; elas deixam de se manifestar através de uma causa condicionante.” No sentido mais geral, a palavra “causa” é definida como “Aquilo que produziu ou opera um resultado”. De modo geral, a causa de qualquer efeito é a verdadeira “razão” do acontecimento, ou aquilo (físico ou mental) que é corretamente nomeado em resposta à pergunta “Por quê?”. Considera-se que todo acontecimento (físico ou mental) ocorre “por causa de” alguma outra coisa capaz de produzir efeitos. “Porque” realmente significa “por causa de”, e implica uma “causa”.

Em linguagem filosófica, o verbo “condicionar” é definido como “Determinar ou fazer de qualquer coisa o que ela é”. Uma coisa “condicionada” é aquela determinada ou transformada naquilo que ela é por alguma outra coisa. Considera-se que todas as coisas do mundo dos fenômenos sejam condicionadas de alguma maneira. Em filosofia, só o Infinito ou Absoluto é considerado como “incondicionado”, isto é, livre de todas condições e limitações.

O pensamento correto sobre esse tema específico das causas condicionantes do mundo dos fenômenos pode ser ajudado pela lembrança de que, na verdade, elas não são coisas ou entidades estáticas, mas sim – como tudo o mais no mundo dos fenômenos – atividades ou formas que condicionam e causam outra forma a partir daí. Um estímulo sempre é uma atividade; a resposta a ele sempre é igual, seja um estímulo físico ou mental.

Desde tempos imemoriais, os filósofos admitiram e ensinaram a existência e operação da Lei da Causalidade. O pensamento humano seguiu o caminho da observação filosófica, e a classificação não poderia ter tomado rumo distinto. Aos poucos, as operações da lei passaram a ser reconhecidas como elementos predominantes em certos campos; depois em outros, e assim por diante. Depois, a generalização chegou ao reconhecimento do predomínio universal da Causalidade, e foi alçada à dignidade de uma Lei do Cosmos de natureza axiomática.

Os filósofos da Grécia antiga, em particular, dedicaram muita atenção à elaboração dos princípios da Lei da Causalidade. Houve muita discussão de minúcias pouco importantes sobre o tema da natureza última da Causa, e o resultado foi que “eles sempre saíam pela mesma porta pela qual haviam entrado”; pois, aqui, a natureza última é claramente incognoscível, como é o que realmente acontece no caso de todas as concepções últimas desse tipo. Deve-se ter em mente, porém, que não houve nenhuma exteriorização sobre a existência e operação da Lei em si.

Também se constata que o mesmo estado de coisas foi mantido na Índia Antiga. Lá também havia muita “argumentação erudita”, com o mesmo resultado inevitável. Contudo, aqui a existência da Lei não era questionada, mas sim universalmente aceita como verdade. Os Budistas, em particular, atribuíam-lhe grande importância e fizeram dela uma base fundamental de sua filosofia. Eles a associavam firmemente à sua doutrina da Mudança, e sempre declaravam positivamente: “Mudança de acordo com a Causa”. A doutrina

Budista de um Devir fluente permitiu-lhes ter um conceito muito mais claro da Causa do que aquele de seus oponentes. Ali estava um conceito de um fluxo corrente de coisas e acontecimentos, em contraste com a concepção mais ou menos estática, defendida pelas escolas discordantes. Na verdade, a concepção Budista era quase idêntica àquela do moderno pensamento científico-filosófico ocidental.

Nos primórdios do pensamento filosófico ocidental sobre o assunto, houve praticamente um retorno às mesmas bases que haviam sido percorridas pelos antigos gregos. Aqui, porém, mais uma vez as especulações eram quase totalmente voltadas para as explicações últimas, o que naturalmente não levou a nenhuma conclusão útil. Descartes, Hume, Kant, Mill e outros filósofos eminentes participaram, todos, dos debates em busca da solução; hoje, porém, sua obra principal é considerada como uma base para as concepções mais claras que, ao longo do tempo, evoluíram a partir deles.

Talvez a moderna concepção ocidental de Causalidade possa ser mais bem formulada por excertos do verbete enciclopédico sobre o tema, escrito pelo professor Evander Bradley McGilvary, uma autoridade conceituada e competente nos temas filosóficos. Nesse verbete, ele afirma:

“Uma definição de Causa que, nos dias atuais, é muito amplamente aceita, é aquela segundo a qual a Causa de qualquer acontecimento é um acontecimento precedente sem o qual o acontecimento em questão não teria acontecido. As duas causas e efeitos são sempre acontecimentos, isto é, coisas em processo de mudança. Na Causa completa estariam todos os indispensáveis acontecimentos anteriores [...]. Portanto, pensamos em causa e efeito não como se fossem magicamente condicionadas entre si, mas como passos diferentes num processo contínuo no qual cada passo é o que é em decorrência de sua relação com todos os outros passos” (New International Encyclopedia, verbete sobre Causalidade). Como o leitor perceberá, isso está praticamente de acordo com a doutrina geral do “Devir” de todas as coisas cósmicas, sendo estas últimas consideradas como “acontecimentos”, por assim dizer; e, sem dúvida, mantém uma relação quase estreita com a doutrina Budista sobre o mesmo tema, além de atender às exigências das diversas Leis Cósmicas interdependentes e interligadas apresentadas no presente livro.

Uma vez mais, podemos ilustrar a concepção filosófica que hoje predomina no Ocidente citando duas outras fontes, como mostraremos a seguir: Jevons, em seu livro Lessons of Logic, afirma que “A causa de um acontecimento significa as circunstâncias que devem ter ocorrido anteriormente, a fim de que o acontecimento pudesse ter se realizado”; e no Dictionary of Philosophy and Psychology, de Baldwin, afirma-se que “Todo acontecimento é resultado ou sequência de algum fato anterior (ou fatos anteriores) sem o qual não poderia ter ocorrido, e cuja presença é indicativa de que teria forçosamente de existir”.

O fato de essas ideias estarem de acordo com os antigos preceitos Budistas pode ser constatado numa referência ao tema feita por Carolyn Rhys Davids:

“Desde Thomas Brown e John Stuart Mill, pelo menos neste país temos considerado suficiente dizer que ‘não fazemos nenhuma ideia de nada que diga respeito a eficiência, além de regularidade de sequência’ [...]. Até o momento, para nós mesmos. A antiga fórmula Budista apresenta uma concepção paralela. Deixando de lado as especulações sobre o começo e o fim, essa fórmula nos diz que todos os dhammas:, todas as coisas-como-são-conhecidas acontecem a partir de causas. E uma causa que foi aquela coisa (ou aquelas coisas) cuja presença se fez necessária para determinada coisa subsequente, ou coisas que são conhecidas como resultado. E considerava-se que essa uniformidade em sequência era de importância tão crucial que a chamavam de ‘o Dhamma.’ O Buda é representado como se estivesse a dizer a um hipotético Jain: ‘Deixai de lado essas questões sobre começo e futuro. Eu vos ensinarei o

Dhamma: – o que está presente, vem a ser; do surgimento daquilo, surge isso; estando aquilo ausente, isso não vem a ser; a partir da cessação daquilo, isso cessa também’” (Buddhism: A Study of the Buddhist Norm). Aqui, observaríamos en passant que os Budistas sustentam que praticamente todas as atividades vivas têm, como sua motivação maior e sua causa condicionante alguma forma de Desejo, intenso ou brando, consciente ou inconsciente. Isso produz uma característica dominante de sua doutrina de Tanha, o princípio universal do Desejo em suas muitas formas; e também de Kama, o elemento de desejo em todas as coisas vivas. Platão também enfatizou a força motivadora do desejo. Spinoza vê no Desejo a essência da força motivadora que se encontra na base da atividade humana. Schopenhauer também postula um impulso consciente ou inconsciente para a ação, o princípio do Desejo-Vontade, como as causas condicionadoras da atividade viva. Na categoria das causas condicionadoras, devemos atribuir um lugar importante ao Desejo. “Por trás da Vontade, encontra-se o Desejo” é um antigo aforisma do ocultismo. De fato, o desejo pode verdadeiramente dizer:

“Calculam mal os que me deixam de fora”. Tanto Platão quanto Gautama, o Buda, sustentam que o elemento Desejo chega até a produzir vidas futuras – o Renascimento.

Em poucas palavras, a concepção científica moderna pode ser assim definida: “Todo acontecimento no tempo e, portanto, todas as mudanças nas coisas, todos os fatos e ocorrências que implicam o elemento Mudança, bem como todas as coisas daí resultantes, são a consequência ou os efeitos de certas atividades antecedentes, conhecidas como ‘causas’, as quais, estando presentes, fazem com que os resultados e efeitos tenham de ocorrer”. Considera-se que isso seja uma verdade igualmente aplicável tanto aos acontecimentos e atividades físicos como aos psíquicos.

As afirmações acima significam, em resumo, que tudo é (a) exatamente o que é, está (b) exatamente onde está e (c) exatamente quando está, porque certas outras coisas foram exatamente o que foram (ou são); o leitor perceberá que “são”/“estão” podem ser substituídos por “foram” na afirmação acima. Isso porque, em sentido estrito (que é especialmente favorecido pelos Budistas), as relações causais não são necessariamente confirmadas apenas às relações temporais.

Os Budistas afirmam que qualquer relação existente, de interação ou coordenação, correlação ou interdependência, desde que baseada numa necessidade verdadeira, e tenda necessariamente a “condicionar” a coisa ou o acontecimento em questão (isto é, a impor-lhe condições), deve ser vista (nessa medida) como uma das “causas” que tornam a coisa ou o acontecimento exatamente o que ele é a partir dessa perspectiva. Contudo, é certamente imperativo que as causas imediatas estejam realmente presentes no momento do efeito imediato; na verdade, as causas remotas não precisam estar tão presentes naquele momento específico, embora sua influência esteja presente em seus efeitos intermediários derivativos. Isso explica a constância dos verbos “ser”/”estar” no parágrafo anterior.

A única alternativa à Causalidade ordenada é aquela do Puro Acaso – e o Puro Acaso é inconcebível em conexão com atividades observadas no Cosmos. O Puro Acaso é um conceito inconciliável com a razão, além de um escândalo ao pensamento lógico. No uso filosófico e científico moderno, o termo “Acaso” nada mais é que “A causa (ou as causas) desconhecida e imprevista de um acontecimento”. Deixou de existir a concepção filosófica ou científica do Acaso como explicação de um acontecimento não causado; considera-se que tal concepção pertence à Idade Média do pensamento filosófico. Modernamente, não há nenhuma justificativa para o uso do termo em qualquer outro sentido que não seja o da compatibilidade com o uso científico e filosófico há pouco afirmado. O contrário é o resultado ou da lassidão do pensamento ou de pura superstição; é uma falácia absoluta na concepção lógica atual, e deve ser sempre considerada como tal em toda reflexão sobre o tema.

É verdade que uma minoria de filósofos parece não estar em perfeita consonância com os princípios da Causalidade, mas um exame mais profundo de seus preceitos revelará o fato de que sua contenda é com uma interpretação demasiado mecânica e de sistema fechado dos princípios acima referidos. Com a admissão de que (a) existem planos superiores e desconhecidos da Causalidade, e que (b) é possível considerar algumas das normas menos importantes da atividade natural como “hábitos” estabelecidos pelas forças da Natureza, e não como normas de procedimento fixas e inalteráveis – meros canais criados pelas próprias forças Cósmicas através dos quais elas tendem a fluir daí em diante –, as maiores dificuldades então se desvanecem, e os opostos se reconciliam numa nova síntese, mais larga e de maior amplitude.

O Cosmos, quer seja concebido como um sistema, quer como um princípio do ser ou da vida, não é limitado por nenhum suposto sistema fechado de sequências causais exatas. É um processo de desenvolvimento em que os elementos causais mais elevados e desconhecidos desempenham seu papel – no qual as correntes subterrâneas e as forças acima são operativas, assim como aquelas dos planos de superfície. A Causalidade, porém, conhecida ou desconhecida, superior ou inferior, está sempre presente e atuante.

Uma concepção simples, mas que parece confiscar a substância de mistério aparente é aquela segundo a qual causa e efeito se mantêm como fatores ou aspectos componentes da atividade universal, da qual todos os acontecimentos e coisas são partes, embora não permaneçam à parte umas das outras, ou em relação ao todo. Os princípios da Continuidade, Sequência, Devir – a Unidade e o Fluxo exterior das coisas no Cosmos – tornam fúteis e inúteis as especulações relativas aos detalhes da Causalidade, e servem para criar um maior entendimento do espírito de suas leis.

Não seria justo, nem apropriado, encerrar este exame da Lei da Causalidade sem uma referência a sua extensão da parte das escolas Brâmanes e Budistas das filosofias orientais, ao Karma, em sua aplicação ao destino de indivíduos, famílias, raças e nações. Ainda que no transcurso de seu raciocínio lógico elas ampliem essa lei do Karma de modo a incorporar e incluir “a lei de causa e efeito nas atividades éticas e morais – a Lei da Causalidade ética e moral”, particularmente em suas doutrinas do Renascimento, ainda assim elas ainda consideram o Karma como a aplicação universal nas atividades físicas e psíquicas do universo manifesto. Este último fato não é de conhecimento tão geral, mas é extremamente correto. A citação a seguir, extraída dos escritos de H. P. Blavatsky, exemplifica esse significado geral e universal do termo Karma nas filosofias esotéricas do Oriente:

“Karma é a Lei de Causa e Efeito. Repetindo: Karma é a Lei Última do Universo, a fonte, origem e procedência de todas as outras leis que existem em toda a Natureza. Karma é a lei infalível que ajusta o efeito à causa, nos planos físico, mental e espiritual do ser. Como nenhuma causa permanece sem seu devido efeito, do maior ao menor, de uma perturbação cósmica até o movimento de sua mão; e, como o semelhante produz o semelhante, o Karma é aquela lei invisível e desconhecida que ajusta, com sabedoria, inteligência e justiça, cada efeito a sua causa, fazendo esta última remontar a seu produtor” (Key to Theosophy, p. 156). A Lei da Causalidade é considerada pelas maiores autoridades científicas e filosóficas de nossa época, bem como por aquelas do passado, como axiomática e evidente por si mesma – e cuja negação é inconcebível. A doutrina do Puro Acaso é a única alternativa possível; e trata-se da pura negação do princípio da Causalidade lógica, sendo também inconcebível e repulsiva tanto à razão como à intuição. A extensão da Causalidade para a universalidade é afiançada pela experiência, pelo pensamento racional, e também pela aplicação da Lei da Analogia.

NOTA 1: Embora tenhamos afirmado expressamente que as Leis Cósmicas, do modo como aqui as consideramos, não devem ser aplicadas a nenhuma concepção finita específica de um Princípio Eterno do Ser, pareceu-nos apropriado acrescentar, a esta altura, a seguinte afirmação do professor B. P. Bowne em seu livro The Philosophy of Herbert Spencer:

“Não é a presença em si que exige uma causa, mas somente uma presença mutável. O ingresso na presença ou a saída dela são as únicas coisas que exigem uma causa ou fazem surgir essa demanda. O que quer que manifeste ou experimente a mudança deve ter uma causa; o que quer que não a manifeste nem experimente pode prescindir de uma causa.” Do nosso ponto de vista, a aplicação da afirmação no comentário acima é óbvia. Ela exime e liberta da Causa necessária qualquer conceito de Princípio Eterno do Ser; e, ao mesmo tempo, prende e conecta inextricavelmente a Lei Cósmica da Causalidade à Lei Cósmica da Mudança. Ela não apenas fornece a possível concepção de uma “Causa sem Causa” Última – aquilo que corrobora e mantém todas as Mudanças, e continua imutável em meio a todas as Mudanças – se tal teoria ou sugestão estiver presente no pensamento filosófico; ela também impõe, categoricamente, a “Causalidade por meio da Mudança” sobre todas as modalidades cósmicas de atividades, tanto em geral como em particular.

NOTA 2: A Lei da Causalidade Natural aqui submetida a exame não deve ser identificada com as doutrinas de Fatalismo, nem com as de Predestinação, respectivamente; o pensamento costuma ser erradamente confundido com elas. As breves afirmações definitivas apresentadas a seguir sobre os três conceitos respectivos talvez sirvam para impedir ou corrigir esse possível erro da sua parte.

Bem ao contrário de a Causalidade Natural e o Fatalismo terem significado idêntico, o que se tem, na verdade, são dois conceitos fundamentalmente antagônicos quando levamos em consideração seus respectivos significados essenciais. A Causalidade Natural apenas afirma que todos os acontecimentos e fatos naturais têm suas causas naturais antecedentes; em outras palavras, estão sempre condicionados por certos acontecimentos ou fatos naturais que os precederam, e que, caso estivessem ausentes, não teriam acontecido; e que, por sua vez, esses acontecimentos precedentes tiveram seus próprios antecedentes, e assim por diante, através de todo o ciclo Cósmico.

Por outro lado, o Fatalismo se apega à ideia de que os acontecimentos e os fatos ocorrem em razão de algum mandado ou fiat emanado de algum agente ou poder misterioso ou sobrenatural, predestinado ou “fadado” em tempos extremamente remotos, irrevogável, inalterável e destinado a concretizar-se no “momento previsto”; a Causalidade ou o condicionamento natural nada tem a ver com o acontecimento ou fato arbitrariamente predeterminado. Considera-se que um acontecimento “predestinado” não ocorre em razão da tendência metódica das leis naturais de sequência de atividades. Na verdade, admite-se que ocorra a despeito dessas leis – em geral, quase sempre atuando num movimento contrário ao delas – e que todas as tentativas de escapar ao Destino por meios naturais são inúteis. O Fatalismo, portanto, postula os poderes naturais como se, originalmente, fossem uma injunção ou predeterminação de certos acontecimentos, sem nenhuma referência a causa e efeito naturais.

Além disso, o Fatalismo defende a ideia geral de que a vontade humana não é um fator eficiente nos processos de contingência ou ocorrência, ao menos na medida em que remeta a um acontecimento “fadado”. Por outro lado, a Causalidade natural sustenta que a vontade humana é um fator de grande eficiência em muitos acontecimentos e fatos; como antecedente, esse é um importante elemento determinante, embora em si mesmo deva ser explicado à luz do direito natural geral. O Fatalismo, portanto, recusa-se a admitir a vontade humana como um elo na cadeia da Causalidade Natural, embora a Causalidade Natural a veja como um elo importante na cadeia sequencial. O Fatalismo postula poderes sobrenaturais como se eles comandassem ou predestinassem arbitrariamente certos eventos e acontecimentos a partir de um desenvolvimento de condições naturais, tudo nos termos da lei e da ordem na Natureza.

Por último, a Predestinação em geral difere tanto da Causalidade Natural como do Fatalismo, respectivamente, como estes foram aqui apresentados e explicados. A Predestinação é a doutrina teológica que, apesar de admitir a Causalidade Natural à luz da lei e da ordem, também defende a ideia de que a Deidade (concebida como Ser Pessoal) tenha predestinado, Ela Própria, a lei natural e a ordem das coisas, e que também tenha predestinado e predeterminado todos os acontecimentos que ocorrem nessa esfera de domínio; em suma, que “ao predestinar o fim, Ela também tenha predestinado os meios”.

A Predestinação tem sido definida como “O propósito ou preceito de Deus desde a eternidade, respeitando todos os acontecimentos” (Webster’s New International Dictionary). Levada à sua aplicação extrema, a Predestinação resulta na enunciação teológica de que “Por determinação de Deus, para a manifestação de sua glória, alguns homens e anjos são predestinados à vida eterna, e outros são preordenados à morte eterna” (Westminster Confession of Faith).

A Causalidade Natural não deve ser confundida nem com a doutrina do Fatalismo, nem com a da Predestinação. Na verdade, elas são consideradas como doutrinas opostas e antagônicas, quando corretamente interpretadas.

Capítulo VIII
A lei cósmica do ritmo ou periodicidade

“Tudo se move em ciclos rítmicos.”

A quinta lei do Cosmos é a Lei do Ritmo ou Periodicidade, que pode ser formulada da seguinte maneira:

“Todas as mudanças nas atividades do Cosmos seguem adiante em ritmo cadenciado, ciclos rítmicos ou sucessões periódicas.” A palavra “Ritmo” significa “Uma sucessão regular de movimentos, impulsos, mudanças e coisas afins”; a essência da definição consiste na ideia de “sucessão regular”, ou regularidade de alterações. A palavra “Ciclo” significa: “Um intervalo de tempo no qual certa sucessão de fenômenos se completa, e então retorna, de novo e sempre de novo”. A palavra “Periodicidade” significa: “Estado de ser Periódico, isto é, realizado numa série de círculos, circuitos ou ciclos recorrentes, repetição de atividades ou intervalos de tempo recorrentes”.

A Lei do Ritmo ou Periodicidade foi reconhecida desde muitas eras como uma lei universal. Filósofos de tempos imemoriais observaram e registraram sua presença e atuação no mundo da Natureza, em todos os seus muitos campos de atividade. Sua estreita relação com a Lei da Polaridade tem sido observada da mesma maneira; percebe-se que o processo rítmico opera entre os dois polos das coisas naturais. Heráclito e Gautama, o Buda, enfatizaram- na cerca de dois milênios e meio atrás, e a lei recebeu muita atenção de filósofos e cientistas daquela época até o presente, sobretudo dos Estoicos, dos Pitagóricos etc. Herbert Spencer, em nossa própria época, fez dela uma característica fundamental de sua própria filosofia. A ciência moderna considera-a como uma lei essencial.

Os antigos Budistas defendiam firmemente essa doutrina em conexão com seus preceitos fundamentais sobre Mudança e Devir. A concepção deles foi muito bem exposta pela sra. Carolyn Rhys Davids: “Postula-se (1) um universo de muitos mundos que vão do eterno ao eterno, alternando integração e desintegração; (2) esse procedimento Cósmico é metódico em sua natureza física, psíquica e moral; (3) nenhuma instabilidade, nenhum acaso ou caos existem em qualquer parte desse Cosmos” (Buddhism: A Study of the Buddhist Norm).

H. P. Blavatsky formula essa teoria da seguinte maneira: “A eternidade do universo in toto, como um plano sem limites; periodicamente, “cenário de universos inumeráveis, manifestando-se e desaparecendo constantemente [...]. O aparecimento e desaparecimento de Mundos é como o fluxo e o refluxo periódico das marés [...]. Essa afirmação contida em A Doutrina Secreta é a universalidade absoluta daquela Lei de Periodicidade, de fluxo e refluxo, de crescimento e decadência, que a ciência física tem observado e registrado em todos os departamentos da Natureza [...] um fato tão comum, tão perfeitamente universal e sem exceção, que será fácil compreender por que, nele, divisamos uma das leis absolutamente fundamentais do universo” (A Doutrina Secreta, vol. I).

Os preceitos esotéricos do Oriente mencionam constantemente a operação da lei universal de Ritmo, Ciclicidade e Periodicidade. Eles a empregam na narração dos diversos períodos recorrentes de atividade e passividade alternadas; isso vai dos grandes “Dias e Noites de Brâman” – os grandes Ciclos Cósmicos – até os menores períodos de alternação, como os respectivamente maiores e menores Manyantaras e Pralayas, os Yugas, os Kalpas etc., e também até a sequência cíclica das sucessivas raças e sub-raças humanas, as “ondas de vida” etc. Além do mais, os preceitos esotéricos do mundo oriental se apegam firmemente ao princípio de que sua doutrina específica de Re-nascer depende não só da Lei do Karma (Causalidade), mas também da Lei da Periodicidade Cíclica; essas duas leis são necessária e igualmente operantes no processo de Reencarnação. Para corroborar esta última afirmação, citaremos o texto abaixo, no qual H. P. Blavatsky afirma: “A peregrinação obrigatória para cada Alma, no Ciclo de Encarnação, está de acordo com a Lei Cíclica e Kármica, ao longo de toda sua duração” (A Doutrina Secreta, vol. I).

Também citaremos William Q. Judge, outro a escrever sobre o tema, para quem “Por ser a grande lei da vida e do progresso, a Reencarnação está interligada àquela dos Ciclos e do Karma. As três funcionam em conjunto e, na prática, é quase impossível desenredar a Reencarnação da Lei Cíclica. Pessoas e nações em fluxos definitivos retornam à Terra em períodos de recorrência regular, e assim trazem de volta para o globo as artes, a civilização e as próprias pessoas que, no passado, nele estiveram atuantes. E as unidades de nação e raça [...] surgem conjuntas e repetidamente, em forma de novas raças e novas civilizações, à medida que os Ciclos se movem em revoluções periódicas [...]. E, no percurso dessa estrada, encontram-se os pontos em que os pequenos e os grandes Ciclos de Avatares trazem, para benefício do homem, os grandes personagens que configuram a raça de tempos em tempos” (The Ocean of Theosophy, p. 119).

Herbert Spencer, como dissemos, apegava-se firmemente à doutrina do Ritmo Cósmico. Ele ensinava que o Cosmos persegue uma eterna sucessão de mudanças cíclicas – universo sucedendo universo – sem começo nem fim. Como princípio cardinal do seu pensamento sobre o assunto, ele afirmava que “O Ritmo é a totalidade das mudanças – eras alternadas de evolução e dissolução – sempre as mesmas em princípio, mas nunca as mesmas em resultados concretos” (First Principles, primeira edição, p. 536). Ele também afirma que “Desse modo, sugere-se então a concepção de um passado durante o qual houve sucessivas evoluções, análogas àquela que está em operação no momento; e um futuro durante o qual sucessivas outras dessas evoluções possam ter continuidade” (Ibid., p. 536).

Em sua análise da filosofia de Herbert Spencer, Will Durant afirma, entre muitas outras coisas: “O ritmo do movimento: essa generalização nem sempre reconhecida, precisa apenas ser enfatizada. Toda a natureza é rítmica, das pulsações do calor às vibrações das cordas do violino; das pulsações da luz, do calor e do som, às marés das águas do mar; das periodicidades do sexo às periodicidades dos planetas, cometas e estrelas; da alternação noite e dia para as sucessões das estações, e talvez para os ritmos da mudança climática; das oscilações das moléculas à ascensão e queda das nações e ao nascimento e morte das estrelas” (The Story of Philosophy, p. 397).

A doutrina da Evolução de Herbert Spencer abarca todos os campos das atividades naturais, físicas e psíquicas, orgânicas e inorgânicas, biológicas, sociológicas, históricas, éticas etc. Não se permite que nada escape à generalização; a concepção é que tudo está sob as leis da Evolução. Contudo, a Evolução representa apenas a maré crescente da Mudança e do Devir; a Dissolução representa o fluxo e refluxo das marés. Mais cedo ou mais tarde, porém inevitavelmente, vem o “Equilíbrio” – aquele ato ou estado de estabilidade e constância; esse processo encaminha-se para a Dissolução, onde, de início, tudo diminui de velocidade para depois se desintegrar e, por último, se extinguir. A extinção final, porém, é inevitavelmente seguida por uma nova integração e um novo período em que a Evolução terá continuidade. O Ciclo do Ritmo sempre recomeça. E assim por diante, sempre – até que a mente não consiga acompanhar o conceito. Segundo Herbert Spencer, o Ciclo Cósmico da Mudança ocorre reiteradamente, fluindo por toda a eternidade.

A Lei Cósmica do Ritmo ou Periodicidade não se revelou ao pensamento moderno sobre a questão apenas no surgimento e desaparecimento físico dos universos; ao contrário, revela-se na totalidade das atividades do universo, do insignificante ao relevante – seu campo de atuação abrange todos os segmentos de atividade Cósmica, uma vez que é universal em suas operações. Na verdade, tudo “marca o compasso” – tudo tem seu tempo característico ou grau específico de movimento e mudança no Tempo.

O giro dos elétrons, ou a ondulação das ondas eletrônicas (ou como preferir); a órbita dos planetas, dos sóis, dos universos, dos sistemas mais próximos aos mais longínquos; o fluxo e refluxo das marés; os respectivos índices de vibração de todas as coisas; a batida do metrônomo; o balanço do pêndulo; a sucessão das estações; o surgimento e o desaparecimento dos continentes; a sucessão de pensamentos, ideias e estados emocionais; os sucessivos povos, civilizações e raças; a recorrência dos estilos de roupas, departamentos, comportamentos, moral, filosofia, ciência, formas de religião e sabe-se lá mais o quê; todas essas coisas, e tudo o mais que pudéssemos nomear, ilustram a universalidade dessa grande Lei Cósmica do Ritmo ou Periodicidade.

A forma mais simples de Ritmo manifesta-se (1) na conhecida batida ou cadência, de um polo ou extremo ao outro – aqui, o pêndulo atende ao propósito de uma ilustração típica. Mais cedo ou mais tarde, porém, descobriremos que essa batida ou cadência nada mais é que o segmento de um círculo incompleto. Depois (2), pensaremos no progresso cíclico nos termos de um círculo completo – o conhecido “giro ao redor do círculo”. Todavia, uma concepção ainda mais elevada e plena revela o fato de que (3) todo círculo do Ritmo Cósmico não é senão uma parte constitutiva de uma espiral ascendente. É verdade que tudo segue um curso circular, mas o ponto central do movimento circular consiste no avanço progressivo no tempo e espaço, com esse processo de circularidade seguindo adiante e se deslocando para um nível, plano ou ciclo superior, executando seu novo processo cíclico nesse plano ou nível avançado; e assim por diante, ad infinitum. A espiral ascendente da rosca de um parafuso oferece um exemplo típico e bem conhecido desse percurso do Ritmo. Por último, o símbolo da Lei Cósmica do Ritmo ou Periodicidade pode ser encontrado na Espiral Ascendente, e não no Círculo ou na Batida do Pêndulo.

Até os últimos anos, a ciência moderna inclinava-se a adotar a concepção de que o universo como um todo estava “exaurindo seus recursos”, dissipando sua energia disponível e destinado a tornar-se, com o tempo, um cadáver inerte e exangue, por assim dizer – um remanescente fossilizado do seu passado de glórias. Contudo, as concepções científicas posteriores, apesar de apegadas, até certo ponto, à antiga teoria da “exaustão de recursos”, ainda assim estão desenvolvendo o conceito mais novo de um processo correspondente de “aumento sequencial progressivo” – um processo de integração que acontece no mesmo período de ocorrência da desintegração. Nos termos desse conceito, há uma evolução criativa gradual de um novo universo em formação, equilibrando o aparente processo de destruição gradual que anteriormente era visto como “o fim de tudo”. Portanto, as concepções mais recentes da ciência ocidental tendem para as ideias antiquíssimas de Heráclito e de Gautama, o Buda; e também fazem uma maior aproximação com o pensamento de Herbert Spencer sobre o tema.

A citação que apresentamos abaixo, de um texto escrito por C. W. Saleeby em 1905, parece exprimir o pensamento científico atualmente aceito – só que 25 anos depois.

“A mim parece que o fato de a conservação de energia, ao nos ensinar que jamais ocorrerá a perda de uma quantidade ínfima dessa força, e que isso tampouco terá acontecido no passado –, submetido a exame junto com a teoria que nos ensina novamente, e no tom canônico da matemática de Heráclito e Herbert Spencer, que o Cosmos persegue uma infinita sucessão de mudanças cíclicas – traz à imaginação um panorama de pura sublimidade. O escritor não pode senão prefigurá-lo, mas certamente o leitor, ao aceitar a concepção de [...] energia, eternamente indestrutível, perscrutando eternamente essa trajetória cíclica [...] poderá concordar com minha opinião de que aqui temos, de fato, uma grandiosa epopeia” (Evolution: The Master Key, p. 82).

A esta altura, parece-nos apropriado pôr nosso leitor de sobreaviso, evitando assim que ele incorra num erro um tanto fácil – um erro de meia verdade – que tem desempenhado seu papel na história do pensamento filosófico sobre o tema do Ritmo Cíclico: a saber, o erro da falácia da Eterna recorrência, que surgiu nos primórdios da história da filosofia. Por exemplo, os Estoicos (ou pelo menos alguns deles) defendiam a ideia de que “a história do mundo move-se em ciclos infinitos, através dos mesmos estágios”. Da mesma maneira, os Pitagóricos eram propensos a admitir o ponto de vista de que “os mundos sucessivos assemelham-se uns aos outros até em seus detalhes infinitesimais”.

Esse conceito de repetição Infinita – repetição até os mínimos detalhes e incidentes – parece ter intrigado e fascinado muitos dos antigos filósofos, e até alguns dos modernos. Heráclito, na verdade, flertava com ele. Assim também, certos Estoicos, os Pitagóricos, Empédocles e Virgílio – os filósofos modernos radicais, Nietzsche e outros de diferentes eras.

Herbert Spencer, contudo, escapou a essa falácia; na verdade, ele a negou expressamente em sua afirmação sobre o “Ritmo na totalidade das mudanças [...] sempre o mesmo em princípio, mas nunca o mesmo em resultados concretos”, que já citamos neste capítulo. Além do mais, ela é tacitamente repudiada no conceito de progressão de Espiral Rítmica, e não naquela de tipo circular.

Acrescente-se também, como afirmou o dr. Saleeby: “A ideia Pitagórica de recorrência exata, ou, na verdade, a ideia de qualquer coisa semelhante a recorrência exata, é incompatível com a crença científica moderna de que a Causalidade é universal. Essa crença, se for verdadeira, implica que todo ato, por ínfimo que seja, afeta, em sua medida, todo o curso subsequente dos acontecimentos – de todos os acontecimentos [...] uma afirmação que, como Newton nos ensinou, é literalmente verdadeira” (Evolution: The Master Key).

De novo, a prova de que nos deparamos por todo lado com a variação – a variedade infinita – quando submetemos a exame a pequena porção do Cosmos que está aberta a nosso escrutínio, indica-nos, por Analogia, que não existe nada que se possa chamar de repetição exterior exata. Esperamos que o leitor nos perdoe a repetição, aqui, da afirmação fundamental de H. P. Blavatsky, para quem “A Natureza, como potência criadora, é infinita; e nenhuma geração de cientistas físicos pode jamais se vangloriar de ter exaurido a lista de seus meios, fins e métodos, por mais uniformes que sejam as leis que a antecedem” (A Doutrina Secreta, vol. II). Não há, e jamais poderá haver, nenhuma coisa ou acontecimento exato e precisamente igual a qualquer outra coisa ou acontecimento – de acordo com o princípio da Diferenciação, corroborado pela experiência universal e objeto de adesão do mais criterioso pensamento filosófico.

A verdade geral da Manifestação Cósmica é a infinita variedade, modificação e diversidade: e a Eterna Repetição é impossível nos termos dessa lei. Por fim, para citar uma metáfora pertinente, a Eterna Recorrência (no sentido de exata repetição) é “uma bolha de sabão com que as crianças crescidas da filosofia têm às vezes se divertido”. A ideia de que o Cosmos não é senão a cena de uma infinita repetição, exatamente das mesmas coisas e dos mesmos acontecimentos, sem nem mesmo a mais ínfima variação, é contrária à razão, e também à intuição; é refratária a ambas, bem como à nossa natureza emocional. Representa apenas uma perturbadora inquietação da filosofia em alguns de seus estágios – a obsessão da Futilidade.

Muito mais satisfatória ao intelecto, agradável à intuição e reconfortante à natureza emocional, é a ideia análoga ao conceito do Ritmo Espiralado do Processo Cósmico, isto é, a ideia do Eterno Progresso com Infinita Variedade. Muito mais satisfatória a todos esses campos da mente é a ideia e o conceito expostos por Lotze em sua obra Microcosmos: “A série de períodos cósmicos em que todo elo, unido a cada um dos outros, faz com que a ordem sucessiva dessas secções componham, por assim dizer, a unidade de uma melodia cujo tema é desenvolvido sempre para a frente”.

Por último, como já vimos, é igualmente verdadeiro que, por um lado, a Variação e a Diferenciação infinitas se mantêm; e, por outro lado, que toda Variação e Diferenciação se incorporam numa Unidade Infinita. O que temos aqui são relatos axiomáticos de razão e intuição; sua negação é inconcebível.

INVOLUÇÃO – EVOLUÇÃO

“A INVOLUÇÃO SEMPRE PRECEDE A EVOLUÇÃO” Incorporado ao princípio geral da Lei Cósmica do Ritmo ou Periodicidade, e associado a seu campo de atividade, encontra-se o Princípio da Involução- Evolução, que pode ser formulado da seguinte maneira:

“Involução e Evolução são os aspectos paralelos ou os polos contrastantes de um grande processo; o que é evoluído como subsequente deve ter sido anteriormente incorporado ao antecedente.” Por “Evolução”, queremos dizer: “Desdobramento; por conseguinte, referimo-nos a um processo gradual de desenvolvimento e formação”. A definição mais técnica é: “A série de mudanças sob a lei natural que implica o progresso contínuo da estrutura homogênea para a heterogênea, e do uno e simples para o diverso e multíplice, em qualidade ou função”. Por “Involução”, queremos dizer: “Envoltório, envolvimento, ocultação, encobrimento, inserção etc.” .

A doutrina geral da Evolução é aceita, em princípio, por todo pensamento filosófico e científico da presente época, ainda que seus detalhes certamente continuem sujeitos (e provavelmente nunca deixarão de estar) às investigações e hipóteses subsequentes. Sua presença é visível e operativa nos campos da física, biologia, sociologia, história, ética, comportamento e, na verdade, em todos os campos das atividades Cósmicas; sobre isso já falamos em nossas considerações sobre os respectivos temas da Atividade Cósmica e da Mudança Cósmica, e também em conexão com o Ritmo Cósmico geral, na presente seção. Contudo, é muito mais antiga em seus princípios gerais do que os preceitos da ciência moderna. De alguma maneira, é conhecida há tempos imemoriais. Esotericamente explicada e justificada, é uma das partes da

Doutrina Secreta da Filosofia Esotérica; e, ao longo de muitas eras ancestrais, fez parte do seu ensinamento.

Todavia, a doutrina da Involução, como um precedente necessário à subsequente Evolução, não recebeu a devida atenção nas mãos da ciência moderna; na verdade, a ciência moderna ignorou-a taticamente, embora ela seja claramente indicada como uma doutrina paralela à Evolução, e como um precedente necessário a esta última. É provável que a tendência descendente – o caminho descendente – observado na Evolução, e chamado por Herbert Spencer de “Dissolução”, tenha funcionado de modo a desviar o pensamento científico dos aspectos mais profundos e fundamentais de certos ritmos ainda maiores, que só são explicáveis à luz da hipótese da Involução.

O raciocínio criterioso traz consigo a narrativa inevitável de que, antes que qualquer coisa possa ser proposta, desenvolvida ou expandida, ela deve ter sido imanente num primeiro momento, e implícita naquilo que subsequentemente a faz ser proposta, desenvolver-se ou expandir-se. Ela constata (para usarmos termos coloquiais) que “Não há nada que se possa obter de alguma coisa, a menos que o obtido tenha sido anteriormente agregado a tal coisa”. Ou, de forma mais precisa, “Aquilo que evolui (evolve) como subsequente deve ter estado previamente incorporado ao antecedente”. Por exemplo, o conhecido caso da energia mecânica, onde o que foi extraído para fins de trabalho deve ter estado anteriormente envolvido e presente na máquina em questão. As Leis da Mecânica fornecem muitos exemplos confirmatórios desse processo.

Como ilustração desse princípio, há também o conhecido adágio: “A água só se eleva até o nível mais alto de sua nascente”. Para fins de repetição, temos os conhecidos exemplos do carvalho embrionário, envolvido pela bolota antes de entrar em processo de evolução; e o do frango embrionário, envolvido pelo ovo do qual irá evoluir na sequência. A Natureza oferece incontáveis exemplos desse tipo na vida das plantas e dos animais; na verdade, todo o processo de evolução tem por base esse princípio. Além disso, as fases alternativas descendentes e ascendentes, os processos semelhantes a ondas, as sequências ondulatórias tão universais nas atividades naturais em geral, em harmonia com a Mudança e o Ritmo, são, de fato, exemplos de Involução-Evolução, ainda que esses termos não lhes sejam comumente aplicados.

Nos preceitos esotéricos antigos atribui-se um lugar de grande importância aos princípios de Involução-Evolução, e essa importância chega, inclusive, aos campos de atividades que transcendem os nossos próprios, como veremos a seguir. Nessas filosofias, os processos Cósmicos análogos em questão, de natureza transcendental, são comparados às correntes alternativas (uma que flui, outra que reflui) que são consideradas vigentes e operativas em todos os campos da atividade natural – mesmo no caso do assovio do vento, quando entra pelo buraco de uma fechadura, ou quando sai ao encontrar espaço livre. Uma vez que a atenção se volte para o princípio da Involução-Evolução, passaremos a vê-la em operação por toda parte.

Além disso, nas filosofias esotéricas orientais os grandes períodos da

Manifestação Cósmica (Aparecimento) e Existência Negativa

(Desaparecimento), respectivamente, cada qual ocupando, de maneira quase inconcebível, enormes períodos de tempo, são considerados como o resultado daquilo que se chama de “Grande Sopro”, o símbolo de um aspecto da Realidade Última. Na operação desse “Grande Sopro” manifesta-se uma Involução Cósmica que constitui um precedente necessário à Evolução Cósmica como um todo, no interior desta última, há momentos revolucionários e outros de muito maior lentidão – engrenagens demasiado complexas e de difícil entendimento, por assim dizer –, mas a Involução-Evolução do Grande Sopro encontra-se acima de tudo isso.

Nesse processo, o Espírito (um aspecto do Princípio Último), primeiro envolve a Matéria, em uma série de passos ou estágios descendentes, com estados correspondentes de ser; depois, a maré muda e a Matéria expande aos poucos o Espírito previamente contido nela; isso constitui uma série espiralada ascendente de estágios de ser, de vida e consciência.

Para um autor afeito a esse tema, o ensinamento é que “De acordo com a Lei Imutável, o Espírito fica contido na Matéria, e a Matéria faz expandir o

Espírito. Há uma circulação descendente e ascendente, do Espírito para a Matéria, e desta para o Espírito. A Evolução só deve ser aceita como uma meia lei cuja outra metade é a Involução”.

Essa concepção impressionante do esoterismo oriental, brevemente exposta aqui, inclui o conceito do Cosmos Manifestado, em forma de uma aparição periódica como um todo. Durante um período de tempo quase incalculável, essa manifestação vai da subjetividade à objetividade, numa série descendente de Involução; durante certo período, isso é seguido por uma série semelhante de estágios Evolucionários ascendentes que, aos poucos, leva à subjetividade original. Esse processo alternativo do “Grande Alento” continua (com a correspondente intervenção de períodos de descanso ou pausa equilibradora) por toda a Eternidade – através do Eterno Princípio, em si, não se encontra sob a Lei. Em poucas palavras, esta é a Lei do Grande Alento, segundo as filosofias esotéricas do Antigo Oriente.

H. P. Blavatsky afirma: “A Involução espiritual e psíquica caminha por linhas paralelas com a Evolução Física” (A Doutrina Secreta, vol. II). “Antes de podermos abordar a evolução do elemento físico [...] precisamos nos familiarizar [...] com aquela Filosofia que ensina a Involução do Espírito na Matéria, a descida progressiva, cíclica” (Ibid., vol. I).

Como mais uma ilustração do princípio da Involução-Evolução, podemos chamar a atenção para o fato de que, nos fragmentos preservados dos antigos Preceitos Herméticos, encontra-se o seguinte: “Criação é o período de Atividade da Deidade. A Deidade tem dois modos ou aspectos, alternativamente postos em relevo – Atividade ou Existência, Deidade expandida (Deus explicitus); e Passividade do Ser, Deidade Incorporada (Deus implicitus). Apesar de alternantes, esses dois modos ou aspectos são perfeitos e completos, e análogos aos estados de vigília e sono do homem”.

Aqui, de forma diversa, temos a antiga doutrina Védica de “The Days and Nights of Brahm” e “The Inhalation and the Exhalation of the Great Breath”. Sempre o mesmo ensinamento geral dos períodos alternantes de Involução e Evolução!

Os preceitos relativos à Involução-Evolução, encontrados em todas as apresentações completas das doutrinas esotéricas, são ali utilizados para explicar e elucidar as atividades de expansão e progressão – tão evidentes em todos os processos evolucionários da Natureza. Em suma, desse ponto de vista, aquilo-que-está-inserido na Matéria empenha-se constantemente em revelar-se e desenvolver-se, e, desse modo, libertar-se do emaranhado de sua substância material. O fato de que tudo que é expandido provém de alguma coisa já implícita – expandindo-se de Dentro para Fora – encontra-se positivamente enunciado em toda a filosofia esotérica. Por exemplo, o princípio é tipicamente formulado na seguinte passagem de H. P. Blavatsky:

“O universo é elaborado e dirigido de dentro para fora [...]. E o homem – o microcosmo e cópia em miniatura do macrocosmo – é o testemunho vivo desta lei universal e do seu modus operandi. Observamos que todo movimento externo, ação ou gesto, quer seja voluntário ou mecânico, mental ou orgânico é precedido e produzido por um sentimento ou emoções internos, pela vontade ou volição, e pelo pensamento ou mente. Pois que nenhum movimento ou alteração exterior, quando é normal, se pode verificar no corpo externo do homem, sem que o provoque um impulso interno, comunicado por uma daquelas três funções, assim também sucede no universo externo ou manifestado” (A Doutrina Secreta, vol. I).

Capítulo IX
A lei cósmica da polaridade

“Tudo é um de um par de opostos”

A sexta lei do Cosmos é a Lei da Polaridade, que pode ser formulada da seguinte maneira:

“O Cosmos manifesta o princípio da Polaridade em toda e cada uma de suas partes componentes. Toda e cada uma de suas qualidades manifestas, ou grupos de qualidades, tem seu ‘outro’ polo, ou polo oposto; e, desse modo, cada uma dessas teses e antíteses formam um ‘Par de Opostos’. Esse Par de Opostos, porém, não constitui senão os dois polos contrastantes de uma coisa superior na qual eles podem ser sintetizados.” A Lei da Polaridade vem expressa no axioma segundo o qual “Polaridade é aquela condição de um corpo em virtude da qual ele exterioriza forças ou propriedades contrastantes, em direções opostas”. O Princípio da Polaridade, frequentemente expresso como “O Par de Opostos”, é um dos truísmos aceitos do pensamento filosófico, antigo e moderno, esotérico e exotérico. Foi erradamente enfatizado pelos Pitagóricos e pelos antigos Herméticos em geral.

É mencionado no grande clássico hindu, o Bhagavad Gita, como “O Par de Opostos”.

É frequentemente citado por H. P. Blavatsky, como, por exemplo: “Masculino e Feminino, ou seja, polaridade” (A Doutrina Secreta, vol. I). Novamente: “A lei que provoca atração entre dois objetos de polaridade desigual, e aversão entre aqueles de polaridade semelhante” (Ibid., vol. II). Uma vez mais: “Afirma-se que toda série de qualidades contrastantes é formada por masculino e feminino, bem e mal, positivo e negativo” (Ibid., vol. I). Repetindo: “Cada qual é uno e, ao mesmo tempo, Vida e Morte, Saúde e Doença, Ação e Reação” (Ibid., vol. II). E ainda outra vez: “O universo manifesto é impregnado pela Dualidade, que é a essência mesma de sua EX- istência como ‘manifestação’” (Ibid., vol. I).

Os preceitos interiores dos antigos Hermetistas baseavam-se nessa Lei da Polaridade, ou Pares de Opostos. A aplicação das regras para o equilíbrio ou a neutralização dos respectivos princípios mentais, sobretudo aqueles concernentes à Emoção ou à Vontade, foi uma parte importante da Alquimia Mental dos Hermetistas e outros antigos Ocultistas. Sem dúvida, na base disso estavam os respectivos princípios da Polaridade e Equilíbrio. A transmutação de qualidades mentais de um oposto a outro também era muito favorecida por essas escolas; e era igualmente baseada na Lei da Polaridade, bem como aplicada às normas que regem a mesma.

Na antiga sabedoria esotérica há referências frequentes aos polos opostos das coisas em geral: e muitos aforismos conhecidos enunciavam o princípio em questão. Por exemplo, os paradoxos existentes nas seguintes afirmações: “Os opostos são idênticos”; “Os pares de opostos podem ser conciliados”; “Os extremos se encontram”; “Tudo é e não é ao mesmo tempo”; “Cada afirmação de uma verdade não expressa senão uma meia verdade”; “Há dois lados para todas as coisas” etc. etc.

Em termos breves e gerais, é possível dizer que o princípio de Oposição pode ser assim explicado: “O que é relativamente verdadeiro acerca de um ‘oposto’ é falso em relação a outro; o que se afirma sobre um deve ser contestado a propósito do outro”. Portanto, temos o quente e o frio; o intenso e o insípido; o em cima e o embaixo; o escuro e o luminoso; o inverno e o verão; o Norte e o Sul; o Oriente e o Ocidente; o grande e o pequeno, e assim por diante, quase ad infinitum.

Sem dúvida, é possível objetar que os exemplos citados são apenas grupos relativos de qualidades, atributos ou propriedades – e não “coisas em si mesmas”, consideradas à parte de seus atributos; mas isso é igualmente verdadeiro no que diz respeito a qualquer coisa fenomênica no Cosmos: esses não passam de um “feixe de atributos” que, em sua combinação e disposição particulares, constituem o “caráter” da coisa particular, como vimos ao examinarmos a Lei da Composição.

Ao percorrermos mentalmente a lista das coisas ou qualidades que conhecemos, sejam elas físicas ou psíquicas, encontraremos essa polaridade presente em todo e cada item de nossa lista. Alguns filósofos e lógicos defenderam o ponto de vista de que só podemos conhecer verdadeiramente uma coisa ou qualidade particular por comparação a seu oposto polar e em referência ao mesmo. Segundo essa concepção, o reconhecimento do oposto polar constitui, logicamente, uma parte das definições plenas e cabais da primeira coisa ou qualidade dada. Além do mais, sempre se deve supor ou presumir o oposto de toda e qualquer coisa conhecida, mesmo quando esse oposto não foi (ainda) descoberto. Com base na presença do conhecido, a existência do oposto desconhecido pode ser logicamente argumentada.

Hegel, o grande filósofo, apegava-se particularmente a esse ponto de vista. Sua famosa doutrina Dialética de “tese, antítese e síntese” é um exemplo disso. Ele insistia em que o oposto de uma coisa deve ser conhecido antes que a coisa em si dê-se plenamente a conhecer; que havia uma relação necessária entre as duas. Ele geralmente “pensava nos termos do oposto”, como ouvimos dizer. Sobre esse modo de pensar, William James diz: “Uma vez bem assimiladas as características de seu sistema de pensamento, teremos sorte se conseguirmos nos libertar dele” (Pluralistic Universe, p. 96).

A citação abaixo, extraída das páginas de Ralph Waldo Emerson, explicarão mais profundamente os pontos de vista acima mencionados acerca desse ensino geral sobre esse tema específico:

“A Polaridade, ou ação e reação, encontramo-las em toda parte da Natureza; na escuridão e na luz; no calor e no frio; no fluxo e refluxo das águas; no masculino e feminino; na inspiração e expiração das plantas e animais; na equação de quantidade e qualidade dos fluidos do corpo animal; na sístole e diástole do coração; nas ondulações dos fluidos e do som, e na gravidade centrífuga e centrípeta; na eletricidade, no galvanismo e na afinidade química. Sobreponha magnetismo na extremidade de uma agulha: o magnetismo oposto ocorrerá na outra extremidade. Se o Sul atrai, o Norte repele. Para esvaziar aqui, você deve condensar ali.

“Um dualismo inevitável divide a natureza ao meio, de modo que cada coisa se torna uma metade, e sugere outra coisa para torná-la inteira; como espírito, matéria; homem, mulher; regularidade, inconstância; subjetivo, objetivo; dentro, fora; acima, abaixo; movimento, repouso; sim, não. Enquanto o mundo é assim dualista, o mesmo acontece com cada uma de suas partes. Todo o sistema de coisas encontra-se representado em cada partícula. Existe algo que lembra o fluxo e o refluxo do mar, o dia e a noite e o homem e a mulher numa única agulha de pinheiro, no cerne de um grão, em cada indivíduo de uma tribo animal. A reação, tão grandiosa nos elementos, é repetida no interior dessas pequenas fronteiras” (Essay on Compensation). Orlando J. Smith apresenta muitos exemplos e ilustrações interessantes da presença e operação dessa lei, como entenderemos a partir das seguintes citações de seus escritos sobre o tema:

“As polaridades da Natureza, e a interação entre elas, são tão acentuadas na vida humana como na física; de fato, as polaridades se estendem para além do físico e humano, chegando ao abstrato, como no caso dos números pares e ímpares. As polaridades são às vezes antagônicas, às vezes recíprocas, e sempre, acredito, mutuamente corretivas. Platão percebeu a mesma lei da polaridade na ‘geração de contrários da morte a partir da vida, ou recomposição e decomposição’. O homem se depara por todos os lados com as polaridades da Natureza, algumas das quais – como molhado e seco, quente e frio, trabalho e repouso, prazer e sofrimento – eram tão evidentes na selvageria como na civilização.

“Com cada vez mais conhecimento, o homem percebe um número cada vez maior dessas qualidades e cria novas palavras para expressá-las. Em seu Thesaurus, Roget apresenta mais de 12 mil palavras de sentido contrário. ‘Há relativamente poucas palavras de natureza geral às quais não se possa atribuir nenhum termo correlativo, tanto de negação como de oposição’, diz Roget. Hegel sustentava a teoria do ‘progresso por antagonismo’– aquela segundo a qual as formas que são contestadas são realmente complementares ou necessárias umas às outras, e seu conflito é limitado pela unidade que elas expressam e que, em última análise, devem subordinar todas a si própria’” (Balance: The Fundamental Verity).

De extrema importância, e igualmente bem percebido pelos antigos adeptos do esoterismo (sobretudo no caso dos Hermetistas), foi o entendimento de que, na verdade, esses “opostos polares”, esses “pares de opostos”, não são duas coisas distintas e separadas, como parecem ser; mas são, na verdade, apenas os dois extremos ou polos de uma síntese maior; e que essa síntese maior nada mais é, na verdade, do que a união dos dois extremos ou polos. Por conseguinte, a doutrina Dialética de Hegel: “Que toda e cada ideia, e a coisa que ela representa, tem sua antítese, ou seu oposto, com o qual pode ser sintetizado e, assim, harmonizado numa maior unidade, uma nova síntese ou totalidade de ideia e coisa”.

Quente e Frio não são mais que os extremos ou polos respectivos que denotam dois diferentes graus de uma coisa maior, isto é, a Temperatura. De novo, Oriente e Ocidente são meros termos relativos e comparativos, nenhum dos quais é completo em si mesmo; isso também se pode dizer em relação a Norte e Sul; Afiado e Cego; Grande e Pequeno, e assim por diante. Todos esses termos, e as coisas representadas por eles, são relativos e comparativos, e só são úteis para indicar os graus ou estágios respectivos, ou uma coisa ou termo maior – no segundo caso, geralmente são desconhecidos ou não expressos no momento.

Um escritor dedicado ao tema geral da filosofia Hindu, Sarvepalli Radhakrishnan, diz sobre isso: “A antítese de causa e efeito, substância e atributo, bem e mal, verdade e erro etc., deve-se à tendência humana de separar termos que são relacionados. É possível lidar com o enigma de Johann Gottlieb Fichte sobre o Eu e o Não Eu, com as antinomias de Kant e com a oposição de Hume entre fatos e leis, desde que reconheçamos que os fatores divergentes se baseiam em uma identidade” (Philosophy of the Upanishads, p. 55). A concepção Budista é representada pelo seguinte trecho de uma obra muito pequena e muito boa sobre o tema geral do Budismo, a saber: “Os Pares de Opostos, as infinitas séries de princípios aparentemente contrários [...] são praticamente fatos complementares de um todo comum” (What is Buddhism?, p. 124).

Um exemplo conhecido dessa questão é o fato de que, se uma pessoa viajar ao redor da Terra seguindo em direção a Leste, ela voltará ao ponto de onde partiu no Oeste. O Extremo Oriente e o Extremo Ocidente representam a mesma localidade; os dois termos representam visões contrastantes relativas e comparativas. Da mesma maneira, para um homem situado no Polo Norte, qualquer direção significa Sul – e, caminhando em linha reta, ele será obrigado a avançar em direção ao Sul, a despeito de como ele introduza mudanças em sua trajetória. Em geral, as diferenças nas respectivas qualidades das coisas não passam de uma questão de diferença em graus da maior síntese dos dois opostos. Se aplicarmos esse teste a quaisquer conjuntos de qualidade contrastantes e opostos, como Afiado-Cego, Pesado-Leve,

Escuro-Claro etc. etc., descobriremos essa regra por nós mesmos. Isso também se aplica às qualidades emocionais, bem como às físicas, como no caso do Amor-Ódio etc.

O princípio geral da Polaridade, e o de “tese-antítese-síntese”, podem ser aplicados às atividades da vida e do pensamento humanos, bem como àquelas do mundo físico. Dissemos que se alguém avançar em direção a qualquer polo específico de uma coisa qualquer, e “seguir em frente”, ele terminará por alcançar o polo oposto da coisa – em última análise, toda essa viagem física ou mental é “circular’. O Ódio intenso transforma-se em Amor ardente; o Amor ardente, em Ódio intenso. O metal fundido, quente, e o ar líquido (intensamente frio) produzirão os mesmos tipos de queimaduras na pele, e a mesma sensação de dor. Os amigos mais próximos às vezes se transformam nos inimigos mais implacáveis; em certos casos, o contrário disso também acontece. Novos convertidos ou prosélitos são proverbialmente intolerantes (e essa intolerância costuma ser cáustica) em relação a suas antigas crenças.

Da mesma maneira, o libertino recuperado torna-se um verdadeiro santo, uma vez distanciado de sua vida anterior; o santo mais devoto, uma vez apartado de sua vida beata, geralmente se transforma no mais consumado devasso. As virtudes levadas a extremos irracionais e fanáticos, frequentemente se convertem nos piores vícios; a indulgência extrema muitas vezes resulta em saciedade, impotência, reforma radical. “Ação e Reação são idênticas, porém opostas.” “Para cada ação há uma reação igual e oposta.” Nas mitologias, os anjos caídos tornam-se Reis dos Demônios. “Os extremos se encontram”, é uma frase proverbial. “As antinomias não condicionam; elas tendem a cancelar-se mutuamente”, é um adágio filosófico e científico. Na verdade, segundo alguns escritores, parece haver em operação na Vida a imagem de uma Ironia Cósmica em que o objeto originalmente escolhido é substituído por seu oposto – no qual “as coisas funcionam exatamente do contrário do que se pretendia”.

Todas as coisas tendem a ilustrar a presença e operação da Lei Cósmica da Polaridade. Isso se aplica a todos os planos de Atividade Cósmica. Teremos novos exemplos desse fato quando chegarmos ao exame da sétima Lei

Cósmica – a Lei Cósmica do Equilíbrio ou Compensação. Chamamos a atenção do leitor especialmente para essa Lei do Equilíbrio ou Compensação, pois ela é complementar e suplementar à Lei da Polaridade. É necessária para uma compreensão plena da segunda.

De tão geral que é o reconhecimento expresso ou tácito da Lei da Polaridade – da tese, antítese e síntese em uma unidade transcendente –, a filosofia, conforme o declaram renomados mestres, ampliou sua aplicação, levando-a até mesmo para certos princípios fundamentais das atividades Cósmicas que em geral são tidos como absolutamente separados entre si, a saber, a Mente e Matéria, respectivamente. Durante longos períodos da história filosófica, houve uma discussão cáustica sobre a questão de qual desses dois princípios, a Mente ou a Matéria, era a realidade fundamental, e qual era o “subproduto” meramente epifenomênico. Nas palavras de certo autor sobre o assunto: “Admite-se que tanto a Mente como a Matéria estão aqui; a questão em debate é ‘Qual estava presente, primeiro?’” Esse era, de fato, o ponto de disputa entre as escolas rivais de Materialismo e Idealismo, respectivamente.

Herbert Spencer, porém, apesar de reconhecer os respectivos méritos de ambos os lados, forneceu o elo perdido da Síntese ao postular as atividades tanto da Mente quanto da Matéria como aspectos polares coexistentes de uma realidade subjacente que transcende a ambos – considerando-se a Realidade Subjacente como Incognoscível. Em suma, ele sustentava que as atividades da Mente e as atividades da Matéria são, igualmente, nada além de fenômenos – os aspectos duais de uma Energia Última que deve, por necessidade, permanecer sempre Incognoscível às nossas mentes finitas, que só podem conhecer coisas relativas e condicionadas do mundo fenomênico.

A propósito, porém, o Budismo sempre sustentou que a Matéria fenomênica e a Mente fenomênica são simplesmente opostos polares, e podem ser sintetizadas em forma de uma unidade superior – embora esta última esteja além do pensamento finito. Além do mais, os preceitos esotéricos em geral sempre defenderam essa posição, e disso nos dá testemunho a seguinte afirmação categórica de H. P. Blavatsky:

“Mas, logo que saímos, em pensamento dessa (para nós) Negação Absoluta (Absolutidade), surge o dualismo no contraste entre o Espírito (ou Consciência) e a Matéria – entre o Sujeito e o Objeto. O Espírito (ou Consciência) e a Matéria devem ser, no entanto, considerados não como realidades independentes, mas como duas facetas ou aspectos do Absoluto, que constituem a base do Ser Condicionado, seja subjetivo ou objetivo [...]. Assim como a Ideação pré-Cósmica é a raiz de toda consciência individual, também a Substância pré-Cósmica é o substrato da Matéria nos seus diversos graus de manifestação [...]. Daí resulta que o contraste desses dois aspectos do Absoluto é essencial para a existência do Universo Manifestado [...] que é informado pela dualidade, que vem a ser a essência mesma de sua Existência como Manifestação.”

O reconhecimento quase intuitivo da validade do princípio geral da Polaridade é, de fato, tão universal, que muitos filósofos sentiram-se autorizados a tentar sua aplicação até mesmo para além dos limites das atividades condicionadas do Cosmos Manifesto; e inclinaram-se a considerar o Cosmos (do modo como o conhecemos) em si mesmo como um polo de uma Unidade maior, última e final – de um Par Último de Opostos – cujo último polo nada mais era que o Princípio Não Manifesto, ou estado de Ser Não Manifesto que os filósofos chamam de “O Absoluto” ou, talvez, de “Absolutidade”.

Portanto, Herbert Spencer viu-se forçado a postular a presença de um Eterno Absoluto – ou um estado de Eterna Absolutidade Não Condicionada – que transcende e se sobrepõe aos estados fenomênicos, relativos e condicionados do Ser Cósmico. Spencer sustentava que esse postulado era necessário devido à sua percepção do oposto nele contido, isto é, o universo de relatividade, mudança e impermanência. Spencer reconhecia a necessidade absoluta de postular a presença desse oposto final – por vê-lo como uma exigência de todo pensamento racional sobre o assunto, uma vez que o filósofo levava suas ideias à sua conclusão lógica.

Os Budistas também julgaram necessário fazer o mesmo, a fim de atender a todos os requisitos de sua própria lógica, embora eles também tenham sido forçados a declarar que seus estados mais elevados de Paranirvana, ou

Suchness (como era chamado), sejam essencialmente incognoscíveis. O postulado desse estado polar-oposto foi uma exigência do pensamento deles; foi uma necessidade de seu pensamento lógico sobre a questão do ser. Citaremos aqui, extraído de um tratado moderno sobre o tema do Budismo em geral, um trecho que remete diretamente a esse argumento específico:

“O Budista vê à sua volta um mundo que pode ser mostrado em todas as suas partes como impermanente e irreal. Se tudo que conhecemos é irreal, finito e transitório, a lógica exige a Polaridade oposta em um Real que é simultaneamente infinito e eterno. Como uma sombra precisa da sua substância, como um reflexo precisa do seu objeto, assim a provável irrealidade, do modo como a conhecemos, precisa de uma realidade Última, da qual o Universo é a manifestação periódica e fugaz [...]. Segue-se daí que não podemos nem definir e descrever, nem discutir com algum proveito essa natureza Daquilo que está necessariamente além da compreensão de nossa consciência finita. Pode-se indicá-lo por negativas e descrevê-lo indiretamente por analogia, símbolos e glifos, mas do contrário, para nós – em nosso presente estado –, deve permanecer para sempre incognoscível, inefável e inexprimível.” (What is Buddhism? Compilado pela Loja Budista, Londres; pp. 15-6).

Contudo, neste ponto sentimo-nos forçados a encerrar nossa inquirição sobre a grande Lei da Polaridade – para restringir nosso exame dela ao campo particular indicado em nossa declaração de propósitos inicial. Por conseguinte, não tentaremos aqui examinar, em detalhes, qual filosofia avançou no que diz respeito à natureza exata da conexão necessária existente entre o

Imanifesto e a Manifestação – entre o Cosmos e Aquilo que o transcende. Há uma vastíssima gama de escolas de pensamento filosófico que procura explicar e desvendar esse último mistério. A filosofia antiga e moderna, tanto esotérica como exotérica, apresentam suas respectivas alegações de reconhecimento.

A chamada concepção Panteísta geral, em suas muitas formas abertas e dissimuladas, apresenta uma solução atraente desse problema em seu esplêndido tríplice postulado, segundo o qual (a) o Eterno Infinito está sempre presente e imanente em toda natureza Manifesta; (b) toda Natureza Manifesta está presente e eterna na totalidade do Eterno Infinito, como um conteúdo nele implícito, mas não como sua totalidade; (c) e, portanto, fica estabelecida a Unicidade e Unidade essenciais do Imanifesto e da Manifestação. Como exemplo disso, apresentamos uma citação extraída do grande clássico hindu, o Bhagavad Gita, em seu Capítulo X: “Estabeleço a totalidade deste Universo com uma única porção de mim, e continuo separado”.

Muitas outras vertentes da filosofia e da teologia certamente têm suas próprias e variáveis concepções sobre essa questão. De fato, é possível dizer que sintetizar essa aparente Dualidade na genuína Unidade Última constitui o supremo empenho de todo pensamento filosófico verdadeiro – o objetivo final que todos eles procuram alcançar. Por outro lado, porém, as melhores cabeças filosóficas afirmam que essa Unidade Última é nossa principal e irrevogável certeza – o irrefutável fato Daquilo-que-É.

Capítulo X
A lei cósmica do equilíbrio ou compensação

“Tudo está em equilíbrio.”

A sétima lei do Cosmos é a Lei do Equilíbrio ou Compensação, que pode ser formulada da seguinte maneira:

“Todas as atividades no Cosmos são equilibradas e compensadas, e manifestam um estado de estabilidade, equilíbrio e contrapeso.” Os termos acima são assim definidos: “Equilíbrio” [Balance] significa “Igualdade entre a soma total de um cálculo; equilíbrio [equilibrium]; contrapeso [equipoise]. “Compensação” significa “o ato ou princípio de compensar, isto é, fazer retribuições a [alguém], recompensar devidamente, retificar (algo), contrabalançar etc.” “Contrapeso” significa “Igualdade de peso ou força; equilíbrio; estado em que duas extremidades ou dois lados estão em equilíbrio, sendo, portanto, iguais; peso de compensação”. “Equilibrium” significa “Igualdade de peso ou força; contrapeso, ou estado de repouso entre motivos ou razões conflitantes”. Esses diversos termos são quase idênticos em seu significado e conteúdo geral e essencial, como o leitor perceberá. O sentido essencial que os une é o de “igualdade de peso ou força”.

A história filosófica geral da Lei do Equilíbrio ou Compensação é semelhante àquela aqui examinada em nossa análise das respectivas Leis da Polaridade e Ritmo. Heráclito e o Buda são seus mais notáveis defensores na Antiguidade; Herbert Spencer, seu mais importante partidário moderno. Os Hermetistas empregavam o princípio na formulação de seus métodos práticos de aplicação à vida humana. Aristóteles usou-o como base de seus preceitos sobre seu famoso “Meio-Termo”. Os Budistas aplicaram-no no ensinamento sobre a importância de “andar sobre o fio da navalha”.

Os Ocultistas sempre reconheceram e ensinaram a importância de se observar a Lei do Equilíbrio – o empenho em viver de tal modo que torne possível conseguir e manter o equilíbrio moral, racional e emocional, ou “permanecer no caminho do meio”; o equilíbrio obtido pelos Pares de Opostos graças à observação do Meio-Termo entre eles –, que é o centro dos dois extremos. Esse equilíbrio requer muito conhecimento, discriminação penetrante, percepção e observação eficientes; e sua expressão ideal, ainda que frequentemente buscada, mas, em termos relativos, raramente alcançada em sua perfeição. Na simbologia esotérica, é quase sempre comparado ao conhecido “andar na corda bamba”.

O empenho mais intenso do esoterismo avançado consiste em “reajustar o equilíbrio de poder, removendo, assim, a pressão desigual do Karma retributivo”. Na verdade, o que geralmente se ensina é que, em si mesmo, o Karma resulta de uma perturbação do Equilíbrio Cósmico –, que, se a Harmonia perfeita fosse mantida, tal karma cessaria. H. P. Blavatsky diz: “Descrever o Karma como a Lei do Reajuste, que sempre tende a recuperar o equilíbrio perturbado no mundo físico e a harmonia destruída no mundo moral. O Karma sempre atua no sentido de restaurar a Harmonia e preservar a inalterabilidade do equilíbrio, em decorrência da qual o universo existe” (Key to Theosophy, p. 102).

Em geral, a Lei do Equilíbrio ou Compensação tem um número quase infinito de possibilidades de aplicação. As mais importantes entre elas serão aqui mencionadas. O princípio fundamental, porém, permanece idêntico em todos esses exemplos (e em muitos outros). A lei em questão é universal em sua aplicação. Por meio dela, as coisas se mantêm “niveladas”. Uma coisa tem suas qualidades positivas comparadas com as qualidades negativas de outra, e isso permite que um equilíbrio seja assegurado e mantido.

Por exemplo, nos casos apresentados a seguir: as forças centrípetas e centrífugas tendem a equilibrar-se mutuamente, o que lhes assegura a criação de equilíbrio. Se não for controlada em seu desenvolvimento e reprodução, uma espécie de coisas vivas infestará rapidamente o planeta; contudo, o equilíbrio necessário é sempre garantido por outras, o que impede o predomínio do desequilíbrio. Quando, por ignorância, o homem às vezes perturba temporariamente esse equilíbrio da Natureza e da Vida, ocorre uma infinidade de problemas, como bem o sabe a ciência. A vida vegetal serve a vida animal com os necessários elementos e combinações químicas, e vice- versa; cada qual fornece o que é de importância vital para o outro – aquilo que, em resumo, lhes permite alimentar-se e respirar.

As diferentes forças da Natureza envolvem-se em constantes conflitos, mas seu equilíbrio produz os resultados necessários para levá-las a uma interatividade harmoniosa. Já se disse que “Com dois grupos de forças contrárias em conflito, o universo vivencia uma infindável distribuição e ajuste de seu conteúdo”. Sem a Lei do Equilíbrio, o Cosmos não poderia existir enquanto tal – a Lei está inextricavelmente ligada às atividades Cósmicas. No Cosmos, a Lei e a Ordem dependem do Contrapeso e do Equilíbrio.

O professor Garrett P. Service diz: “A ciência física desconhece qualquer violação da lei das Equivalências, e não pode sequer imaginar tal violação. Em todas as coisas de que a ciência se ocupa, a começar pela Terceira Lei de Newton, segundo a qual a toda ação corresponde uma reação de mesmo valor e direção, mas com sentido oposto, a teoria tem um perfeito equilíbrio” (Balance, de Orlando J. Smith, p. 177). John Fiske afirma: “Considerados em seus sentidos mais amplos, todos os processos que temos visto cooperar na evolução dos organismos são processos de equilíbrio e ajuste” (Cosmic Philosophy, vol. II, p. 64).

Herbert Spencer usa os termos “equilibração” e “equilíbrio” de modo intercambiável. Diz ele: “Essa coexistência universal de forças antagônicas, que precisa da universalidade do ritmo e da dissolução de cada força em forças divergentes, precisa, ao mesmo tempo, da instituição essencial do equilíbrio” (First Principles, p. 497). Ele também diz que a “Lei de Equilibração, a cujas origens estamos agora remontando –, apresenta-o a cada momento no equilíbrio das forças mecânicas; de hora em hora no equilíbrio das funções; de ano a ano nas mudanças de estado que contrabalançam as mudanças de condição; e, por último, na completa suspensão dos movimentos vitais quando da ocorrência da morte” (Ibid., p. 511).

Em seu famoso ensaio sobre o naturalismo, John Burroughs assinalou as operações da Lei do Equilíbrio na Natureza. Em suas palavras: “Nas regiões selvagens, nos rincões mais agrestes, uma forma de vida devora outra, mas o equilíbrio é mantido pela Natureza. Uma dimensão mais plena de vida é dada às formas que são devoradas por outras formas; elas são mais prolíficas. Os ratos e camundongos são muitíssimo mais prolíficos do que as doninhas ou corujas, que deles se alimentam; os coelhos têm dez crias para cada cria de sua inimiga, a raposa; a quantidade de passarinhos sobrepuja incrivelmente o número de gaviões existentes; os peixes pequenos, que são o alimento dos maiores, fervilham no mar. É provável que nenhuma espécie venha a ser jamais exterminada por seus inimigos naturais. Esses inimigos só mantêm as coisas sob controle. Os pássaros impedem que os insetos destruam as plantações, que são a fonte de toda alimentação [...]. O aumento do instinto de procriação dos animais que servem de alimento aos rapinantes resultaria, com o passar do tempo, em superpopulação e longos períodos de fome [...].

“A Natureza estimula a competição e a luta entre grupos, com a expectativa de gerar uma situação de equilíbrio. A Natureza é imparcial [...] sem um pouco mais de vantagem de um dos lados, o jogo ficaria sem movimento e ação – haveria escassez de pássaros, ou os gaviões morreriam de fome. A Natureza mantém o equilíbrio. O gambá e o porco-espinho têm pouco ou nenhum medo, mas nenhum dos dois é muito inteligente [...]. A Natureza usa uma forma para manter o controle da outra, e, desse modo, como um capitalista experiente, distribui seus investimentos de modo que os rendimentos sejam constantes. Se ela puser todos os seus fundos em camundongos e pássaros, os gatos e as corujas logo morreriam de fome; se investir tudo em marmotas, as pastagens e campinas logo ficariam insuficientes para os rebanhos.

“O homem comumente perturba o equilíbrio da Natureza; a limpeza e o cultivo da terra mantiveram sob controle os inimigos naturais das marmotas – raposas e corujas – e, ao mesmo tempo, aumentaram enormemente as fontes naturais de suprimento alimentar desses animais, de modo que os roedores se transformaram numa verdadeira praga para os agricultores. Mudanças muito semelhantes vêm favorecendo os ratos-da-pradaria, e parece que sua população também está aumentando. Esse crescimento, porém, pode estimular o aumento do falcão-caçador- de-ratos, e o equilíbrio será mantido. Esse é o perigo de introduzir novas formas de vida selvagem num país – seus inimigos naturais nem sempre estão presentes para sabermos de sua existência” (Ensaios sobre Tooth and Claw. In Accepting the Universe. Houghton,

Mifflin Co., Nova York).

Orlando J. Smith também apresenta excelentes exemplos e ilustrações do caráter universal do Equilíbrio. Ele propõe sua operacionalidade em todos os campos da atividade natural. Por exemplo, diz Smith:

“A ciência moderna aceita com unanimidade absoluta, como uma enunciação fundamental, que ‘para cada ação há uma ação igual e uma reação contrária’. Esta é a Terceira Lei do Movimento de Newton, que é aceita como o axioma fundamental da física. Nela, em minha opinião, Newton expressou também a lei fundamental da Natureza – aquela segundo a qual ação e reação são incessantes, equivalentes e compensatórias [...]. A atração do Sol equilibra o momentum que, fossem outras as circunstâncias, projetaria a Terra numa linha contínua no espaço. O equilíbrio mantém a Terra inalterável em seu curso ao redor do Sol. As forças opostas de atração e repulsão e de movimento centrípeto e centrífugo existem no mundo em suas maiores e menores partes, tanto nas constelações como nos átomos.

“A ciência é forçada a reconhecer a repulsão como um fenômeno tão universal quanto a atração [...]. A ciência só tem conhecimento disso – que essas forças existem; que elas se encontram, contrabalançam, neutralizam e regulam-se mutuamente, às vezes moderada ou imperceptivelmente, outras vezes violentamente e com terríveis convulsões, e que em suas influências, contatos, batalhas e guerras, elas mantêm tudo em equilíbrio [...]. Que, nessas incessantes transformações, a repulsão equilibra a atração e os efeitos equilibram as causas – em resumo, que a reação se iguala à ação, que o equilíbrio participa da transformação e a controla [...]. As concepções fundamentais da ciência apontam clara e enfaticamente para essa generalização mais elevada e única – que o Equilíbrio rege o mundo [...]. O Equilíbrio é a chave de tudo isso, a palavra que tudo explica, o princípio que unifica todas as coisas.

“A universalidade da equivalência é amplamente expressa na lei da conservação da energia: ‘Quando uma forma de energia desaparece, seu equivalente exato, sob outra forma, sempre vem substituí-la’. A lei, aceita pela ciência moderna, não deixa espaço para o pressuposto de que possa haver uma falha de equivalência no movimento ou na transformação. Podemos dizer que os equivalentes que retornam persistentemente, em movimento e transformação, são compensatórios? Sim; o retorno de um equivalente exato é uma exata compensação. O calor é a compensação para o combustível que o produz; a eletricidade é a compensação para a energia que se transforma nela; uma molécula de água é a compensação para dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio. Uma quantidade definida de matéria ou força paga, sob outra forma, exatamente a mesma quantia. O que desaparece e o que vem em seguida são mutuamente compensatórios. O combustível paga pelo calor, e o calor paga pelo combustível. Na natureza não há contas de ganhos e perdas, nem insolvências, nem falta de ressarcimentos” (Balance). Em sua fase especial de Compensação, a Lei do Equilíbrio opera no sentido de “retribuir e indenizar”; faz um importante trabalho desse tipo, particularmente nas formas superiores de vida. Os filósofos ensinaram que “para cada coisa recusada, alguma outra coisa é oferecida”. No ensaio “Sobre a Compensação”, de Ralph Waldo Emerson, há uma profusão de exemplos ilustrativos sobre essa fase específica da Lei da Compensação, assim como sobre esse tema da Lei do Equilíbrio em geral. Entre outras coisas, ele sustenta “Nenhuma criatura é favorita; uma certa compensação equilibra cada dom e cada insuficiência”. Sua ideia fundamental é a seguinte: “Tudo é passível de compensação e serve para compensar” – uma enunciação digna de um princípio cardinal.

Os excertos abaixo, extraídos do ensaio de Emerson acima mencionado, talvez apresentem um panorama geral de seu pensamento sobre a questão; no entanto, fica ao leitor o conselho de ler e estudar o ensaio inteiro, caso ainda não o tenha feito. Emerson diz:

“O mesmo dualismo é subjacente à natureza e à condição do homem. Todo excesso provoca um defeito; todo defeito, um excesso. Toda doçura tem seu amargor; em todo mal está contido seu bem. Toda faculdade que é um receptor de prazer tem um castigo igual que será aplicado a seu abuso. Para cada grão de sabedoria existe um grão de insensatez. Por tudo que você perdeu, há alguma outra coisa que ganhou; e, para tudo que ganhou, haverá alguma coisa que terá perdido. Perde alguma coisa por tudo que ganha. Se as riquezas aumentam demais, a Natureza tira do homem aquilo com que preencheu seu cofre; ela aumenta seu patrimônio, mas mata o proprietário. A Natureza odeia monopólios e exceções. As ondas do mar não apenas procuram, mais celeremente, seu nível mais alto, do que as diversidades das condições humanas tendem a igualar-se. Há sempre uma circunstância niveladora que, substancialmente, coloca os arrogantes, os fortes, os ricos e venturosos em pé de igualdade com todos os outros. Haverá um homem demasiado forte e rude para a sociedade e, por temperamento e posição, um mau cidadão – um facínora insociável, um grosseirão que finge gostar da convivência com seus semelhantes? – a natureza lhe enviará muitos filhos e filhas que se darão muito bem com a mestra da escolinha local, enquanto ele, por amor e temor aos filhos, transformará sua expressão de escárnio habitual em civilidade e polidez no trato. Portanto, a Natureza consegue integrar o granito e o feldspato, elimina o suíno da equação, substitui-o pelo cordeiro e consegue manter o equilíbrio.

“Essa lei determina a regulamentação de cidades e nações. É inútil unir-se, arquitetar ou conspirar contra ela. As coisas não se prestam a ser mal administradas por muito tempo. Ainda que não se interponha nenhum obstáculo a novos males, os obstáculos existem e vão aparecer. Se, por um lado, você cobrar impostos muito altos, a renda será deficitária. Se você elaborar um código penal sanguinário, ninguém será condenado pelos júris. Se a lei for muito branda, fará surgir a vingança privada [...]. A vida e os prazeres do homem parecem excluir os extremos de dureza ou bem-estar, mostrando-se também mais propensos a estabelecer-se com grande indiferença nas mais diferentes circunstâncias. Seja qual for a forma de governo, a influência do caráter permanecerá a mesma [...].

“Todo ato contém em si sua própria recompensa, ou, em outras palavras, se integra de duas maneiras distintas: primeiro, na coisa em si; e depois, na circunstância ou na natureza aparente. Os homens chamam as circunstâncias de retribuição. A retribuição causal está nas coisas, e é testemunhada pela alma. A retribuição na circunstância é testemunhada pelo entendimento; é inseparável da coisa, mas é comum que se estenda por um longo período de tempo, o que faz com que se torne distinta depois de muitos anos. As marcas do açoite podem não surgir logo após a agressão, mas surgirão porque a acompanham. O crime e o castigo provêm do mesmo galho. O castigo é um fruto sobre o qual não recai suspeita, que amadurece com o prazer que o oculta. Não é possível separar causa e efeito, meios e fins, semente e fruto, pois o efeito já floresce na semente [...]. As imprecações sempre recaem sobre a cabeça daqueles que as lançaram. Se você puser uma corrente no pescoço de um escravo, a outra extremidade dela irá se enroscar ao redor do seu. Maus conselhos confundem o conselheiro. O Diabo é um asno. Assim está escrito porque é assim que acontece na vida. Um homem não pode falar, mas ele julga a si mesmo. Você não pode cometer erros sem sofrer” (Essay on Compensation). Em grande parte do ensaio do qual extraímos os exemplos acima, Emerson recorre muitas vezes aos preceitos do Oriente sobre o Karma, em particular os preceitos Budistas a respeito do tema. H. P. Blavatsky descreve o funcionamento do Karma da seguinte maneira:

“O Karma é a lei universal da justiça retributiva [...]. O Karma, em seus efeitos, é uma reparação infalível da injustiça humana, uma rigorosa reparação das injustiças, uma lei retributiva que recompensa ou castiga com igual imparcialidade. Trata-se de uma crença comum aos Hindus e Budistas, que acreditam no Karma [...]. Aqui, vós tereis prova de que as consequências das ações, pensamentos etc. de um homem, devem reagir sobre ele com a mesma força com que foram postas em movimento [...]. O Karma devolve a cada homem as verdadeiras consequências de suas próprias ações. Ele recebe o que merece por todas elas. É evidente que ele terá de remediar todo o sofrimento que causou, assim como terá de colher, com alegria e felicidade, os frutos de toda felicidade e harmonia que ajudou a criar” (The Key to Theosophy, Capítulo XI). Além disso, os preceitos Budistas ligam-se tão assertivamente à presença e operação das respectivas Leis da Causalidade e Compensação Equilibrada (que se manifestam coletivamente como Karma) que, em todas as suas declarações de princípios, afirmam que sua própria doutrina de Renascimento ou Reencarnação constitui, em si mesma, uma consequência direta e resultante daquelas outras. Isso quer dizer que, somente pelos fatos do Renascimento e da Reencarnação – a sucessão de vidas pessoais –, as exigências do Karma (em seus aspectos constitutivos de Causalidade e Compensação Equilibrada) podem ser plena e devidamente atendidas. Se assim não fosse, elas não poderiam ser e não seriam cumpridas e satisfeitas. De fato, para levar a operação dessas leis a sua conclusão lógica, dizem eles, o Renascimento e a Reencarnação devem ser postulados como uma verdade necessária. O ensinamento é bastante enfático nesse aspecto particular.

Os Budistas sustentam que a operação das duas respectivas leis há pouco citadas requer muito mais do que uma vida terrena a fim de completar seu trabalho. Para eles, cada Vida individual traz consigo certo número de vidas pessoais sucessivas, ou ciclos de vida; somente quando ligados como um todo, esses ciclos de vida ou vidas pessoais constituem a “vida” de um indivíduo. Para eles, os efeitos manifestos na presente vida pessoal são, em grande medida, o resultado de causas geradas em vidas pessoais anteriores. Da mesma maneira, para eles as causas geradas na atual vida pessoal irão manifestar-se como efeitos em uma futura vida pessoal (ou futuras vidas pessoais). O Karma implica o elemento do tempo em suas operações.

Não se deve esperar que as causas geradas no presente ciclo de vida pessoal venham a produzir seu pleno efeito no breve espaço dessa vida pessoal específica; é preciso olhar para as vidas pessoais futuras em busca da expressão adequada, dizem os Budistas. Os livros de um ciclo de vida particular não são fechados pela morte; ao contrário, um equilíbrio é levado para os livros futuros da vida pessoal. Aquele que pratica um ato, bom ou mau, deve inevitavelmente colher suas consequências, dizem eles. Se assim não for, a Compensação será impossível. Não pode haver nenhum equilíbrio completo sob qualquer dos outros princípios. Em essência, são estes – levados a sua conclusão plena e lógica – o entendimento e a interpretação Budista da Lei da Compensação Equilibrada.

Em seu poema “A Luz da Ásia”, sir Edwin Arnold reporta-se ao pensamento Budista sobre essa questão particular, e o faz da seguinte maneira:

“Os Livros o dizem bem, meus Irmãos! a vida de cada homem Nada mais é que o resultado de sua vida anterior; Os erros do passado só trouxeram tristeza e aflições, As benesses antigas ora nos encantam e enlevam. Colhe agora tua antiga semeadura. Admira a beleza ao redor! O sésamo era sésamo, o milho era milho. O Silêncio e a Escuridão sabem disso! Assim nasce o destino de um homem. Ele vem, ceifeiro das coisas que ele mesmo semeou, Sésamo, milho, E tanta erva daninha; e tanto veneno que o desfigurava E danificava a terra já tão sofrida. Se ele trabalhar direito, arrancando essas ervas E plantando mudas originárias de sementes integrais,

Onde elas crescem, frutífero, belo e limpo será o solo, Que então se tornará pleno de abundantes colheitas.”

Por último, então, nos damos conta de que, sob essa Lei do Equilíbrio e Compensação, precisamos sempre abrir mão de alguma coisa para conseguir algo mais – há um processo de “negociação” e “intercâmbio” – em toda a Natureza. Um antigo adágio oriental em que se afirma o seguinte: “Disseram os deuses aos homens: ‘O que quereis? Pois tomai-o – Mas pagai o preço!’” Na Natureza, o preço é sempre cobrado; sempre coletado; sempre pago. Quase sempre, é pago antecipadamente; repetindo o que já dissemos, no momento em que se faz o serviço de entrega (C.O.D.); mais uma vez, depois da entrega; às vezes, muito depois; talvez, em futuras prestações. O preço, porém, é sempre pago, de uma maneira ou de outra.

Uma pessoa não consegue assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. Ela precisa pensar bem – escolher criteriosamente – e ter o bom senso de determinar o que mais quer. Depois, é uma questão de “pegar ou largar”; se pegar, porém, deve ser notificada de que deve “pagar o preço”. Além de verdadeiro, isso é também inevitável, invariável e infalível. Esta é a Lei da Compensação Equilibrada, manifestando-se em uma de suas incontáveis formas e fases. Como no início, assim também no final: “Tudo, no Cosmos, é Equilibrado e Compensado, e existe numa condição de Estabilidade, Equilíbrio e Contrapeso”. Assim diz a Lei!

FINIS.